domingo, 3 de maio de 2026

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO 3

 



"REFLEXÕES SOBRE O TEATRO"

compiladas por Cássio Pires de Freitas.



Bertolt Brecht, Louis Jouvet, Zeami, Peter Brook, Tertuliano, Friedrich Nietzsche, Bharata, Manifesto Arte Contra a Bárbarie, Constantin Stanislavki, Martins Penna, José Celso Martinez Correa, João Guimarães Rosa, Bertolt Brecht, Anatol Rosenfeld, Jorge Luis Borges,...



Bertolt Brecht

(1898-1956)








14 de agosto, aniversário de morte de Bertolt Brecht. Um poema de um homem que fez teatro e pelo teatro se entregou a busca de compreender os fenômenos à sua volta. O poema é dedicado aos que viriam ao mundo depois da vinda de seu autor. Eis o poema, chamado "Aos pósteros" (tradução de Modesto Carone):



I



Realmente vivo em tempos sombrios.

A palavra ingênua é tola. Uma fronte lisa

Indica insensibilidade. Aquele que ri



Ainda não recebeu



A terrível notícia.



Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Por que inclui um silêncio sobre tantos delitos?

Aquele que vai pela rua tranqüilo

Não é mais acessível aos amigos

Que estão em necessidade?



É verdade: ainda ganho o meu sustento

Mas acreditem: é por acaso. Nada

do que faço autoriza que eu me sacie.

Casualmente fui poupado. (Quando minha sorte acabar

Estou perdido.)

Dizem-me coma! beba! fique feliz por ter o quê!



Mas como posso comer e beber se

Tiro ao faminto o que comer e

Meu copo d'água falta a quem tem sede?

No entanto, como e bebo.



Gostaria também de ser sábio.

O que é sábio está nos velhos livros:

Afastar-me da briga do mundo e passar

Sem medo a curta temporada

Sobreviver sem violência

Pagar o mal com o bem



Não realizar os desejos, mas esquecê-los

É tido por sábio.

Nada disso eu posso:

Realmente, vivo em tempos sombrios!



II



Cheguei às cidades no tempo da desordem

Quando aí reinava a fome

Cheguei-me aos homens no tempo do tumulto

E indignei-me com eles.



Assim passou o tempo

Que me foi dado sobre a terra.



Comi minha comida entre as batalhas

Deitei-me para dormir entre os assassinos

Tratei do amor sem atenção

E vi a natureza sem paciência.



Assim passou o tempo

Que me foi dado sobre a terra.



No meu tempo os caminhos levavam ao pântano.

Minha linguagem denunciava-me ao carrasco.

Só pude pouca coisa. Mas esperava que sem mim

Os dominadores se sentassem mais seguros.



Assim passou o tempo

Que me foi dado sobre a terra.



As forças eram escassas. O alvo

Ficava a grande distância.

Era bem visível, embora

Eu mal pudesse alcança-lo.



Assim passou o tempo

Que me foi dado sobre a terra.



III



Vocês, que emergirão da maré

Onde nós soçobramos

Pensem

Ao falarem das nossas fraquezas

Nos tempos sombrios

De que escaparam.

Pois nós, desesperados, trocando mais de países

Que de sapatos, atravessamos as guerras de classes quando

Só havia injustiça e nenhuma revolta.

No entanto sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Contorce os traços.

Também a cólera contra a injustiça

Deixa a voz rouca. Ah, nós

Que quisemos preparar o chão para a amabilidade

Nós próprios não pudemos ser amáveis

mas vocês, quando tiver chegado a hora

Do homem ajudar o homem

Pensem em nós

Com indulgência.





Anatol Rosenfeld

(1912-1973)



A seguir, palavras do crítico e professor alemão Anatol Rosenfeld, que chegou ao Brasil fugindo do perigo nazista e aqui vivendo colaborou sobremaneira para os desenvolvimento dos estudos literários e teatrais brasileiros:

"Teatro não é instrumento a serviço da literatura"

(palestra proferida n´A Hebraica, em 3/9/1966)


"O teatro, longe de ser apenas veículo da peça, instrumento a serviço do autor e da literatura, é uma arte de próprio direito, em função da qual é escrita a peça. Esta, em vez de servir-se do teatro é, ao contrário, material dele. O teatro a incorpora como um dos seus elementos. O teatro, portanto, não é literatura, nem veículo dela. É uma arte diversa da literatura.

O texto, a peça, literatura enquanto meramente declamados, tornam-se teatro no momento em que são representados, no momento, portanto, em que os declamadores, através da metamorfose, se transformam em personagem, a identificação de um eu com outro eu - fato que marca a passagem de uma arte puramente temporal e auditiva (literatura) ao domínio de uma arte espaço-temporal ou audiovisual. O "status" da palavra modifica-se radicalmente. Na literatura são as palavras que mediam o mundo imaginário. No teatro são os atores/personagens (seres imaginários) que mediam a palavra. Na literatura a palavra é a fonte do homem (das personagens). No teatro o homem é a fonte da palavra."



Jorge Luis Borges

(1899-1986)



Em 24 de agosto de 1899, nascia, em Buenos Aires, Jorge Luis Borges. Mesmo não sendo ele um homem de teatro, não poderia deixar de homenagea-lo. Quem conhece algo de sua obra, logo concordará. Homem dos mais preciosos que este século acolheu, pensador de tantas esferas do pensamento e do conhecimento, Borges não se privou de, por mais de uma vez, refletir sobre teatro. Foi em um de seus pequenos ensaios, encontrado no livro " Outras Inquisições", que recolhi esta passagem primorosa que copio abaixo:


"El pudor de la historia"


"(...) Desta reflexão me conduzo a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega, que me interessou por ser ligeiramente enigmática. Havia aqui a frase: "He brought in a second actor" (Ele trouxe um segundo ator). Me detive, comprovei que o sujeito dessa misteriosa ação era Ésquilo e que este, segundo se lê no quarto capítulo da "Poética", de Aristóteles, "elevou de um a dois o número de atores". É sabido que o drama nasceu da religião de Dioniso; originariamente, um só ator, o "hipócrita", elevado pelo coturno, trajado de negro ou púrpura e aumentado o rosto por uma máscara, compartilhava a cena com os doze indivíduos do coro. O drama era uma das cerimônias do culto e, como todo o ritual, correu algumas vezes o risco de ser invariável. Isto pôde ocorrer um dia, quinhentos anos antes da era cristã. Os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Vitor Hugo conjeturou o último) a não anunciada aparição de um segundo ator. O que pensaram naquele dia de uma primavera remota, naquele teatro de cor dourada? O que sentiram exatamente? Por acaso nem estupor, nem escândalo; por acaso apenas um princípio de assombro. Nas "Tuscalanas" consta que Ésquilo ingressou na ordem pitagórica, mas nunca saberemos se pressentiu, sequer de um modo imperfeito, o significado daquela passagem de um a dois, da unidade a pluralidade e assim ao infinito. Com o segundo ator entraram o diálogo e as indefinidas possibilidades de reação de uns personagens sobre outros. Um espectador profético haveria visto que multidões de aparências futuras o acompanhavam: Hamlet e Fausto e Segismundo e Macbeth e Peer Gynt e outros que, todavia, nossos olhos não podem discernir."



Antonin Artaud

(1896-1948)



A seguir, um trecho do ator, diretor e teórico francês Antonin Artaud, que dispensa apresentações, retirada de seu mais famoso texto, na passagem em que o seu autor comenta a relação entre o teatro e a cultura:

"O teatro e seu duplo"

"A nossa idéia petrificada do teatro associa-se à nossa idéia petrificada de uma cultura sem sombras, onde, qualquer que seja o lado para que se vire o nosso espírito, não se encontra mais que o vazio, enquanto o espaço está cheio.

Mas o verdadeiro teatro, porque mexe e porque se serve de instrumentos vivos, continua a agitar as sombras onde não deixou de estrebuchar a vida. O ator que não faz duas vezes o mesmo gesto, mas que faz gestos, mexe-se e seguramente brutaliza as formas, mas por detrás dessas formas e pela sua destruição, reúne o que sobreviveu às formas e produz a sua continuidade.

O teatro que não está dentro de nada, mas se serve de todas as linguagens: gesto, sons, palavras, fogo, gritos, encontra-se exatamente no ponto em que o espírito tem necessidade de uma linguagem para produzir as suas manifestações.

E a fixação do teatro numa linguagem: palavras escritas, música, luzes, ruídos, indica a breve prazo a sua perda, a escolha de uma linguagem provando o gosto que se tem pelas facilidades dessa linguagem; e o definhar da linguagem acompanha a sua limitação. Para o teatro, como para a cultura, a questão contínua a ser a de nomear e dirigir as sombras: e o teatro, que não se fixa na linguagem e nas formas, destrói, por esse fato, as falsas sombras, mas prepara o caminho a um outro nascimento de sombras em torno das quais se agrega o verdadeiro espetáculo da vida."



Santo Agostinho

(354-430)

Saint Augustine by Philippe de Champaigne


Sto. Agostinho, o famoso arcebispo de Hipona, reflete, no terceiro livro das suas "Confissões" sobre a sua experiência como espectador de tragédias durante os dias de sua juventude. A sua reflexão terá um objetivo final: arrepender-se de sua antiga paixão pelo teatro, esmagada pela sua paixão da maturidade: a fé católica. Na época de Agostinho, essas paixões soavam pouco mescláveis:

"Confissões"

"Tinha também, ao mesmo tempo, uma paixão violenta pelos espetáculos do Teatro, que estavam cheios das imagens das minhas misérias, e das chamas amorosas que alimentavam o fogo que me devorava. Mas qual é o motivo que faz com que os homens aí acorram com tanto ardor, e que queiram experimentar a tristeza olhando coisas funestas e trágicas que, apesar de tudo, não quereriam saber? Por que o espectadores querem sentir a dor, e essa dor é o seu prazer. Qual o motivo senão uma loucura miserável, pois somos tanto mais comovidos por essas aventuras poéticas quanto menos curados daquelas paixões, apesar de apelidarem de miséria o mal que sofrem na sua pessoa, e misericórdia a compaixão que têm das infelicidades dos outros. Mas que compaixão se pode ter para com as coisas fingidas e representadas num Teatro, uma vez que aí não se excita o auditor para socorrer os fracos e os oprimidos, mas é este convidado apenas a afligir-se com o seu infortúnio?

Que ele fica tanto mais satisfeito com os atores quanto mais eles o comoveram com pena e aflição; e que, se estes sujeitos trágicos, com as suas infelicidades verdadeiras ou supostas, são representados com tão pouca graça e indústria que não o afligem, sai desgostado e irritado com os atores.

Que se, pelo contrário, for tocado com a dor, fica atento e chora, experimentando, ao mesmo tempo, o prazer e as lágrimas. Mas dado que todos os homens naturalmente desejam alegrar-se, como podem gostar dessas lágrimas e dessas dores? Não será que, ainda que o homem não sinta prazer pela miséria, no entanto ela sinta prazer a ser tocado pela misericórdia: e que, dado que não pode experimentar esse movimento da alma sem experimentar a dor, aconteça que, por uma conseqüência necessária, ele acarinhe e goste dessas dores?"



Denis Diderot

(1713-1784)



Diderot foi e ainda é muito contestado por suas idéias e trabalhos. Se lhe resta um mérito indiscutível, talvez seja este: foi o primeiro a escrever um ensaio relevante sobre o trabalho do ator. O "Paradoxo do Comediante" já um tanto superado, ainda resiste como registro e provocação, como obra precursora de um debate que viria a ser central em nosso século. A seguir, um pequeno trecho do Paradoxo, obra construída em forma de diálogos:

"Paradoxo do Comediante"


"PRIMEIRO - Um grande ator não é nem um piano-forte, nem uma harpa, nem um cravo, nem um violino, nem um violoncelo, não existe um acorde que lhe seja próprio; mas ele toma o acorde e o tom que mais convêm à sua parte. E sabe executar todas. Tenho em grande conta o talento de um grande ator: esse homem é raro, tão raro e talvez maior que o poeta.

Aquele que na sociedade se propõe a tal, e tem o infeliz talento de agradar a todos, não é nada, não tem nada que lhe pertença, que o distinga, que entusiasme uns e que canse os outros. Ele fala sempre, e sempre bem; é um adulador profissional, é um grande cortesão, é um grande ator.

SEGUNDO - Um grande cortesão, acostumado desde que respira ao papel de um fantoche maravilhoso, toma toda a espécie de formas, segundo a vontade do fio que está entre as mãos do seu senhor.

PRIMEIRO - Um grande ator é outro fantoche maravilhoso cujo fio é seguro pelo poeta, e a quem ele indica a cada verso qual a forma verdadeira que deve tomar."



Bertolt Brecht

(1898-1956)

Bertolt Brecht - desenho por Lautir



"Procuro por toda parte formas novas e faço experiências com os meus sentimentos, como os mais jovens. Mas depois volto sempre à essência da arte, que é simplicidade, grandeza e sensibilidade, e à essência de sua forma, que é frieza."



Félix Lope de Vega Carpio

(1562-1635)

Retrato anônimo


Lope de Vega, dramaturgo algo esquecido no Brasil, é um dos maiores mitos, senão o maior, da história do teatro espanhol. Cervantes, contemporâneo seu, chamou-o de "O monstro da natureza". Não sem motivo. Lope compôs, ao longo de sua obra, um imenso panorama da vida espanhola, trazendo à cena em peças como "Fuente Ovejuna", "O melhor juiz, o rei", "Peribañez" e "Uma certeza para a dúvida" histórias de reis, de outros nobres e da gente mais humilde da Espanha. Experimentou vários campos nas - pasmem - quase 2000 peças que assinou. O seu mais famoso escrito teórico, "Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo" trata da sua postura em relação as regras clássicas. Sua posição ilumina muito da postura dramaturgica do grande momento do teatro espanhol, o chamado Século de Ouro. Segue um trecho:

"Arte nova de fazer comédias neste tempo" (1609)


"Quando vou escrever uma comédia,

Uso seis chaves para aferrolhar as regras.

De minha presença expulso Plauto e Terêncio,

Receoso de seus ânimos ofendidos...

Pois se afinal é o público que paga,

Por que não atender a seus pedidos?"



Nelson Rodrigues

(1912-1980)



Nelson Rodrigues. O nome já basta para que se apresente o sujeito. Separei uma pequena passagem de um depoimento seu, a propósito de suas primeiras impressões sobre o teatro:


"Memórias"

"De repente, descobri o teatro. Fui ver, com uns outros, um vaudeville. Durante os três atos, houve ali uma loucura de gargalhadas. Só um espectador não ria: - eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e envergonhava. E, no teatro, para não rir, eu comecei a pensar em Roberto e na nudez violada da autopsia. Mas no segundo ato, eu já achava que ninguém devia rir no teatro. Liguei as duas coisas: - teatro e martírio, teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville, eu levava, comigo, todo um projeto dramático definitivo. Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que descobrira: - a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como seria uma missa cômica"



João Cabral de Melo Neto

(1920-1999)

Foto de João Cabral


Sua atividade principal, sabe-se bem, não era o teatro. Era a poesia. Entretanto, não poderia deixar de fazer uma pequena menção a essa figura ímpar de nossa cultura. A parte dessa necessidade, não é preciso fazer recordar que "Morte e Vida Severina" veio de suas mãos de engenheiro das palavras, poema dramático feito texto teatral por tantos e tantos diretores e atores, pilar de nosso teatro, fadado por sua dura beleza a ser o que é: estatisticamente, é o texto mais montado na história de nosso teatro. Para lembrar João Cabral, escolhi um de seus poemas que mais me tocam e que - afinal - pode tocar aos que como tantos de nós, vivem desta urgência da coletividade que é o teatro. Chama-se "Tecendo a manhã":



"Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outros; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorporando em tela, entre todos

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si só: luz balão."



Heiner Müller

(1929-1996)



Heiner Müller, dramaturgo de peças como "Quartett" e "Hamletmachine", encenador, poeta, pensador e antigo diretor do Berliner Ensemble:

"Seis pontos sobre a ópera"

"Realismo, no teatro como em todas as artes, é tradução de realidade em outra forma. Toda forma tende à convenção, toda instituição ao conservadorismo: o teatro precisa da resistência da literatura, que com material novo da realidade força o exame de seus recursos e técnicas e a formação de novos recursos e novas técnicas. Não há teatro novo com peças velhas."



Paulo Francis

(1930-1997)




Um pouco de Paulo Francis. Ele como pensador e crítico de teatro talvez seja alguém que os mais jovens e os mais desavisados desconheçam. Mas conhecia o assunto, e bem. Imprimia ao seu conhecimento o seu estilo tão famoso, que tanto agradou como irritou seus leitores e telespectadores. Para hoje, um trecho do prefácio que escreveu nos anos 60 para um clássico de um dos maiores pensadores do teatro deste século, Eric Bentley:

Prefácio ao "Teatro Engajado"


"A relação entre teatro (outras artes também) e a política é um tema que não nos abandona, como aquelas visitas incapazes de se retirarem da casa alheia, apesar de silêncios "prenhes", pigarros e contemplação conspícua do relógio por parte do host. Todo pivete heterossexual, hoje em dia, mete menções a Ho Chi Minh ou Guevara em seus garranchos, imaginando-se, assim, entre os eleitos da "desalienação" e elegível para faturar junto às platéias cuja consciência social se sacia pela compra de duas entradas (uma para a patroa: um toque strindberguiano de guerra entre os sexos, pois ela, quase sempre, prefereria ter ficado em casa vendo novela de televisão) de um espetáculo engajado."



Luigi Pirandello

(1867-1936)




Uma pequena passagem de "Seis Personagens à Procura de um Autor", sintetiza a visão do grande dramaturgo italiano sobre a atitude artística:



"A arte vinga a vida. Na criação artística o homem se torna Deus"





William Shakespeare

(1564-1616)




"Henrique V"



"Oh! Uma mesa de fogo, que ascendesse

Ao mais luminoso céu da invenção,

Um reino por palco, príncipes a representar

E reis a observar a cena arrebatadora!

Então deveria o guerreiro Henrique, como ele próprio

Assumir o porte de Marte, e a seus pés,

Atrelados como galgos, a fome, a espada e o fogo

Rastejando a pedir emprego. Mas perdoai, gentis auditores

Ao espírito raso e pouco exaltado que ousou

Neste indigno cadafalso apresentar

Tão grandioso tema. Pode esta arena conter

Os vastos campos da França? Podemos nós amontoar

Dentro deste cercado todos os capacetes

Que até o ar assustaram em Azincourt?

Oh, perdoai! Dado que uma figura errada pode,

Em pouco espaço, testemunhar por um milhão,

Deixai que nós, cifras desta enorme conta,

Trabalhemos a força da vossa imaginação.

Supondo que, entre esta cintura de muralhas,

Estão agora confinadas duas poderosas monarquias

Cujas frentes alevantadas e contíguas

O perigoso e estreito oceano separa e divide.

Completai as nossas imperfeições com os vossos pensamentos:

Em mil partes dividi um homem

E criai uma potência imaginária;

Pensai, quando falamos de cavalos, que os vedes

Imprimindo os seus altivos cascos na terra acolhedora;

Pois os vossos pensamentos devem agora ornar os nossos réis,

Levá-los ali e acolá, saltando sobre os tempos,

Mudando as ações de muitos anos

Numa hora de ampulheta; para tal serviço

Admiti-me como Coro desta história;

O qual, à laia de prólogo, pede à vossa caridosa paciência

Que ouça com mansidão e julgue com bondade a nossa peça."


Fonte:




Fim

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