segunda-feira, 28 de março de 2016

UMA PEÇA CURTA DE BRECHT


O mendigo ou o cachorro morto





 
Um portão. À direita, sentado, um mendigo, pálido, roupas esfarrapadas. Segura um realejo, escondido na roupa. É de manha, bem cedo. Um tiro de canhão soa. Entra o Imperador, cercado de soldados. Seus cabelos são longos e sua cabeça está descoberta. Usa roupa de lã. Os sinos tocam.


IMPERADOR – No momento em que vou celebrar meu triunfo sobre o meu mais importante inimigo, quando o país mistura meu nome com o fumo negro do incenso, há um mendigo sentado diante da minha porta, fedendo a miséria. Mas, com tantos acontecimentos importantes, pode-se conversar sobre o Nada.  – Os  soldados retrocedem. – Homem , você sabe por que os sinos dobram? 

MENDIGO – Sim. Meu cachorro morreu. 

IMPERADOr – Isso foi uma insolência? 

MENDIGO – Não. Foi por velhice. Mas agüentou bem. Pensava eu: por que as suas patas tremem? Ele tinha apoiado as da frente no meu peito, e ficamos deitados assim a noite toda, mesmo quando começou a esfriar. Mas, de madrugada, ele já estava morto e eu o afastei de mim. Agora não posso voltar para casa, porque ele está apodrecendo, cheirando mal. 

IMPERADOR – Por que você não o enterra? 

MENDIGO – Não é da sua conta. Agora você tem o peito oco como um buraco de esgoto, pois fez uma pergunta tola. Todos fazem perguntas tolas. Perguntar já é bobagem! 

IMPERADOR – Mas mesmo assim vou continuar perguntando: quem cuida de você? Porque se não há ninguém que o cuide, vai ter que ir embora, aqui não se admite carne podre nem gritos. 

MENDIGO – Estou gritando? 

IMPERADOR – Agora é você quem está perguntando, embora com um certo sarcasmo que não entendo. 

MENDIGO – Sim, isso eu não sei, pois se trata de mim. 

IMPERADOR – Não faço caso de você. Mas quem cuida de você? 

MENDIGO – De vez em quando, um menino, que um anjo fez na sua mãe enquanto ela colhia batatas. 

IMPERADOR – Você não tem filhos? 


MENDIGO – Foram embora. 


IMPERADOR – Como o exército do Imperador Ta Li, que as areias do deserto engoliram? 

MENDIGO – Ele atravessava o deserto e seus homens falaram: é muito longe, volta, Ta Li. E ele respondia: esta terra precisa ser conquistava. Marchavam diariamente até gastar os sapatos, então sua pele rachou e continuaram marchando de joelhos. Uma vez um tufão derrubou um cavalo. Ele morreu diante dos olhos de todos, uma vez chegaram a um oásis e disseram: é assim a nossa pátria. Aí o filho do Imperador caiu numa cisterna e se afogou. Guardaram sete dias de luto, a dor que sentiam era infinita. Uma vez viram os cavalos morrerem. Uma vez as mulheres não puderam mais segui-los. Uma vez chegaram o vento e a areia, e a areia cobriu todos, e então tudo terminou, e voltou o silêncio, e a terra foi deles, e eu esqueci o nome dele. 

IMPERADOR – Como é que você sabe disso? Está tudo errado. Foi bem diferente. 

MENDIGO – Quando ele era tão forte que eu parecia seu filho, fugi, porque não permito que me dominem. 

IMPERADOR – De que você está falando? 

MENDIGO – Passavam nuvens, perto da meia-noite apareceram estrelas. Depois, tudo foi silêncio. 

IMPERADOR – As nuvens fazem barulho? 

MENDIGO –É verdade que morreu muita gente nas cabanas perto do rio que transbordou semana passada, mas não conseguiram atravessar. 

IMPERADOR –Já que sabe tudo isso, você nunca dorme? 

MENDIGO – Quando me deito em cima das pedras, a criança que acabou de nascer chora. E então sopra um vento novo. 

IMPERADOR – Ontem à noite o céu estava estrelado, ninguém morreu perto do rio, não nasceu criança alguma, não soprava vento. 

MENDIGO – Então você deve ser cego, surdo e ignorante. Ou é maldade sua. 

Pausa

IMPERADOR – O que você faz o tempo  todo? Nunca vi você. De que ovo saíste? 

MENDIGO – Percebi que este ano o milho está ruim, porque não choveu. Um vento escuro e quente sopra nos campos. 

IMPERADOR – É verdade, o milho não está bom. 

MENDIGO – Assim aconteceu há 38 anos. O milho torrou no sol e, antes que morresse, caiu uma chuva tão forte que apareceram ratos e devastaram os campos. Depois entraram nos povoados e morderam as pessoas. Este alimento matou os ratos. 

IMPERADOR – Nunca soube nada disso. Deve ser também invenção, como o resto. A história não fala nada disso. 

MENDIGO – Não existe história. 

IMPERADOR – E Alexandre? E César? E Napoleão? 

MENDIGO – Histórias! Quem é esse tal de Napoleão? 

IMPERADOR – Aquele que conquistou metade do mundo e sucumbiu pela própria soberba. 

MENDIGO – Isso é coisa que só dois podem crer: ele e o mundo. É falso. A verdade é que Napoleão era um homem que remava numa galera e tinha uma cabeça tão grande que todos diziam: não podemos remar porque sobra muito pouco espaço para os nossos cotovelos. Quando o barco afundou, porque não remavam, ele encheu a cabeça de ar e se salvou, só ele, e como estava acorrentado teve que continuar remando, lá de baixo, não via para onde e que todos tinham se afogado. Então, pensando no mundo, abanou a cabeça e, como era muito pesada, ela se desprendeu. 

IMPERADOR – Essa é a maior tolice que escutei na vida. Você me decepcionou muito com essa história. As outras pelo menos estavam bem contadas. Mas que opinião tem você do imperador? 

MENDIGO – Não existe Imperador. Só o povo pensa que existe um, e só um único homem pensa que é Imperador. Quando tiverem construído bastantes carros de guerra e os tambores estiverem treinados, haverá guerra e vão procurar um adversário. 

IMPERADOR – Mas agora o Imperador derrotou seu adversário. 

MENDIGO – Matou, não derrotou. O idiota matou o idiota. 

IMPERADOR – com esforço – Era um inimigo forte, acredite. 

MENDIGO – Um homem bota pedrinhas no meu arroz. É esse meu inimigo. Ele se vangloria porque tinha a mão forte. Mas morreu de câncer e quando fecharam o caixão, a mão dele ficou presa e não perceberam quando levaram o caixão, de modo que a mão ficou pendurada, vazia, desamparada, nua. 

IMPERADOR – Você nunca se aborrece de ficar deitado? 

MENDIGO – Antes as nuvens passavam no céu, sem parar. É a elas que contemplo. Não param nunca. 

IMPERADOR – Agora não há nuvens. Portanto estás delirando. Isso é claro como o sol. 

MENDIGO – O sol não existe. 

IMPERADOR – Você talvez seja até perigoso, paranoico ou louco furioso. 

MENDIGO – Era um cachorro bom, não um cachorro qualquer. Merecia o melhor. Até me trazia carne, e à noite dormia no meio dos meus trapos. Uma vez houve uma grande gritaria na cidade, todo mundo tinha algo contra mim, porque não dou nada de importante a ninguém, e até os soldados vieram atrás de mim. Mas o cachorro afugentou todos. 

IMPERADOR – Por que me conta isso? 

MENDIGO – Porque acho você burro. 

IMPERADOR – Que mais pensa de mim? 

MENDIGO – Tem uma voz fraca, portanto é medroso; pergunta demais, portanto é lacaio; procura me preparar armadilhas, portanto não está seguro de si, nem nas coisas mais seguras; você não acredita em mim mas fica me escutando, portanto é um homem fraco; e por fim pensa que o mundo todo gira em torno de você, quando há pessoas muito mais importantes, eu por exemplo. Além disso, você é cego, surdo e ignorante. Os outros defeitos, não conheço ainda. 

IMPERADOR – Não é um quadro muito animador. Não vê nenhuma virtude em mim? 

MENDIGO – Você fala em voz baixa, portanto é humilde; pergunta muito, portanto tem ânsia de saber; examina tudo, portanto é cético; escuta o que imagina ser mentira, portanto é indulgente; acredita que tudo gira em torno de você, portanto não é pior que os outros homens e sua crença não é mais tola que a dos outros. Além disso, ver demasiado não o confundiu; não se preocupa com o que não lhe interessa; não está paralisado pelo saber. As outras virtudes, você deve saber melhor que eu e qualquer outro. 

IMPERADOR – Você é espirituoso. 

MENDIGO – Toda adulação merece pagamento. Mas agora não vou pagar nada pelo meu pagamento. 

IMPERADOR – Eu pago todos os serviços que me fazem. 

MENDIGO – Isso está claro. O fato de esperar aprovação revela a sua alma comum. 

IMPERADOR – Não guardo nenhum rancor de você. Isso também é comum. 
MENDIGO – É. Porque você não pode me fazer mal. 

IMPERADOR – Posso mandar jogar você num calabouço. 

MENDIGO – É fresco lá? 

IMPERADOR – O sol não entra nunca. 

MENDIGO – Sol não existe. Você deve ter memória ruim. 

IMPERADOR – Também posso mandar matar você. 

MENDIGO – Então já não vai chover na minha cabeça, os insetos vão embora, meu estômago vai me deixar em paz e haverá o maior silêncio que já conheci. 
Um mensageiro entra e fala em voz baixa com o imperador.

IMPERADOR – Diga que não me demoro. – Sai  o mensageiro. – Não  vou te fazer nada disso. Pondero as coisas que faço. 

MENDIGO – Não diga isso a ninguém, senão vão tirar conclusões observando teus atos. 

IMPERADOR – Não creio que me desprezem. 

MENDIGO – Diante de mim todos se curvam. Mas isso não me impressiona. Só os insistentes me incomodam com suas conversas e perguntas. 

IMPERADOR – Incomodo-te? 

MENDIGO – Essa é a pergunta mais boba que você fez hoje. Você não tem vergonha. Não respeita a intangibilidade de um ser humano. Não conhece a solidão, por isso procura a aprovação de um desconhecido como eu. Você depende do respeito de cada homem. 

IMPERADOR – Eu domino os homens. Por isso me respeitam. 

MENDIGO – A rédea também pensa que domina o cavalo, o bico da andorinha pensa que orienta seu vôo e a ponta da palmeira pensa que arrasta a árvore em direção ao céu! 

IMPERADOR – Você é um homem mau. Eu o faria eliminar, se depois não tivesse que pensar que foi minha vaidade ferida. 

O mendigo apanha o realejo e toca. Um homem passa rapidamente e faz uma reverência.

MENDIGO – guardando o realejo – Esse homem tem uma mulher que rouba dele. À noite ela se inclina sobre ele para lhe tirar dinheiro. Às vezes ele acorda e a vê inclinada sobre ele. Então pensa que ela o ama tanto, que não pode passar uma noite sem o contemplar. Por isso perdoa os pequenos roubos que descobre. 

IMPERADOR – Vai começar outra vez. Nem uma palavra disso é verdade. 

MENDIGO – Pode ir. Você está ficando vulgar. 

IMPERADOR – É inacreditável. – O  Mendigo toca o realejo. – Terminou a audiência? 

MENDIGO – Agora todos vêem outra vez o céu mais bonito e a terra mais fértil, por causa desse pouquinho de música, e prolongam sua vida e perdoam a si mesmos e a seus vizinhos, por esse pouquinho de som. 

IMPERADOR – Diga-me, pelo menos, por que não me suporta mas me contou tanta coisa? 

MENDIGO – displicente  – Porque você não foi orgulhoso demais para escutar minha conversa, única coisa que eu precisava para esquecer a morte do meu cachorro. 

IMPERADOR – Agora vou embora. Você estragou o dia mais belo da minha vida. Não devia ter parado. Piedade não leva a nada. A única coisa que vale em você é a coragem de falar comigo nesses termos. E foi por isso que fiz todos esperarem. 

Parte, escoltado pelos soldados. Novamente tocam os sinos.

MENDIGO – percebe-se  que é cego – Agora ele foi embora. Deve ser de manhã, pois o ar está tão quente. O garoto hoje não vem. Há festa na cidade. Aquele idiota também foi para lá. Agora tenho que pensar outra vez no meu cachorro.









sexta-feira, 25 de março de 2016

ANATOL ROSENFELD ESCREVEU


CABARET




            Cabaret (cabaré literário), do francês cabaret, taberna, tasca. Entretenimento cênico em ambiente íntimo – quase sempre em cantinas, boates, restaurantes etc. –, onde se apresentam chansons, songs, esquetes, paródias, cenas grotescas e números variados, ligados por um animador, apresentador ou conférencier culto e chistoso. O programa destina-se em geral a glosar, satirizar e atacar, de forma mais ou menos agressiva, aspectos atuais da realidade político-social e cultural. O público, metropolitano e sofisticado, burguesia intelectualizada ou esnobe, além de artistas e literatos boêmios, deve ser capaz de captar-lhe a linguagem alusiva, preenchendo as entrelinhas.




            Absorvendo elementos dispersos, presentes já nas comédias de Aristófanes, no mimo antigo, nas apresentações dos menestréis e jograis medievais, nas farsas populares etc., o cabaret constituiu em Paris um novo tipo de espetáculo. Foi, mais de perto, em Montmartre, onde o pintor boêmio Rodolphe Salis fundou em 1881 o primeiro cabaret, Le Chat Noir. Nele dominavam a chanson antiburguesa e o teatro de sombras. Grande fama obteve no mesmo bairro Le Mirliton, fundado em 1885 por Aristide Bruant, criador da chanson réaliste, representante e defensor da plebe metropolitana. Costumava agredir com insultos grosseiros, no argot suburbano, os decadandies da Belle Époque que lhe pagavam as agressões com aplausos delirantes. Com ele fez sua iniciação cabaretista Yvette Guilbert, diseuse que, como o mestre, fizera sua aprendizagem no café-concerto. Este, como o music-hall, é predecessor do cabaret, faltando-lhes, porém, o traço literário, crítico-agressivo, político-social, vanguardista. Guilbert aparece, como Bruant, nos cartazes de Toulouse-Lautrec.



            Sob a influência francesa e escandinava (Hermann Bang, Holger Drachmann), fundou-se em Berlim (1901) o primeiro cabaret alemão, Überbrettl (Superpalquinho, nome inspirado pelo super-homem de Nietzche), do qual Arnold Schönberg, por breve espaço de tempo, foi colaborador musical. Esse cabaret provocou um surto cabareteiro tanto em Berlim como em Munique, onde os Elf Scharfrichter (Onze Carrascos) se reuniram para decapitar a reação e a censura e onde o dramaturgo pré-expressionista Frank Wedekind cantava ao violão suas baladas que tanto impressionaram Brecht.



            Também no mundo boêmio de Viena o cabaret encontrou um ambiente favorável. No Nachtlicht (Luz Noturna) espumavam os caprichos literários da Peter Altenberg e o humor de Roda Roda. O Fledermaus (Morcego) chegou a ser uma amostra brilhante da Sezession, o art-nouveau de Viena, com decorações de Gustav Klimt e Emil Orlick, para não falar das xilogravuras de Kokoschka nos programas do cabaret.




            Mais ou menos ao mesmo tempo a “musa com a língua ferina” conquistou a Holanda e os países escandinavos, assim como os do leste europeu. Em Budapeste, o espirituoso comediógrafo Ferenc Molnár se destacava como conférencier no Modern Szinpad (Palco Moderno). No Montmartre (1911), de Praga, eram habitués Franz Kafka, Max Brod e Jaroslav Hasek, o autor do Bravo Soldado Schveik, que também se apresentava com conférences satíricas, tanto nesse cabaret como no Cervená Sedma (O Sete Vermelho), de tendência antiaustríaca. Adotando o nome do Morcego de Viena, surgiu em Moscou o cabaret Letucaia Mys (1908), ligado ao Teatro de Arte de Stanislavski. O Brodiacaia Sobaka (Cão Vagabundo, 1911) de São Petersburgo, era ponto de reunião da boemia intelectual que promoveu em 1912 uma Semana de Marinetti, exaltando o futurismo. No seu palco apresentou-se, em 1915, Maiakovski.



            Nesse e em outros casos, o cabaret desempenhou um papel importante na promoção de movimentos de vanguarda. Muitos expressionistas alemães eram habitués e colaboradores do cabaret Voltaire (1916), em Zurique. O movimento antiexpressionista da Neue Sachlichkeit (Neo-Objetivismo), que dominava na Alemanha da República de Weimar e cuja vênus era Marlene Dietrich, sofreu igualmente forte influÊncia política ou satírica de E. Mühsam, W. Mehring, K. Tucholsky, E. Kästner, mas também de Klabund e Ringelnatz, vingava em cabarets em que se apresentavam artistas como Rosa Valetti, Trude Hesterberg, Hans Albers, Lotte Lenya etc. Brecht e Kurt Weill se inpregnavam dessa atmosfera de que A Ópera dos Três Vinténs, cruzamento de cabaret e jazz, e o teatro épico são frutos diretos ou indiretos.



            Na França de Maurice Chevalier e Lucienne Boyer, que alcançaram fama mundial na década de 20, há outra linha de cabaret, de cunho grotesco, que parte de Alfred Jarry (Ubu Rei), passa por Apollinaire e Cocteau e desemboca no teatro do absurdo de Beckett e Ionesco, a cujo teatro se anteciparam experiências cabareteiras semelhantes.



            Durante a fase nazista espalharam-se pelo mundo numerosos cabarets de migrantes antifascistas, entre eles o itinerante Pfeffermühle (Moinho de Pimenta), da filha de Thomas Mann, Erika. Em Berlim. No Katakombe, o conférencier Werner Finck conseguiu com enorme coragem ridicularizar o regime hitlerista, até lhe ser proibida a apresentação. Em Zurique tornou-se famoso o cabaret antifascista Cornichon, cujo estilo marcou a obra de Dürrenmatt. Este, aliás, lhe forneceu, depois da guerra, chansons e esquetes.

Giorgio Strehler

            Desde a década de 1950 manifesta-se também na Itália vida cabareteira, decisivamente influenciada pelas encenações geniais que Giorgio Strehler fez de peças de Brecht. Grandes representantes da chanson, como Fausto Amadei e Laura Betti, cantam textos de Brecht, Moravia, Pasolini, Calvino etc.



            Do cabaret parisiense, que nasceu em Montmartre e se alastrou pelo Quartier Latin e por Montparnasse, emanaram depois da guerra novos impulsos em Saint-Germain-des-Prés (Tabou etc.), a cujo clima pertencem Raymond Queneau, Boris Vian, Jacques Prévert e onde se destacou sobretudo Juliette Greco, protegida de Sartre e arauta da chanson noire. Artistas como Georges Brassens, Catherine Sauvage, Yves Montand, Charles Aznavour, Edith Piaf etc., pertencem ou pertenceram ao mundo do cabaret. Também na Alemanha Ocidental a vida de cabaret se manifesta após a guerra de forma vigorosa, destacando-se entre os expoentes politicamente mais agressivos, sobretudo grupos estudantis.




            Nos países anglo-saxônicos o cabaret surgiu só recentemente. Numerosos artistas e showmen, em si predestinados para esse gênero, costumam apresentar-se em revistas ou teatros de variedades. Nos night clubs, porém, há por vezes entretenimentos aproximados. Um homem como Noel Coward é, como chansonnier e autor multifacetado, o típico homem de cabaret. No seu night club londrino Café de Paris, apresentou artistas como Eartha Kitt e Marlene Dietrich. Um autêntico cabaret veio a ser, na década de 1960, The Establishment, night club satírico-político (como já indica o nome) em Soho, Londres. Essa e outras iniciativas partiram sobretudo de estudantes, exatamente como nos Estados Unidos, onde o cabaret The Second City (Chicago, 1959) é rebento de grupos teatrais estudantis. Sua transferência para Greenwich Village, Nova York, fez com que naquele bairro brotassem inúmeros cabarets pequenos.


Cedric
            

No Brasil, os entretenimentos que se aproximam do cabaret manifestam-se em geral na televisão. Por isso mesmo não são cabarets, arte que se dirige a um público exigente, em atmosfera íntima, de contato direto e feedback imediato. Quanto aos programas nas boates etc., falta-lhes em geral o cunho político-satírico e o conférencier de alto nível cultural.

(The Entertainer- Laurence Olivier)

            O cabaret é uma arte sensível às mínimas mudanças culturais. Mas é ao mesmo tempo um laboratório de novas experiências, cuja influência sobre os movimentos artísticos do século XX não foi ainda estudada, mas afigura-se enorme. A dialética do cabaret é complexa. Num regime de força ou se mediocriza como comércio ou vive, fazendo jus à sua essência satírica, sob a ameaça da proibição. Num regime de liberdade, floresce, mas decompõe-se facilmente em artigo de consumo para aqueles que agride, formando uma sociedade de vendedores e compradores de protestos. “O cabaret, para prestar, tem de ser perigoso. Perigoso e em perigo: pois sempre luta, armado de pedrinhas, contra o Goliat do momento” (Günter Groll).


CABARET, in ROSENFELD, Anatol, PRISMAS DO TEATRO, coleção Debates. São Paulo, Editora Perspectiva, 1993, págs 129-134.

Bibliografia


ASTRE, Achille. “Les Cabarets littéraires e artistiques”. Les Spectacles à travers les âges. Paris, 1931.
CARCO, Francis. La Belle Époque au Temps de Bruant. Paris, 1954

GREUL, Heinz. Bretter, die die Zeit bedeuten.