terça-feira, 21 de abril de 2026

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO 1

 

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO

compiladas por Cássio Pires de Freitas

(1)

Bertolt Brecht, Louis Jouvet, Zeami, Peter Brook, Tertuliano, Friedrich Nietzsche, Bharata, Manifesto Arte Contra a Bárbarie, Constantin Stanislavki, Martins Penna, José Celso Martinez Correa, João Guimarães Rosa, Bertolt Brecht, Anatol Rosenfeld, Jorge Luis Borges,...



Bertolt Brecht

(1898-1956)



"Pequeno Organon Para o Teatro"

"O prazer sexual torna-se, entre nós, uma obrigação conjugal; o prazer artístico está a serviço da cultura; e aprender não significa um conhecimento agradável, mas sim enfiarmos o nariz num objeto de conhecimento. Nada do que fazemos representa um esforço de alegria e para justificarmos os nossos atos não invocamos o prazer que tivemos, mas, sim o suor que nos custou."


Louis Jouvet

(1887-1951)


Diretor e ator francês Louis Jouvet, que deixou um importante legado no Thèâtre do Vieux Colombier, em Paris

"O comediante desencarnado"


"Não há nada mais fútil, mais falso, mais vão, nada mais necessário que o teatro."



Zeami

(1363-1444)



Zeami é um dos grandes nomes do teatro japonês. Atribui-se a ele a criação do gênero Nô. Ao longo de sua vida, escreveu cerca de 200 Nô, dos quais a metade ainda hoje é representada. O trecho que vem abaixo faz parte do texto teórico denominado "O espelho da flor", transmitido oralmente durante décadas e publicado apenas em 1665, mais de duzentos anos após a morte do autor e ator: (Trad. Helena Barbas)


"Olhando as plantas em flor, perguntamo-nos: porque se simboliza por uma flor todas as coisas do mundo? É pela sua existência efêmera que se gosta delas, elas só florescem durante uma estação, são raras. De igual modo, o Nô fala ao coração e suscita o interesse. A flor, o interesse e a raridade, eis a maravilha do Nô.

Florir e murchar são inevitáveis: é o que torna as flores maravilhosas. O encanto do Nô, a sua flor, encontra-se na virtude da mudança. O Nô nunca é estático, transforma-se sem cessar, como a flor, e é esta mudança que o torna tão raro.

No entanto, é necessário respeitar as suas regras e evitar a extravagância, mesmo na demanda da raridade ou da novidade. Após todos os exercícios, no momento de apresentar um Nô, é preciso escolher de acordo com a situação. De entre todas as flores, só é verdadeiramente rara aquela que eclode no seu quadro temporal. Do mesmo modo, se aprendestes bem as numerosas técnicas das artes, escolhereis adaptando-vos à época e ao público; será como uma flor na sua estação.

As flores de hoje são semelhantes às do ano passado. Assim, o Nô, mesmo tendo já sido visto antes, ou inscrevendo-se num repertório importante, retornará, após a passagem do tempo, igualmente raro."



Peter Brook

(1925-2022)




"O ponto de mudança."



"Nunca acreditei em verdades únicas. Nem nas minhas, nem nas dos outros. Acredito que todas as escolas, todas as teorias podem ser úteis em algum lugar, num dado momento. Mas descobri que é impossível viver sem uma apaixonada e absoluta identificação com um ponto de vista. No entanto, à medida que o tempo passa, e nós mudamos, e o mundo se modifica, os alvos variam e o ponto de vista se desloca. Num retrospecto de muitos anos de ensaios publicados e idéias proferidas em vários lugares, em tantas ocasiões diferentes, uma coisa me impressiona por sua consistência. Para que um ponto de vista seja útil, temos que assumi-lo totalmente e defendê-lo até a morte. Mas, ao mesmo tempo, uma voz interior nos sussura: "Não o leve muito a sério. Mantenha-o firmemente, abandone-o sem constrangimento."



Tertuliano

(c. 155 - c.255)



Um trecho de um texto de um dos primeiros teólogos do cristianismo, um cartaginês que viveu na época do Império Romano. Na passagem, sobre os teatros grego e romano, nota-se claramente que ele não gostava muito de teatro

"Sobre os Espetáculos"


"O teatro não é apenas consagrado à deusa do amor, mas também ao deus do vinho. Porque estas duas testemunhas da libertinagem e da embriaguez estão estreitamente unidas que parecem ter conspirado juntas contra a virtude: deste modo, o palácio de Vênus é também o paço de Baco. Com efeito, havia

antigamente alguns jogos do teatro que eram propriamente chamados de liberais: não apenas porque eram consagrados a Baco, como o são os dionisíacos dos gregos; mas ainda porque Baco era o seu instituidor. Além disso, estas duas divindades execráveis não presidem menos às ações do teatro que ao próprio teatro; seja que se tenha em consideração a infâmia dos gestos, ou outros movimentos dissolutos dos corpos. É o que se nota particularmente nos atores da comédia. Neste ofício miserável, eles vangloriam-se em imolar de qualquer maneira a sua languidez a Vênus e a Baco; um deles por libertinagens horríveis, os outros com representações lascivas e brutais. No que respeita aos versos, a música, as flautas, as violas, tudo é mostra de Apolos, das Musas, das Minervas, dos Mercúrios.

Discípulos de Jesus Cristo, detestareis os objetos cujos autores vos devem parecer tão detestáveis."



Friedrich Nietzsche

(1844-1900)




Segue uma bela reflexão sobre uma condição central do teatro, realizada por Nietzsche, num texto em que o autor estabelece a famosa distinção entre apolínio e dionisiaco e que comenta a origem da tragédia grega, ou em outros termos, a origem do teatro ocidental. Se Nietzsche não era homem de teatro, foi, ao que dizem e ao que se espera, um grande professor de literatura e teatro gregos e um filósofo que dispensa apresentações:

"A origem da tragédia"


"A possessão é a condição prévia de toda a arte dramática; possuído, o exaltado por Dionisos vê-se como sátiro - e como sátiro, então, ele vê o deus. O que signfica que, metamorfoseado, ele apercebe, exterior a si, uma nova visão que é a concretização apolínea do seu estado. É com esta nova visão que o drama acaba de se constituir."



Bharata

(cerca da época de Cristo)



A citação a seguir trata-se de um trecho do primeiro capítulo do "Natya-Shastra", obra clássica dos hindus. "Natya-Shastra", significa, aproximadamente, "Tratado sobre Teatro (ou dança)". Estamos diante de um dos livros míticos da Índia. Não se sabe ao certo quando foi criado. Por séculos foi transmitido oralmente e chegou a sua forma escrita, em sanscrito, apenas há alguns séculos. A autoria do texto é atribuída a Bharata, entidade mítica que recebeu de Xiva e Brama, as divindades hindus, a ordem para a criação do teatro e a feitura do tratado em questão. Bharata, diz a lenda, teria vivido por volta da época de Jesus Cristo e é, para a mitologia hindu, o inventor do teatro. O primeiro capítulo trata da origem do teatro e os demais, cerca de trinta, começam a abordar uma série de questões técnicas do teatro e dança hindus.

Pois bem, agora tenham um pouco de paciência: o trecho é longo, mas vale a pena chegar ao seu final, belíssimo.


"Natya-Shastra"

"Inclinando-me diante de Brama e Xiva, descreverei as regras do teatro tal qual foram promulgadas por Brama.

No tempo antigo, os sábios de grande alma que tinham dominado os seus sentidos aproximaram-se do piedoso Bharata, mestre da arte dramática, durante um intervalo nos seus trabalhos. Ele tinha acabado de terminar a recitação das suas orações, e estava rodeado dos seus filhos. Os sábios de grande alma que tinham dominado os seus sentidos disseram-lhe respeitosamente: Oh Bramane, como nasceu o tratado do teatro, semelhante aos livros sagrados, que tu compuseste? A quem se dirige ele, quais são suas partes, o tamanho, e como deve ser aplicado? Rogamos-te que nos digas tudo isto detalhadamente.

Ouvindo estas palavras dos sábios, Bharata respondeu-lhes assim sbre a questão do tratado do teatro:

Purificai-vos, ficai atentos e escutai as origens do tratado do teatro composto por Brama. Oh brâmanes, no tempo antigo, no tempo em que a idade de ouro foi substítuida pela idade da prata, em que os homens se deram aos prazeres dos sentidos, submetendo-se assim ao jugo do desejo, quando eles conheceram o ciúme, a cólera, quando a sua felicidade se misturou de tristeza, nesse tempo os deuses, com o grande Indra à sua cabeça, aproximaram-se de Brama e falaram-lhe assim:

Nós queremos um objeto de representação, que deve ser tanto audível quanto visível. Como os quatro livros sagrados não podem ser ouvidos por aqueles que nasceram intocáveis, rogamos-te que cries um outro livro sagrado que pertença igualmente a todas as castas.

Assim seja, respondeu ele, e tendo despedido os deuses, medita e chama à sua memória os quatro livros sagrados. Depois pensa: vou fazer um quinto livro sagrado sobre o teatro, servindo-me dos livros históricos. Ele mostrará o caminho em direção à virtude, á riqueza, à glória, conterá bons conselhos morais, guiará os homens do futuro em todas as suas ações, será enriquecido pelo ensinamento de todos os tratados, e passará em revista todas as artes e todos os ofícios.

Com a sua recordação dos quatro livros sagrados, Brama fez então o seu tratado sobre o teatro. Deles retira o texto, a música, a encenação e os sentimentos.

Depois de o santo e o omnisciente Brama ter assim criado o seu tratado do teatro, ele disse a Indra: Os livros históricos foram compostos por mim. Tu vais transformá-los em peças de teatro, e faze-las representar pelos deuses. Transmite este tratado do teatro àqueles de entre os deuses que são destros, instruídos, hábeis no falar e estão habituados a trabalhar duramente.

A estas palavras de Brama, Indra inclina-se diante dele, junta as mãos e responde: Oh melhor e mais santo, os deuses não são capazes nem de receber e defender o teu tratado do teatro, nem de compreender e utilizar. Eles são completamente inaptos para o teatro. Mas os sábios que conhecem os mistérios dos livros sagrados, e que cumpriram os seus votos, são capazes de defender este tratado do teatro e de o pôr em prática.

A estas palavras de Indra, Brama disse-me: Homem sem pecado, és tu, com os teus cem filhos, quem deverá servir-se deste tratado do teatro.

Para obedecer a esta ordem, estudei o tratado do teatro de Brama e pedi aos meus filhos que também o estudassem e que o pusessem em prática. Para benefício dos homens, distribui pelos meus filhos os papéis que mais lhe convinham.

Oh brâmanes, preparei-me assim para dar uma representação na qual entravam diferentes estilos dramáticos, o poético, o grandioso e o patético.

(...)

Aproximei-me de Brama e disse-lhe: Oh mais santos e melhor dos deuses, os maus espíritos estão decididos a impedir esta representação dramática; ensina-me também os meios de a proteger. Então Brama disse ao seu arquiteto para construir cuidadosamente um teatro do melhor tipo. Brama visita-o e diz aos outros deuses: vós deveis cooperar na proteção das diversas partes deste teatro, e dos objetos necessários à representação dramática. O deus da lua protegerá o edifício principal, os guardiões dos mundos os edifícios adjacentes (...) O grande Indra, ele mesmo, estabelecer-se-á do lado da cena (...) Na seção do alto foi colocado Brama, na segunda Xiva, na terceira Vixnu, na quarta Kartikeia e na quinta outros deuses poderosos. (...) O próprio Brama ocupa o meio da cena. É por esta razão que esse local é ornado com flores no início das representações.

(...)

Durante este tempo, os deuses em corpo disseram a Brama: Tu devias acalmar os maus espíritos por meio da conciliação. Primeiro é preciso aplicar este método, depois dar prendas, depois, se não servirem de nada, criar a dissensão entre os inimigos, e por fim, se preciso, recorrer a expedientes punitivos. Ouvindo estas palavras dos deuses, Brama chama os maus espíritos e diz-lhes: Porque quereis impedir a representação teatral? (...) Eles responderam: O conhecimento da arte dramática que tu introduziste pela primeira vez segundo o desejo dos deuses colocou-nos sob uma luz desfavorável, e fizeste-o no interesse dos deuses. Não o deverias ter feito, tu que és o pai do mundo inteiro, tanto de nós quanto dos deuses. Brama respondeu: Cessai a vossa cólera, abandonai a vossa tristeza. Preparei este tratado do teatro que determinará o bom e o mau destino dos deuses, e o vosso, e que terá em conta os atos e as idéias dos deuses, e vossas.

Neste teatro, não há representação exclusiva dos deuses, ou vossa. O teatro é a representação do mundo inteiro. Fala-se aí de dever, de jogos, de dinheiro, de paz, do riso, de combate, de amor e de morte. Ele ensina o dever àqueles que o ignoram, o amor àqueles que a ele aspiram. Ele pune os maus, aumenta o domínio dos que são disciplinados, dá coragem aos covardes, energia aos heróis, inteligência aos fracos de espírito, e sabedoria aos sábios. (...) O teatro que eu inventei é uma imitação das ações e das condutas dos homens. É rico em emoções variadas, e descreve diferentes situações. As ações dos homens que ele relata são boas, más ou indiferentes.

Ele dá coragem, divertimento, felicidade e conselhos a todos."




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