EUGENE O' NEIL
O GÊNIO DO NEVOEIRO
Tony Kushner
Tradução: Rubens Figueiredo
Quando Eugene O’Neill terminou Longa Jornada Noite Adentro, em 1941, decidiu que a peça não poderia ser lida nem montada senão vinte e cinco anos após a sua morte. Indagado sobre as razões dessa exigência, O’Neill respondeu apenas que uma das personagens ainda vivia. Raros amigos tiveram o privilégio de ler os originais, antes que eles fossem enviados para os cofres da Randon House, a editora que publicava as obras de O’Neill, e para a Biblioteca da Universidade de Yale. Mas a vontade do autor não foi cumprida.
Em 1956, três anos depois de sua morte, a viúva de O’Neill, Carlotta Monterey, liberou a publicação e a montagem da peça. Soube-se então por que o dramaturgo não desejava que a Longa Jornada Noite Adentro viesse a público. Com essa autobiografia dramática, como tantos a chamariam, ele ressuscitava seus mortos o pai, a mãe, o irmão —, traçando um comovente retrato da família O’Neill, no qual o autor se identificava com o personagem Edmund. Em 1941, ao concluir a peça, apenas Edmund-Eugene estava vivo.
Apesar de seu caráter autobiográfico, Longa Jornada Noite Adentro é muito mais do que um retrato do artista quando jovem. Ainda que O’Neill tenha reproduzido na obra parte de sua vida, também é certo que determinados aspectos da realidade foram omitidos e outros simplesmente inventados.
A aventura desse homem singular chamado Eugene O’Neill, tuberculoso na juventude, dominado pelo medo de se tornar um alcoólatra como o irmão, filho de uma mulher que se abandonou ao vício das drogas e de um ator famoso que aviltou seu talento em peças de sucesso comercial, tem paralelos muito estreitos com a realidade de Longa Jornada Noite Adentro. Mas esse destino particular, ao ser recriado por meio do teatro, ganhou dimensão maior — graças, precisamente, ao caráter inconfundível das experiências pessoais do autor —, transfigurando-se e revestindo-se de um sentido comum e universal.
UM LAR PROVISÓRIO
A Barret House era uma pensão familiar situada na Broadway, em Nova York, onde se hospedavam artistas de teatro, como James O’Neill, que, ao regressar de suas excursões pelo país, fazia daquela casa o seu lar. Ali, no quarto 236 do terceiro andar, nasceu Eugene Gladstone O’Neill, na tarde de 16 de outubro de 1888.
James O’Neill, católico de origem irlandesa, foi um grande ator que se perdeu. Poderia ter sido maior que o shakespeariano Edwin Booth (1833-1893), pois, na opinião deste, que o vira como protagonista em Otelo, James interpretava melhor que ele o famoso personagem. Mas James não soube aproveitar seu talento e se tornou apenas um bom ator, dedicando a maior parte de sua vida a representar Edmund Dantes em O Conde de Monte Cristo, percorrendo a América de costa a costa e ganhando uma fortuna em cada temporada.
Alguns biógrafos relacionam essa mudança de rumo com o seu casamento com Ella Quinlan, filha de abastado comerciante, uma jovem frágil, delicada e muito religiosa. Para casar-se com o ator, Ella foi obrigada a romper com seu meio social e sua família. James tinha adoração pela mulher e, para compensá-la do que havia perdido, construiu casas requintadas que ela nunca pôde habitar.
Em 1878, nasceu James O’Neill Jr., o primeiro filho do casal. Foi internado muito cedo no Colégio Notre-Dame, uma aristocrática escola católica. Quando Eugene nasceu James tinha dez anos e só viu o irmão três meses depois, durante uma visita em que os pais levaram o bebê ao internato.
Entre James Jr. e Eugene, Ella tivera outro filho, Edmund, que morrera ainda bebê, na casa dos avós, enquanto a mãe acompanhava o marido numa temporada pelo interior. Ella jamais se refez do sentimento de culpa por ter abandonado Edmund. Além do mais, era uma mulher sensível e sofria intensamente com a falta de raízes que ligassem a família O’Neill a uma casa, a uma vizinhança, a uma paróquia.
Desde o parto de Eugene, Ella descobrira que a morfina, que fora receitada pelo médico para lhe aliviar as dores, também diminuía seu nervosismo e sua insatisfação permanente. Procurou esconder do marido esse vício e quando James descobriu já era muito tarde.
Enviado para um internato católico em Nova York. o Mount Saint-Vincent, em 1895, Eugene passou a ver seus pais muito raramente. Era um menino triste e quieto, mergulhado numa solidão que se acentuava com a falta de calor humano das freiras e com o sentimento de rejeição em relação à família.
Em 1900, Eugene saiu do Saint-Vincent e foi para o De La Salle Institute, em Nova York. No segundo ano de sua permanência no La Salle, a mãe resolveu interná-lo novamente. O menino esforçou-se nos estudos, passou de ano com excelente média, mas a mãe sentia que era insuportável viver com o filho, cujos olhos pareciam reprovar constantemente seus atos. Ela acabou convencendo o marido, e Eugene voltou a ser internado, em 1902, na Academia Betts, em Stanford, um colégio laico.
Nessa fase ocorre sua revolta contra a religião católica e Eugene estreita sua ligação com o irmão James, que passa a ser uma espécie de tutor, introduzindo o adolescente no “outro lado” do mundo teatral, do qual os pais tinham procurado preservá-lo durante a infância.
Ao terminar o curso secundário, no ano de 1906, Eugene entrou na aristocrática Universidade de Princeton, no leste. Sentiu imediatamente que estava num ambiente tradicional, esnobe e, sobretudo, pouco estimulante intelectualmente. Nove meses mais tarde, era expulso, por atirar uma garrafa contra a janela da casa onde vivia Woodrow Wilson (1856-1924), presidente da Universidade e, durante a Primeira Guerra Mundial, presidente dos Estados Unidos.
Em Nova York, Eugene encontrou um clima de tensão muito grande na família, pois James, também expulso de Notre-Dame, no ano anterior, não conseguia se definir profissionalmente, entregando-se a bebedeiras e farras sem fim. Tentara a carreira de repórter e depois resolveu ser ator.
Eugene, por sua vez, foi trabalhar como escriturário numa empresa de promoções.
O emprego era tedioso, mas Eugene passava a maior parte do tempo numa livraria da 6.ª Avenida, cujo proprietário, Benjamin Tucker, era um dos mais conhecidos membros do movimento anarco-individualista americano. Eugene absorvia suas idéias, seus livros, suas palavras de ordem; mas a contribuição mais importante de Tucker foi revelar a O’Neill a obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900).
Assim Falava Zaratustra, a grande obra profética de Nietzsche, acabou por se tornar o “catecismo” de O’Neill, a resposta que ele desejava contrapor ao primeiro dos seus catecismos: o católico. Naquela fase de sua vida anárquica, o pensamento de Nietzsche não era apenas uma refutação ao nível religioso, mas a confirmação de um estado de espírito, uma disposição em relacão à vida que era a sua. “Deves trazer o caos dentro de ti para fazer nascer uma estrela bailarina.”
Um dia, em 1909, Eugene comunicou à família que ia se casar. Na verdade, a moça, Kathleen Jenkins, já estava grávida. O filho nasceu pouco tempo depois do breve e tumultuoso casamento, quando O’Neill não se encontrava mais nos Estados Unidos. Havia ido para Honduras, em busca de “novas oportunidades” ou, segundo a opinião unânime de seus biógrafos, para fugir dos problemas. O casamento foi um erro e o casal divorciou-se oficialmente em 1912.
Vítima da febre amarela, Eugene teve que voltar para Nova York. O pai tentou então fazer dele uma espécie de assistente de diretor, em sua companhia de teatro; mas em três meses de excursão, Eugene não demonstrou o menor interesse pelo trabalho. Lia muito, principalmente relatos de viagem de Jack London (1876-1916), Josef Conrad (1857-1924) e Rudyard Kipling (1865-1936). Um dia resolveu partir para Buenos Aires, no navio Charles Racine, que saiu do porto de Nova York na primavera de 1910.
Em Buenos Aires, trabalhou algum tempo num frigorífico e numa fábrica de máquinas de costura. Durante os períodos de desemprego ia aos bares do cais, freqüentados por marinheiros que contavam suas aventuras, falavam de amores distantes, bebiam e jogavam muito. Em 1911 voltou para Nova York, engajado como marinheiro no Ikalis.
Ao chegar, não procurou imediatamente a família nem demonstrou curiosidade em conhecer o filho, Eugene Gladstone O’Neill Jr. Sua primeira providência foi alugar um quarto numa pensão que ficava em cima do Jimmy-the-Priest, conhecido bar de marinheiros. O bar e a pensão eram freqüentados por estivadores, prostitutas, contrabandistas, desempregados e anarquistas. De vez em quando Eugene aceitava um emprego em algum barco-correio ou navio de longo curso. O mar havia se tornado para O’Neill um símbolo de liberdade e conhecimento.
Mas afinal, cansado e sem dinheiro, foi ao encontro da família, em Nova Orleans. O pai achou que estava na hora de arranjar um emprego para o filho e convidou-o para fazer uma ponta em O Conde de Monte Cristo. Não havia alternativa e Eugene seguiu a companhia até o extremo oeste dos Estados Unidos. Na volta, ficaram algum tempo na casa de New London, em Connecticut.
Foi ali, no mês de agosto, que O’Neill começou a trabalhar como repórter no Telegraph. O proprietário do jornal, Frederick Latimer, interessou-se pelos escritos de Eugene e percebeu que ele não tinha apenas talento literário, mas gênio. Naquela época Eugene escrevia muito, apesar do precário estado de saúde que acabou por levá-lo para um sanatório de tuberculosos. No sanatório, durante o inverno e a primavera de 1912-13, O’Neill sentiu que escrever para teatro era a melhor forma de expressar o que sentia em relação à vida.
A decisão de se tornar um dramaturgo não surgiu subitamente. Na verdade, O’Neill não sabia de teatro apenas o que o velho James lhe ensinara. Lera toda a obra de William Shakespeare (1564-1616), assistira a numerosas montagens dos autores gregos e elisabetanos, conhecia alguma coisa do teatro europeu do século XIX. Desde 1911, seu interesse crescera muitíssimo e ele se convertera num espectador assíduo dos teatros de Nova York. Era um grande admirador de Ibsen (1828-1906) e, sobretudo, de Strindberg (1849-1912).
Em 1914, quando entrou para a Oficina Dramática do professor George Peirce Baker, em Harvard, O’Neill já havia escrito várias peças de teatro, como Uma Esposa para Sempre (A Wife for Life) e A teia de Aranha (The Web). Essas e outras obras, algumas das quais incluídas no volume Sede e Outras Peças em Um Ato (Thirst and Other One-Act-Plays), seriam renegadas mais tarde pelo autor, que as considerava de má qualidade. Dessa fase, apenas Sede, Rumo a Este para Cardiff (Bound East for Cardiff) e Névoa (Fog) chegaram a ser montadas.
O’Neill permaneceu no curso do professor Baker apenas oito meses. Em junho de 1915 abandonou Harvard. Três meses depois estava morando em Greenwich Village, Nova York, onde encontrou um bar irlandês, o Hell Hole, sucedâneo do velho JimmythePriest. O Hell Hole também era freqüentado por marginais, só que de uma espécie diferente a dos intelectuais outsiders: jornalistas, atores, anarquistas, políticos de esquerda.
No Village, O’Neill conheceu Terry Carlin, cuja prosa brilhante conquistara algumas amizades, como a de Jack London e Theodore Dreiser (1871-1945), o jornalista John Reed (1887-1920) e sua mulher Louise Bryant. Durante o verão de 1916, O’Neill, Carlin, John e Louise foram para Provincetown, uma cidade praiana de Cape Cod, Massachusetts, que se tornou decisiva na vida de O’Neill.
Desde o ano anterior, um grupo de teatro do Village, os Players, fazia ali suas montagens de verão. O’Neill e seus companheiros ligaram-se ao grupo, que ficou logo interessado na encenação de Rumo a Leste para Cardiff. Duas semanas mais tarde, a peça era montada com sucesso. A experiência de Provincetown animou o grupo a se estabelecer, de maneira regular, num teatro em Nova York, o Playwrights Theatre, cujo nome foi sugerido por O’Neill. O objetivo do grupo era a montagem de peças novas de autores americanos.
Entre 1917 e 1918, O’Neill escreveu várias peças em um ato, das quais as mais significativas foram reunidas depois no volume S. S. Glencairn: A Longa Viagem de Volta (The Long Voyage Home), Na Zona (In the Zone), A Lua das Caraibas (The Moon of the Caribees). E foi no outono de 1917 que Eugene começou a se projetar como dramaturgo. Algumas de suas peças foram publicadas a partir desse ano, na revista Smart Set. Os Washington Square Players interessaram-se por Na Zona e montaram-na em outubro daquele mesmo ano, enquanto A Longa Viagem de Volta era encenada pelos comediantes de Provincetown.
Em 1918, O’Neill casou-se com Agnes Boulton, jovem escritora que ele conhecera no Hell Hole, em fins de 1917. Mas o casamento fracassou. Eugene precisava de uma esposa que também fosse mãe e secretária, e Agnes estava muito empenhada em seu próprio trabalho. Haviam feito um acordo de não ter filhos, mas Agnes acabou dando à luz dois: Shane, que nasceu em 1919, e Oona, em 1925. Separaram-se em 1926.
Apesar de suas grandes desavenças com Agnes, O’Neill criou nesse período a maior parte de suas obras-primas, tendo mesmo dedicado a ela sua primeira peça em três atos Além do Horizonte (Beyond the Horizon). A peça foi apresentada no Morosco Theatre, na Broadway, em 1920, e lhe valeu o Prêmio Pulitzer, em junho desse mesmo ano.
Eugene O’Neill estava definitivamente lançado. Além do Horizonte fazia sucesso na Broadway; Chris Christopherson era aplaudida em Atlantic City; Exorcismo (Exorcism), uma peça experimental, estreava no Village; O’Neill escrevia Ouro (Gold) e se preparava para retomar o tema de Chris Christopherson e criar Anna Christie, a história da regeneração de uma prostituta pelo amor. Anna Christie estreou em 1921 e O’Neill recebeu seu segundo prêmio Pulitzer.
Grande parte dos dramas escritos por O’Neill abordava a condição de alguns homens que ele conhecia bem, especialmente aqueles ligados ao mar. O desenvolvimento dramático de suas peças baseava-se no naturalismo cênico, mas a grande novidade de sua obra não estava na forma e sim nos temas, na rudeza de seus personagens, na devassa que ele fazia de seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Desde o início, O’Neill permeou suas obras de uma ironia trágica. Quase sempre, os homens alimentavam-se de sonhos que não conseguiam realizar, pois os caminhos escolhidos conduziam ao fracasso.
Se, por um lado, os personagens de O’Neill não podem viver sem ilusões, também é certo que sofrem com a impressão de que jamais alcançarão seus objetivos. As ilusões constituem a perdição e a redenção dos personagens, pois O’Neill afirma que sonhar é uma das condições para viver. Devemos alimentar nossos sonhos, mesmo sabendo que será difícil concretizá-los. Para O’Neill, “o único sucesso está no fracasso” e qualquer homem que se surpreenda um dia pensando não haver mais o que perseguir está acabado.
O Imperador Jones (The Emperor Jones), escrita em 1920 e levada à cena no mesmo ano pelos Provincetown Players, tinha pouca relação com as outras peças de O’Neill. Na verdade, O Imperador Jones foi um marco, não só na história de O’Neill como na do próprio teatro americano. A peça abandona os moldes naturalistas, para introduzir o expressionismo na obra de O’Neill e no teatro americano. O protagonista é um negro, Brutus Jones, carregador de malas numa estação ferroviária, que comete um assassinato e foge de navio para uma ilha das Índias Ocidentais, onde acaba se tornando imperador de uma tribo. Jones explora o povo, faz fortuna, até que a tribo se revolta e ele se vê obrigado a fugir, refugiando-se na floresta, onde finalmente é morto.
Em 1921, O’Neill parecia interessado unicamente no seu trabalho. O Primeiro Homem (The First Man), A Fonte (The Fountain) e O Macaco Peludo (The Hairy Ape) foram escritas nesse ano. O Macaco Peludo era a mais brilhante e ofuscou as duas primeiras. A Fonte, na qual O’Neill dramatiza o idealismo de Ponce de Léon ao buscar a fonte da juventude, só chegou à cena em 1925. O Primeiro Homem estreou em março de 1921 e foi uma das produções menos felizes do autor. Durante os ensaios, em fevereiro, O’Neill recebeu um telegrama de James, que se encontrava na Califórnia com a mãe, comunicando que ela estava muito doente. Poucos dias depois ela morreria.
No dia anterior à morte de Ella, O Macaco Peludo tinha estreado no Playwrights Theatre, com um sucesso fantástico. Um mês depois, iniciava sua carreira na Broadway. O papel de Milkdred era interpretado então por uma bela atriz, Carlotta Monterey, que substituíra Mary Blair. O primeiro contato de Carlotta com O’Neill nada teve de excepcional e ele mal se deu conta de sua presença. Quando voltaram a se ver, cinco anos mais tarde, o reencontro foi decisivo na vida de ambos.
Em 1923, O’Neill escreveu Acorrentados (Welded), na qual abordou o tema do casamento, analisando um casal em sua relação de amor e ódio. Nesse mesmo ano escreveu outra peça, Todos os Filhos de Deus Têm Asas (All God ‘s Children Got Wings), que tratava de um tema até então inédito nos palcos americanos: o problema conjugal entre uma branca e um negro. Em novembro desse ano, O’Neill perdeu o irmão James, que passara vários meses numa clínica tentando se recuperar do alcoolismo.
Desejo sob os Olmos (Desire Under the Elms) foi o grande êxito de 1924. Nessa obra evidenciava-se nitidamente a influência da tragédia grega, mais precisamente de Hipólito e Medéia, de Eurípides (484-406 a.C.). A madrasta se apaixona pelo enteado, trai o marido e engravida, acabando por matar o filho para provar ao esposo o seu amor.
A peça criou problemas com a censura e chegou a ser proibida em algumas cidades, como Boston e Los Angeles. Em janeiro de 1925, O’Neill, cansado e preocupado com o vício de beber, temeroso de ter o mesmo fim do irmão, resolveu submeter-se à psicanálise. Por sugestão do psicanalista comprou uma casa nas Bermudas e se mudou com a família para lá, onde trabalhou em duas novas peças O Grande Deus Brown (The Great God Brown) e Marco Milhões (Marco Millions), esta última iniciada em 1923.
No fim de 1925, o Greenwich Village Theatre, do qual O’Neill fazia parte como sócio, encenou A Fonte, e em janeiro de 1926, O Grande Deus Brown. O’Neill estava empenhado também na cara produção de Marco Milhões, na qual um produtor da Broadway, David Belasco, parecia interessado. Mas depois de um ano de indecisões, Belasco desistiu e Marco Milhões teve que esperar mais dois anos para ser encenada, no Guild Theatre.
Tanto O Grande Deus Brown como Marco Milhões, apesar de sua diferente ambientação (a primeira se passava na época contemporânea, nos Estados Unidos, e a segunda tratava da viagem de Marco Polo à China no século XIII), eram uma crítica ao mito do sucesso e do dinheiro.
Ainda em 1926, O’Neill escreveu Lázaro Riu (Lazarus Laughed), na qual dramatizava a vida de Lázaro, após a sua ressurreição por Cristo. O’Neill procurava situar um novo idealismo religioso, mesclado de elementos cristãos, nietzscheanos e orientais. No verão desse mesmo ano, O’Neill e a família foram para o Maine, nos Estados Unidos. Perto da casa dos O’Neill morava uma amiga do autor, Elizabeth
Marbury, que na época estava hospedando Carlotta Monterey. O reencontro de O’Neill e Carlotta foi decisivo. Apaixonaram-se, voltaram a se encontrar em Nova York e, no ano seguinte, Eugene abandonou Agnes. O divórcio seria muito mais difícil de conseguir do que O’Neill imaginava. Agnes não chegava a um acordo sobre a pensão e desejava sempre mais do que O’Neill estava disposto a conceder.
Em janeiro de 1928 estreou Estranho Interlúdio (Strange Interlude), no John Golden Theatre. A peça, de nove atos, não era nem uma tragédia, nem um drama realista, nem um drama simbólico, mas uma mistura de todas essas formas num drama sobre uma mulher, Nina Leeds, em toda uma gama de papéis: mãe, esposa, amante, filha. Estranho Interlúdio foi a peça de O’Neill que alcançou maior êxito comercial: rendeu-lhe duzentos mil dólares. Ficou anos em cartaz e graças a ela O’Neill recebeu mais um prêmio Pulitzer.
Eugene e Carlotta resolveram então fazer uma viagem à Europa e embarcaram, incógnitos, em fevereiro de 1928. Foi uma longa viagem, que se estendeu até o Oriente. O’Neill não conseguia trabalhar: bebia demais para aliviar a tensão provocada pelas exigências de Agnes sobre o divórcio. A última bebedeira, em Xangai, culminou com seu internamento num hospital. Em julho de 1929, Agnes finalmente concedeu-lhe o divórcio. O’Neill e Carlotta casaram-se em Paris.
Quando terminou de escrever Electra e os Fantasmas (Mourning Becomes Electra), O’Neill dedicou-a a Carlotta. Era mais uma obra-prima. O’Neill lançara-se ao projeto ambicioso e feliz de basear sua peça num mito da Antiguidade clássica. Foi uma prova difícil, mas ele arrebatou mais elogios da crítica por essa peça do que em qualquer das anteriores. Electra e os Fantasmas passou à história como a maior tragédia americana.
O’Neill e Carlotta retornaram aos Estados Unidos em maio de 1931. Em outubro, Electra foi levada à cena e, para não fugir à regra, o autor não compareceu à estréia. Estava em sua casa, recém-adquirida, a Genotta, em Sea Island, na Geórgia, e começava a escrever Dias sem Fim (Days Without End). A peça abordava a aridez espiritual da época e só ficou pronta em 1933. No ano anterior, O’Neill concluiu A Juventude não É Tudo (Ah, Wilderness!), uma comédia. Em 1934, Dias sem Fim foi encenada pelo Guild Theatre — um grande fracasso. O’Neill resolveu afastar-se temporariamente das lides teatrais para se dedicar a um ciclo de peças que trataria da ascensão e queda de uma família americana. Trabalhou no projeto de 1935 a 1939, mas, insatisfeito com os resultados, rasgou a maior parte dos manuscritos. Sobraram apenas duas peças: Um Toque de Poeta (A Touch of Poet) e A mais Sólida Mansão (More Stately Mansion).
Depois de dois anos de silêncio foi surpreendido, em 1936, com a concessão do prêmio Nobel de Literatura. Mudou-se da Geórgia para a Califórnia, onde, em sua Tao House, uma imponente mansão, escrevia e recebia poucos amigos. Viveu na Tao House por mais de seis anos, sua maior permanência numa casa até então, e só a abandonou por motivos de saúde, em 1944.
Foi na Tao House que O’Neill voltou a ver os filhos, Shane, Oona e Eugene Jr. Quando Oona se casou com Charles Chaplin, em 1943, O’Neill a deserdou e nunca mais quis vê-la. Shane tornou-se um segundo James O’Neill, e Eugene Jr. parecia, em seu cargo de professor assistente em Yale, o único de seus filhos a lhe trazer satisfações.
Desde seu retiro voluntário, Eugene O’Neill começou a sofrer os primeiros sintomas da doença que acabaria por impedi-lo de escrever, pois atacava o sistema motor. A partir de 1939, com a guerra, a mudança para a Califórnia e a doença, O’Neill começou a se voltar para o seu passado. Naquele mesmo ano escreveu O Geleiro Chegou (The Iceman Cometh). Havia na peça um bar chamado Harry Hope, uma mistura do Hell Hole e do Jimmy-the-Priest. Foi nessa volta ao passado, revendo seus fantasmas, que escreveu Longa Jornada Noite Adentro (Long Day‘s Journey into Night, 1919-41), a última e a mais dolorosa das suas peças de caráter autobiográfico, e Uma Lua para o Bastardo (A Moon for the Misbegotten), onde dramatizava a vida de James, seu irmão.
Os últimos anos da vida de O’Neill foram extremamente difíceis e solitários. Sua ligação com o mundo exterior era Carlotta. Os médicos não conseguiam deter o curso da doença. Em 1951, O’Neill mudou-se para um hotel, em Boston, o Shelton, próximo ao hospital onde trabalhava a equipe médica que o assistia. Em novembro de 1953 seu estado se agravou. No dia 24 deixou de comer; na madrugada do dia 27, morreu. Nesses dias de agonia, num momento de lucidez, balbuciou: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!”
UMA ÁRDUA JORNADA
A tragédia de Longa Jornada Noite Adentro é motivada pelo drama da família Tyrone, cujos elementos se baseiam na biografia da família O’Neill. O pai, James Tyrone (como James O’Neill), é filho de pobres imigrantes irlandeses. Da mesma forma que James, Tyrone investiu sua carreira numa obra de sucesso fácil, sabendo que poderia ter sido um grande ator. Há uma característica no personagem, entretanto, que não corresponde ao modelo real: o materialismo exacerbado.
Edmund corresponde a Eugene O’Neill. Ao longo da peça o autor alude à sua vida de vagabundo na América do Sul, à febre amarela contraída nos trópicos, às noites na taverna Jimmy-the-Priest, à infância nefasta de James, o irmão mais velho. Mas o autor omite que em 1912, ano dos acontecimentos de Longa Jornada Noite Adentro, Edmund já havia se casado, tido um filho e se divorciado. Curiosamente, O’Neill apropriou-se do nome do irmão falecido, Edmund, enquanto que, no decorrer da peça, a mãe se refere ao filho morto como Eugene.
James é inteiramente James O’Neill, um bêbado irrecuperável, inútil e perdulário, sem qualquer esperança de redenção. Traz em si a marca de Caim — o filho e irmão maldito. É rejeitado pela mãe e pelo pai, acusado de corromper Edmund, responsável (segundo a mãe) pela morte do pequeno Eugene, pois tinha ciúme dele. Aos sete anos, quando contraiu sarampo, sabia que devia ficar afastado do bebê mas entrou no quarto do irmão, deliberadamente — e o contaminou, levando-o à morte.
Mary Tyrone, a mãe, corresponde a Ella, numa imagem de pureza e inocência, a projetar no destino os motivos de sua falência. Mary diz: “Nenhum de nós pode remediar as coisas que a vida nos faz! Estão feitas antes mesmo que a gente se aperceba... “ Ela aceita a condenação à impotência, como se fosse uma sina, e tenta sobreviver dentro do sonho provocado pela droga. Esta, por instantes, preserva-a da dor de viver uma vida que não teve nenhuma complacência com sua fragilidade.
A Longa Jornada Noite Adentro, como especifica O’Neill, aconteceu num dia de agosto de 1912, quando a família estava reunida em sua casa de veraneio. Edmund apresentava sintomas de tuberculose e trabalhava no jornal daquela pequena comunidade à beira-mar. O pai estava muito preocupado mas bastante esperançoso, pois Edmund começara a escrever.
No cenário em que se ambienta a peça, o tapete é surrado, mas há muitos livros em duas estantes distintas. A de Tyrone, com livros históricos, obras de Shakespeare, Dumas e Victor Hugo; a de Edmund, com obras de Zola, Ibsen, Strindberg e outros autores, que o velho James O’Neill — como James Tyrone — considerava decadentes.
Nesse cenário, inundado de sol no primeiro e segundo atos, obscurecido pelo nevoeiro às 18h30 do mesmo dia, no terceiro ato, e rodeado pela noite no quarto ato, é que os personagens se atormentam e se descobrem.
Longa Jornada Noite Adentro é uma tragédia porque os personagens são em parte responsáveis por sua própria destruição, embora também sejam vítimas de algo que não conseguem controlar e que se pode chamar de destino. Não se trata de uma peça de enredo mas de ação psicológica, pois o que realmente aconteceu aos Tyrones está no passado; esse passado é revisitado, trazido à cena nos sucessivos embates entre os personagens, justificando a ação presente.
O tempo do drama vai das 8h30 da manhã até a meia-noite, mas o tempo psicológico é muito maior, porque esse dia corresponde a uma vida inteira.
A ação começa numa manhã ensolarada, com Mary Tyrone entrando em cena, “sorrindo afetuosamente”, e termina quando ela, à meia-noite, envolta pelo sonho provisório da morfina, remete ao ponto onde tudo começou. Nesse momento, Mary sente falta de alguma coisa que se perdeu e durante alguns minutos procura descobrir como e quando isso teria ocorrido. Voltando ao passado, ela se reencontra no convento, experimentando uma vocação religiosa que não foi levada adiante. Logo a seguir, numa primavera, ela conheceria James Tyrone, apaixonar-se-ia por ele e, durante algum tempo, seria muito feliz.
Entre a imagem de Mary sorrindo afetuosamente e a cena final, todos os personagens percorreram um trajeto idêntico dentro de sua própria noite. Para cada um houve momentos de confissão, de revelação, de esclarecimento, através dos vários conflitos entre eles. Um dos conflitos mais importantes se dá entre Edmund e seu irmão James. Pouco antes, James Tyrone e Edmund haviam tido seu confronto definitivo, quando o velho revelara ao filho mais moço as razões que o levaram a prostituir-se profissionalmente. O confronto termina com um momento de compreensão entre o pai e o filho.
O conflito com James, que aparece camuflado desde o início, revela-se afinal mais violento e profundo. James demonstra todo seu rancor por Edmund ter sido sempre o “queridinho”, porque Edmund está no caminho de se encontrar e ele se sente perdido. James tenta destruir as ilusões do irmão, como deliberadamente procurara destruí-lo no passado, quando o introduziu em seu estilo de vida decadente. James não tem ilusões, nem sonhos, nem vontade, nem fé. É o mais indefeso, porque ainda lhe restam alguma lucidez e consciência sobre seu próprio estado. Sabe que é irrecuperável, como o próprio James O’Neill, que morreu aos 45 anos, vitima do álcool e de si mesmo.
A jornada de Edmund é mais positiva. No itinerário do sofrimento, ele chega à luz, erguendo o véu das ilusões. Se por um lado isso lhe causa imensa dor, por outro o projeta numa dimensão na qual ele consegue superar seu desespero, iluminando-se, redimindo-se.
Em Lázaro Riu, O’Neill tem uma frase que poderia resumir a condição dos personagens de Longa Jornada Noite Adentro: “A vida é para cada homem uma cela solitária cujas paredes são espelhos”. Assim o foi para os quatro Tyrones na viagem de um longo dia dentro da noite, quando conseguiram levar até o fim a descoberta insuportável de sua fragilidade.




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