terça-feira, 3 de março de 2026

TONY KUSHNER ESCREVEU: O GÊNIO DO NEVOEIRO - EUGENE O'NEIL


EUGENE O' NEIL


O GÊNIO DO NEVOEIRO

Tony Kushner

Tradução: Rubens Figueiredo



Quando Eugene O’Neill terminou Longa Jornada Noite Adentro, em 1941, decidiu que a peça não poderia ser lida nem montada senão vinte e cinco anos após a sua morte. Indagado sobre as razões dessa exigência, O’Neill respondeu apenas que uma das personagens ainda vivia. Raros amigos tiveram o privilégio de ler os originais, antes que eles fossem enviados para os cofres da Randon House, a editora que publicava as obras de O’Neill, e para a Biblioteca da Universidade de Yale. Mas a vontade do autor não foi cumprida.

Em 1956, três anos depois de sua morte, a viúva de O’Neill, Carlotta Monterey, liberou a publicação e a montagem da peça. Soube-se então por que o dramaturgo não desejava que a Longa Jornada Noite Adentro viesse a público. Com essa autobiografia dramática, como tantos a chamariam, ele ressuscitava seus mortos o pai, a mãe, o irmão —, traçando um comovente retrato da família O’Neill, no qual o autor se identificava com o personagem Edmund. Em 1941, ao concluir a peça, apenas Edmund-Eugene estava vivo.

Apesar de seu caráter autobiográfico, Longa Jornada Noite Adentro é muito mais do que um retrato do artista quando jovem. Ainda que O’Neill tenha reproduzido na obra parte de sua vida, também é certo que determinados aspectos da realidade foram omitidos e outros simplesmente inventados.

A aventura desse homem singular chamado Eugene O’Neill, tuberculoso na juventude, dominado pelo medo de se tornar um alcoólatra como o irmão, filho de uma mulher que se abandonou ao vício das drogas e de um ator famoso que aviltou seu talento em peças de sucesso comercial, tem paralelos muito estreitos com a realidade de Longa Jornada Noite Adentro. Mas esse destino particular, ao ser recriado por meio do teatro, ganhou dimensão maior — graças, precisamente, ao caráter inconfundível das experiências pessoais do autor —, transfigurando-se e revestindo-se de um sentido comum e universal.

UM LAR PROVISÓRIO

A Barret House era uma pensão familiar situada na Broadway, em Nova York, onde se hospedavam artistas de teatro, como James O’Neill, que, ao regressar de suas excursões pelo país, fazia daquela casa o seu lar. Ali, no quarto 236 do terceiro andar, nasceu Eugene Gladstone O’Neill, na tarde de 16 de outubro de 1888.

James O’Neill, católico de origem irlandesa, foi um grande ator que se perdeu. Poderia ter sido maior que o shakespeariano Edwin Booth (1833-1893), pois, na opinião deste, que o vira como protagonista em Otelo, James interpretava melhor que ele o famoso personagem. Mas James não soube aproveitar seu talento e se tornou apenas um bom ator, dedicando a maior parte de sua vida a representar Edmund Dantes em O Conde de Monte Cristo, percorrendo a América de costa a costa e ganhando uma fortuna em cada temporada.

Alguns biógrafos relacionam essa mudança de rumo com o seu casamento com Ella Quinlan, filha de abastado comerciante, uma jovem frágil, delicada e muito religiosa. Para casar-se com o ator, Ella foi obrigada a romper com seu meio social e sua família. James tinha adoração pela mulher e, para compensá-la do que havia perdido, construiu casas requintadas que ela nunca pôde habitar.

Em 1878, nasceu James O’Neill Jr., o primeiro filho do casal. Foi internado muito cedo no Colégio Notre-Dame, uma aristocrática escola católica. Quando Eugene nasceu James tinha dez anos e só viu o irmão três meses depois, durante uma visita em que os pais levaram o bebê ao internato.

Entre James Jr. e Eugene, Ella tivera outro filho, Edmund, que morrera ainda bebê, na casa dos avós, enquanto a mãe acompanhava o marido numa temporada pelo interior. Ella jamais se refez do sentimento de culpa por ter abandonado Edmund. Além do mais, era uma mulher sensível e sofria intensamente com a falta de raízes que ligassem a família O’Neill a uma casa, a uma vizinhança, a uma paróquia.

Desde o parto de Eugene, Ella descobrira que a morfina, que fora receitada pelo médico para lhe aliviar as dores, também diminuía seu nervosismo e sua insatisfação permanente. Procurou esconder do marido esse vício e quando James descobriu já era muito tarde.

Enviado para um internato católico em Nova York. o Mount Saint-Vincent, em 1895, Eugene passou a ver seus pais muito raramente. Era um menino triste e quieto, mergulhado numa solidão que se acentuava com a falta de calor humano das freiras e com o sentimento de rejeição em relação à família.

Em 1900, Eugene saiu do Saint-Vincent e foi para o De La Salle Institute, em Nova York. No segundo ano de sua permanência no La Salle, a mãe resolveu interná-lo novamente. O menino esforçou-se nos estudos, passou de ano com excelente média, mas a mãe sentia que era insuportável viver com o filho, cujos olhos pareciam reprovar constantemente seus atos. Ela acabou convencendo o marido, e Eugene voltou a ser internado, em 1902, na Academia Betts, em Stanford, um colégio laico.

Nessa fase ocorre sua revolta contra a religião católica e Eugene estreita sua ligação com o irmão James, que passa a ser uma espécie de tutor, introduzindo o adolescente no “outro lado” do mundo teatral, do qual os pais tinham procurado preservá-lo durante a infância.

Ao terminar o curso secundário, no ano de 1906, Eugene entrou na aristocrática Universidade de Princeton, no leste. Sentiu imediatamente que estava num ambiente tradicional, esnobe e, sobretudo, pouco estimulante intelectualmente. Nove meses mais tarde, era expulso, por atirar uma garrafa contra a janela da casa onde vivia Woodrow Wilson (1856-1924), presidente da Universidade e, durante a Primeira Guerra Mundial, presidente dos Estados Unidos.

Em Nova York, Eugene encontrou um clima de tensão muito grande na família, pois James, também expulso de Notre-Dame, no ano anterior, não conseguia se definir profissionalmente, entregando-se a bebedeiras e farras sem fim. Tentara a carreira de repórter e depois resolveu ser ator.

Eugene, por sua vez, foi trabalhar como escriturário numa empresa de promoções.

O emprego era tedioso, mas Eugene passava a maior parte do tempo numa livraria da 6.ª Avenida, cujo proprietário, Benjamin Tucker, era um dos mais conhecidos membros do movimento anarco-individualista americano. Eugene absorvia suas idéias, seus livros, suas palavras de ordem; mas a contribuição mais importante de Tucker foi revelar a O’Neill a obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Assim Falava Zaratustra, a grande obra profética de Nietzsche, acabou por se tornar o “catecismo” de O’Neill, a resposta que ele desejava contrapor ao primeiro dos seus catecismos: o católico. Naquela fase de sua vida anárquica, o pensamento de Nietzsche não era apenas uma refutação ao nível religioso, mas a confirmação de um estado de espírito, uma disposição em relacão à vida que era a sua. “Deves trazer o caos dentro de ti para fazer nascer uma estrela bailarina.”

Um dia, em 1909, Eugene comunicou à família que ia se casar. Na verdade, a moça, Kathleen Jenkins, já estava grávida. O filho nasceu pouco tempo depois do breve e tumultuoso casamento, quando O’Neill não se encontrava mais nos Estados Unidos. Havia ido para Honduras, em busca de “novas oportunidades” ou, segundo a opinião unânime de seus biógrafos, para fugir dos problemas. O casamento foi um erro e o casal divorciou-se oficialmente em 1912.

Vítima da febre amarela, Eugene teve que voltar para Nova York. O pai tentou então fazer dele uma espécie de assistente de diretor, em sua companhia de teatro; mas em três meses de excursão, Eugene não demonstrou o menor interesse pelo trabalho. Lia muito, principalmente relatos de viagem de Jack London (1876-1916), Josef Conrad (1857-1924) e Rudyard Kipling (1865-1936). Um dia resolveu partir para Buenos Aires, no navio Charles Racine, que saiu do porto de Nova York na primavera de 1910.

Em Buenos Aires, trabalhou algum tempo num frigorífico e numa fábrica de máquinas de costura. Durante os períodos de desemprego ia aos bares do cais, freqüentados por marinheiros que contavam suas aventuras, falavam de amores distantes, bebiam e jogavam muito. Em 1911 voltou para Nova York, engajado como marinheiro no Ikalis.

Ao chegar, não procurou imediatamente a família nem demonstrou curiosidade em conhecer o filho, Eugene Gladstone O’Neill Jr. Sua primeira providência foi alugar um quarto numa pensão que ficava em cima do Jimmy-the-Priest, conhecido bar de marinheiros. O bar e a pensão eram freqüentados por estivadores, prostitutas, contrabandistas, desempregados e anarquistas. De vez em quando Eugene aceitava um emprego em algum barco-correio ou navio de longo curso. O mar havia se tornado para O’Neill um símbolo de liberdade e conhecimento.

Mas afinal, cansado e sem dinheiro, foi ao encontro da família, em Nova Orleans. O pai achou que estava na hora de arranjar um emprego para o filho e convidou-o para fazer uma ponta em O Conde de Monte Cristo. Não havia alternativa e Eugene seguiu a companhia até o extremo oeste dos Estados Unidos. Na volta, ficaram algum tempo na casa de New London, em Connecticut.

Foi ali, no mês de agosto, que O’Neill começou a trabalhar como repórter no Telegraph. O proprietário do jornal, Frederick Latimer, interessou-se pelos escritos de Eugene e percebeu que ele não tinha apenas talento literário, mas gênio. Naquela época Eugene escrevia muito, apesar do precário estado de saúde que acabou por levá-lo para um sanatório de tuberculosos. No sanatório, durante o inverno e a primavera de 1912-13, O’Neill sentiu que escrever para teatro era a melhor forma de expressar o que sentia em relação à vida.

A decisão de se tornar um dramaturgo não surgiu subitamente. Na verdade, O’Neill não sabia de teatro apenas o que o velho James lhe ensinara. Lera toda a obra de William Shakespeare (1564-1616), assistira a numerosas montagens dos autores gregos e elisabetanos, conhecia alguma coisa do teatro europeu do século XIX. Desde 1911, seu interesse crescera muitíssimo e ele se convertera num espectador assíduo dos teatros de Nova York. Era um grande admirador de Ibsen (1828-1906) e, sobretudo, de Strindberg (1849-1912).

Em 1914, quando entrou para a Oficina Dramática do professor George Peirce Baker, em Harvard, O’Neill já havia escrito várias peças de teatro, como Uma Esposa para Sempre (A Wife for Life) e A teia de Aranha (The Web). Essas e outras obras, algumas das quais incluídas no volume Sede e Outras Peças em Um Ato (Thirst and Other One-Act-Plays), seriam renegadas mais tarde pelo autor, que as considerava de má qualidade. Dessa fase, apenas Sede, Rumo a Este para Cardiff (Bound East for Cardiff) e Névoa (Fog) chegaram a ser montadas.

O’Neill permaneceu no curso do professor Baker apenas oito meses. Em junho de 1915 abandonou Harvard. Três meses depois estava morando em Greenwich Village, Nova York, onde encontrou um bar irlandês, o Hell Hole, sucedâneo do velho JimmythePriest. O Hell Hole também era freqüentado por marginais, só que de uma espécie diferente a dos intelectuais outsiders: jornalistas, atores, anarquistas, políticos de esquerda.

No Village, O’Neill conheceu Terry Carlin, cuja prosa brilhante conquistara algumas amizades, como a de Jack London e Theodore Dreiser (1871-1945), o jornalista John Reed (1887-1920) e sua mulher Louise Bryant. Durante o verão de 1916, O’Neill, Carlin, John e Louise foram para Provincetown, uma cidade praiana de Cape Cod, Massachusetts, que se tornou decisiva na vida de O’Neill.

Desde o ano anterior, um grupo de teatro do Village, os Players, fazia ali suas montagens de verão. O’Neill e seus companheiros ligaram-se ao grupo, que ficou logo interessado na encenação de Rumo a Leste para Cardiff. Duas semanas mais tarde, a peça era montada com sucesso. A experiência de Provincetown animou o grupo a se estabelecer, de maneira regular, num teatro em Nova York, o Playwrights Theatre, cujo nome foi sugerido por O’Neill. O objetivo do grupo era a montagem de peças novas de autores americanos.

Entre 1917 e 1918, O’Neill escreveu várias peças em um ato, das quais as mais significativas foram reunidas depois no volume S. S. Glencairn: A Longa Viagem de Volta (The Long Voyage Home), Na Zona (In the Zone), A Lua das Caraibas (The Moon of the Caribees). E foi no outono de 1917 que Eugene começou a se projetar como dramaturgo. Algumas de suas peças foram publicadas a partir desse ano, na revista Smart Set. Os Washington Square Players interessaram-se por Na Zona e montaram-na em outubro daquele mesmo ano, enquanto A Longa Viagem de Volta era encenada pelos comediantes de Provincetown.

Em 1918, O’Neill casou-se com Agnes Boulton, jovem escritora que ele conhecera no Hell Hole, em fins de 1917. Mas o casamento fracassou. Eugene precisava de uma esposa que também fosse mãe e secretária, e Agnes estava muito empenhada em seu próprio trabalho. Haviam feito um acordo de não ter filhos, mas Agnes acabou dando à luz dois: Shane, que nasceu em 1919, e Oona, em 1925. Separaram-se em 1926.

Apesar de suas grandes desavenças com Agnes, O’Neill criou nesse período a maior parte de suas obras-primas, tendo mesmo dedicado a ela sua primeira peça em três atos Além do Horizonte (Beyond the Horizon). A peça foi apresentada no Morosco Theatre, na Broadway, em 1920, e lhe valeu o Prêmio Pulitzer, em junho desse mesmo ano.

Eugene O’Neill estava definitivamente lançado. Além do Horizonte fazia sucesso na Broadway; Chris Christopherson era aplaudida em Atlantic City; Exorcismo (Exorcism), uma peça experimental, estreava no Village; O’Neill escrevia Ouro (Gold) e se preparava para retomar o tema de Chris Christopherson e criar Anna Christie, a história da regeneração de uma prostituta pelo amor. Anna Christie estreou em 1921 e O’Neill recebeu seu segundo prêmio Pulitzer.

Grande parte dos dramas escritos por O’Neill abordava a condição de alguns homens que ele conhecia bem, especialmente aqueles ligados ao mar. O desenvolvimento dramático de suas peças baseava-se no naturalismo cênico, mas a grande novidade de sua obra não estava na forma e sim nos temas, na rudeza de seus personagens, na devassa que ele fazia de seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Desde o início, O’Neill permeou suas obras de uma ironia trágica. Quase sempre, os homens alimentavam-se de sonhos que não conseguiam realizar, pois os caminhos escolhidos conduziam ao fracasso.

Se, por um lado, os personagens de O’Neill não podem viver sem ilusões, também é certo que sofrem com a impressão de que jamais alcançarão seus objetivos. As ilusões constituem a perdição e a redenção dos personagens, pois O’Neill afirma que sonhar é uma das condições para viver. Devemos alimentar nossos sonhos, mesmo sabendo que será difícil concretizá-los. Para O’Neill, “o único sucesso está no fracasso” e qualquer homem que se surpreenda um dia pensando não haver mais o que perseguir está acabado.

O Imperador Jones (The Emperor Jones), escrita em 1920 e levada à cena no mesmo ano pelos Provincetown Players, tinha pouca relação com as outras peças de O’Neill. Na verdade, O Imperador Jones foi um marco, não só na história de O’Neill como na do próprio teatro americano. A peça abandona os moldes naturalistas, para introduzir o expressionismo na obra de O’Neill e no teatro americano. O protagonista é um negro, Brutus Jones, carregador de malas numa estação ferroviária, que comete um assassinato e foge de navio para uma ilha das Índias Ocidentais, onde acaba se tornando imperador de uma tribo. Jones explora o povo, faz fortuna, até que a tribo se revolta e ele se vê obrigado a fugir, refugiando-se na floresta, onde finalmente é morto.

Em 1921, O’Neill parecia interessado unicamente no seu trabalho. O Primeiro Homem (The First Man), A Fonte (The Fountain) e O Macaco Peludo (The Hairy Ape) foram escritas nesse ano. O Macaco Peludo era a mais brilhante e ofuscou as duas primeiras. A Fonte, na qual O’Neill dramatiza o idealismo de Ponce de Léon ao buscar a fonte da juventude, só chegou à cena em 1925. O Primeiro Homem estreou em março de 1921 e foi uma das produções menos felizes do autor. Durante os ensaios, em fevereiro, O’Neill recebeu um telegrama de James, que se encontrava na Califórnia com a mãe, comunicando que ela estava muito doente. Poucos dias depois ela morreria.

No dia anterior à morte de Ella, O Macaco Peludo tinha estreado no Playwrights Theatre, com um sucesso fantástico. Um mês depois, iniciava sua carreira na Broadway. O papel de Milkdred era interpretado então por uma bela atriz, Carlotta Monterey, que substituíra Mary Blair. O primeiro contato de Carlotta com O’Neill nada teve de excepcional e ele mal se deu conta de sua presença. Quando voltaram a se ver, cinco anos mais tarde, o reencontro foi decisivo na vida de ambos.

Em 1923, O’Neill escreveu Acorrentados (Welded), na qual abordou o tema do casamento, analisando um casal em sua relação de amor e ódio. Nesse mesmo ano escreveu outra peça, Todos os Filhos de Deus Têm Asas (All God ‘s Children Got Wings), que tratava de um tema até então inédito nos palcos americanos: o problema conjugal entre uma branca e um negro. Em novembro desse ano, O’Neill perdeu o irmão James, que passara vários meses numa clínica tentando se recuperar do alcoolismo.

Desejo sob os Olmos (Desire Under the Elms) foi o grande êxito de 1924. Nessa obra evidenciava-se nitidamente a influência da tragédia grega, mais precisamente de Hipólito e Medéia, de Eurípides (484-406 a.C.). A madrasta se apaixona pelo enteado, trai o marido e engravida, acabando por matar o filho para provar ao esposo o seu amor.

A peça criou problemas com a censura e chegou a ser proibida em algumas cidades, como Boston e Los Angeles. Em janeiro de 1925, O’Neill, cansado e preocupado com o vício de beber, temeroso de ter o mesmo fim do irmão, resolveu submeter-se à psicanálise. Por sugestão do psicanalista comprou uma casa nas Bermudas e se mudou com a família para lá, onde trabalhou em duas novas peças O Grande Deus Brown (The Great God Brown) e Marco Milhões (Marco Millions), esta última iniciada em 1923.

No fim de 1925, o Greenwich Village Theatre, do qual O’Neill fazia parte como sócio, encenou A Fonte, e em janeiro de 1926, O Grande Deus Brown. O’Neill estava empenhado também na cara produção de Marco Milhões, na qual um produtor da Broadway, David Belasco, parecia interessado. Mas depois de um ano de indecisões, Belasco desistiu e Marco Milhões teve que esperar mais dois anos para ser encenada, no Guild Theatre.

Tanto O Grande Deus Brown como Marco Milhões, apesar de sua diferente ambientação (a primeira se passava na época contemporânea, nos Estados Unidos, e a segunda tratava da viagem de Marco Polo à China no século XIII), eram uma crítica ao mito do sucesso e do dinheiro.

Ainda em 1926, O’Neill escreveu Lázaro Riu (Lazarus Laughed), na qual dramatizava a vida de Lázaro, após a sua ressurreição por Cristo. O’Neill procurava situar um novo idealismo religioso, mesclado de elementos cristãos, nietzscheanos e orientais. No verão desse mesmo ano, O’Neill e a família foram para o Maine, nos Estados Unidos. Perto da casa dos O’Neill morava uma amiga do autor, Elizabeth

Marbury, que na época estava hospedando Carlotta Monterey. O reencontro de O’Neill e Carlotta foi decisivo. Apaixonaram-se, voltaram a se encontrar em Nova York e, no ano seguinte, Eugene abandonou Agnes. O divórcio seria muito mais difícil de conseguir do que O’Neill imaginava. Agnes não chegava a um acordo sobre a pensão e desejava sempre mais do que O’Neill estava disposto a conceder.

Em janeiro de 1928 estreou Estranho Interlúdio (Strange Interlude), no John Golden Theatre. A peça, de nove atos, não era nem uma tragédia, nem um drama realista, nem um drama simbólico, mas uma mistura de todas essas formas num drama sobre uma mulher, Nina Leeds, em toda uma gama de papéis: mãe, esposa, amante, filha. Estranho Interlúdio foi a peça de O’Neill que alcançou maior êxito comercial: rendeu-lhe duzentos mil dólares. Ficou anos em cartaz e graças a ela O’Neill recebeu mais um prêmio Pulitzer.

Eugene e Carlotta resolveram então fazer uma viagem à Europa e embarcaram, incógnitos, em fevereiro de 1928. Foi uma longa viagem, que se estendeu até o Oriente. O’Neill não conseguia trabalhar: bebia demais para aliviar a tensão provocada pelas exigências de Agnes sobre o divórcio. A última bebedeira, em Xangai, culminou com seu internamento num hospital. Em julho de 1929, Agnes finalmente concedeu-lhe o divórcio. O’Neill e Carlotta casaram-se em Paris.

Quando terminou de escrever Electra e os Fantasmas (Mourning Becomes Electra), O’Neill dedicou-a a Carlotta. Era mais uma obra-prima. O’Neill lançara-se ao projeto ambicioso e feliz de basear sua peça num mito da Antiguidade clássica. Foi uma prova difícil, mas ele arrebatou mais elogios da crítica por essa peça do que em qualquer das anteriores. Electra e os Fantasmas passou à história como a maior tragédia americana.

O’Neill e Carlotta retornaram aos Estados Unidos em maio de 1931. Em outubro, Electra foi levada à cena e, para não fugir à regra, o autor não compareceu à estréia. Estava em sua casa, recém-adquirida, a Genotta, em Sea Island, na Geórgia, e começava a escrever Dias sem Fim (Days Without End). A peça abordava a aridez espiritual da época e só ficou pronta em 1933. No ano anterior, O’Neill concluiu A Juventude não É Tudo (Ah, Wilderness!), uma comédia. Em 1934, Dias sem Fim foi encenada pelo Guild Theatre — um grande fracasso. O’Neill resolveu afastar-se temporariamente das lides teatrais para se dedicar a um ciclo de peças que trataria da ascensão e queda de uma família americana. Trabalhou no projeto de 1935 a 1939, mas, insatisfeito com os resultados, rasgou a maior parte dos manuscritos. Sobraram apenas duas peças: Um Toque de Poeta (A Touch of Poet) e A mais Sólida Mansão (More Stately Mansion).

Depois de dois anos de silêncio foi surpreendido, em 1936, com a concessão do prêmio Nobel de Literatura. Mudou-se da Geórgia para a Califórnia, onde, em sua Tao House, uma imponente mansão, escrevia e recebia poucos amigos. Viveu na Tao House por mais de seis anos, sua maior permanência numa casa até então, e só a abandonou por motivos de saúde, em 1944.

Foi na Tao House que O’Neill voltou a ver os filhos, Shane, Oona e Eugene Jr. Quando Oona se casou com Charles Chaplin, em 1943, O’Neill a deserdou e nunca mais quis vê-la. Shane tornou-se um segundo James O’Neill, e Eugene Jr. parecia, em seu cargo de professor assistente em Yale, o único de seus filhos a lhe trazer satisfações.

Desde seu retiro voluntário, Eugene O’Neill começou a sofrer os primeiros sintomas da doença que acabaria por impedi-lo de escrever, pois atacava o sistema motor. A partir de 1939, com a guerra, a mudança para a Califórnia e a doença, O’Neill começou a se voltar para o seu passado. Naquele mesmo ano escreveu O Geleiro Chegou (The Iceman Cometh). Havia na peça um bar chamado Harry Hope, uma mistura do Hell Hole e do Jimmy-the-Priest. Foi nessa volta ao passado, revendo seus fantasmas, que escreveu Longa Jornada Noite Adentro (Long Day‘s Journey into Night, 1919-41), a última e a mais dolorosa das suas peças de caráter autobiográfico, e Uma Lua para o Bastardo (A Moon for the Misbegotten), onde dramatizava a vida de James, seu irmão.

Os últimos anos da vida de O’Neill foram extremamente difíceis e solitários. Sua ligação com o mundo exterior era Carlotta. Os médicos não conseguiam deter o curso da doença. Em 1951, O’Neill mudou-se para um hotel, em Boston, o Shelton, próximo ao hospital onde trabalhava a equipe médica que o assistia. Em novembro de 1953 seu estado se agravou. No dia 24 deixou de comer; na madrugada do dia 27, morreu. Nesses dias de agonia, num momento de lucidez, balbuciou: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!”

UMA ÁRDUA JORNADA

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

A tragédia de Longa Jornada Noite Adentro é motivada pelo drama da família Tyrone, cujos elementos se baseiam na biografia da família O’Neill. O pai, James Tyrone (como James O’Neill), é filho de pobres imigrantes irlandeses. Da mesma forma que James, Tyrone investiu sua carreira numa obra de sucesso fácil, sabendo que poderia ter sido um grande ator. Há uma característica no personagem, entretanto, que não corresponde ao modelo real: o materialismo exacerbado.

Edmund corresponde a Eugene O’Neill. Ao longo da peça o autor alude à sua vida de vagabundo na América do Sul, à febre amarela contraída nos trópicos, às noites na taverna Jimmy-the-Priest, à infância nefasta de James, o irmão mais velho. Mas o autor omite que em 1912, ano dos acontecimentos de Longa Jornada Noite Adentro, Edmund já havia se casado, tido um filho e se divorciado. Curiosamente, O’Neill apropriou-se do nome do irmão falecido, Edmund, enquanto que, no decorrer da peça, a mãe se refere ao filho morto como Eugene.

James é inteiramente James O’Neill, um bêbado irrecuperável, inútil e perdulário, sem qualquer esperança de redenção. Traz em si a marca de Caim — o filho e irmão maldito. É rejeitado pela mãe e pelo pai, acusado de corromper Edmund, responsável (segundo a mãe) pela morte do pequeno Eugene, pois tinha ciúme dele. Aos sete anos, quando contraiu sarampo, sabia que devia ficar afastado do bebê mas entrou no quarto do irmão, deliberadamente — e o contaminou, levando-o à morte.

Mary Tyrone, a mãe, corresponde a Ella, numa imagem de pureza e inocência, a projetar no destino os motivos de sua falência. Mary diz: “Nenhum de nós pode remediar as coisas que a vida nos faz! Estão feitas antes mesmo que a gente se aperceba... “ Ela aceita a condenação à impotência, como se fosse uma sina, e tenta sobreviver dentro do sonho provocado pela droga. Esta, por instantes, preserva-a da dor de viver uma vida que não teve nenhuma complacência com sua fragilidade.

A Longa Jornada Noite Adentro, como especifica O’Neill, aconteceu num dia de agosto de 1912, quando a família estava reunida em sua casa de veraneio. Edmund apresentava sintomas de tuberculose e trabalhava no jornal daquela pequena comunidade à beira-mar. O pai estava muito preocupado mas bastante esperançoso, pois Edmund começara a escrever.

No cenário em que se ambienta a peça, o tapete é surrado, mas há muitos livros em duas estantes distintas. A de Tyrone, com livros históricos, obras de Shakespeare, Dumas e Victor Hugo; a de Edmund, com obras de Zola, Ibsen, Strindberg e outros autores, que o velho James O’Neill — como James Tyrone — considerava decadentes.

Nesse cenário, inundado de sol no primeiro e segundo atos, obscurecido pelo nevoeiro às 18h30 do mesmo dia, no terceiro ato, e rodeado pela noite no quarto ato, é que os personagens se atormentam e se descobrem.

Longa Jornada Noite Adentro é uma tragédia porque os personagens são em parte responsáveis por sua própria destruição, embora também sejam vítimas de algo que não conseguem controlar e que se pode chamar de destino. Não se trata de uma peça de enredo mas de ação psicológica, pois o que realmente aconteceu aos Tyrones está no passado; esse passado é revisitado, trazido à cena nos sucessivos embates entre os personagens, justificando a ação presente.

O tempo do drama vai das 8h30 da manhã até a meia-noite, mas o tempo psicológico é muito maior, porque esse dia corresponde a uma vida inteira.

A ação começa numa manhã ensolarada, com Mary Tyrone entrando em cena, “sorrindo afetuosamente”, e termina quando ela, à meia-noite, envolta pelo sonho provisório da morfina, remete ao ponto onde tudo começou. Nesse momento, Mary sente falta de alguma coisa que se perdeu e durante alguns minutos procura descobrir como e quando isso teria ocorrido. Voltando ao passado, ela se reencontra no convento, experimentando uma vocação religiosa que não foi levada adiante. Logo a seguir, numa primavera, ela conheceria James Tyrone, apaixonar-se-ia por ele e, durante algum tempo, seria muito feliz.

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

Entre a imagem de Mary sorrindo afetuosamente e a cena final, todos os personagens percorreram um trajeto idêntico dentro de sua própria noite. Para cada um houve momentos de confissão, de revelação, de esclarecimento, através dos vários conflitos entre eles. Um dos conflitos mais importantes se dá entre Edmund e seu irmão James. Pouco antes, James Tyrone e Edmund haviam tido seu confronto definitivo, quando o velho revelara ao filho mais moço as razões que o levaram a prostituir-se profissionalmente. O confronto termina com um momento de compreensão entre o pai e o filho.

O conflito com James, que aparece camuflado desde o início, revela-se afinal mais violento e profundo. James demonstra todo seu rancor por Edmund ter sido sempre o “queridinho”, porque Edmund está no caminho de se encontrar e ele se sente perdido. James tenta destruir as ilusões do irmão, como deliberadamente procurara destruí-lo no passado, quando o introduziu em seu estilo de vida decadente. James não tem ilusões, nem sonhos, nem vontade, nem fé. É o mais indefeso, porque ainda lhe restam alguma lucidez e consciência sobre seu próprio estado. Sabe que é irrecuperável, como o próprio James O’Neill, que morreu aos 45 anos, vitima do álcool e de si mesmo.

A jornada de Edmund é mais positiva. No itinerário do sofrimento, ele chega à luz, erguendo o véu das ilusões. Se por um lado isso lhe causa imensa dor, por outro o projeta numa dimensão na qual ele consegue superar seu desespero, iluminando-se, redimindo-se.

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

Em Lázaro Riu, O’Neill tem uma frase que poderia resumir a condição dos personagens de Longa Jornada Noite Adentro: “A vida é para cada homem uma cela solitária cujas paredes são espelhos”. Assim o foi para os quatro Tyrones na viagem de um longo dia dentro da noite, quando conseguiram levar até o fim a descoberta insuportável de sua fragilidade.


domingo, 23 de novembro de 2025

PEDRO CARDOSO ESCREVEU: A COMÉDIA É CRUELDADE!

A COMÉDIA É CRUELDADE, 

DISSE CERTA FEITA MEU MESTRE AMIR HADDAD


Encontrei o texto abaixo publicado no "Instagram", acompanhando um vídeo com o depoimento do grande (e às vezes polêmico) ator Pedro Cardoso. Diz muito sobre o que é a comédia, um tema complexo, que tem sido objeto de estudo de muitos e muitos autores que se dedicam a entender por que rimos da desgraça alheia, numa comédia. Não pedi autorização a ele para publicar o texto e espero que, se tomar conhecimento do meu blog, não fique bravo comigo. O link para o vídeo está no final do post:


Meu amigo e mestre, Amir Haddad, comentando meu trabalho numa comédia, disse-me, certa feita: “Pedro, comédia é crueldade! Seja impiedoso!” Eu era muito jovem, tinha nem 20 anos, estava no teatro profissional fazia nem 2 anos. Eu não entendi, naquele momento, o que meu mestre estava me dizendo. A lição, no entanto, repetidas em muitas outras ocasiões, permaneceu inesquecível durante o todo o tempo entre quando me foi ensinada e o dia de ontem. Longe de mim a pretensão de haver agora compreendido toda a imensidão do sentido da pedagógica frase do meu mestre - “comédia é crueldade”, mas acredito ter desvendado um fração da sua verdade. A comédia revela a maldade que está em toda pessoa, mas proibida de se exibir em publico. A comédia nos faz rir da nossa própria maldade, que vai mal guardada pela nossa educação. A crueldade, que meu mestre me pedia que deixasse agir sobre mim quando eu estava em cena, não é crueldade para fazer mal aos outros. É, pelo oposto: crueldade para ser impiedoso com a mentira do bom comportamento, que a vida em sociedade nos exige; é crueldade para revelar a maldade que vai em nós. A comédia profissional, acontecida no templo sagrado do teatro, é um modo seguro de vivenciarmos nossa maldade sem que ela faça verdadeiro mal a ninguém. Rir numa comédia teatral é como dar socos num saco de areia: agressão que não machuca ninguém.

Faz mais de 40 anos que Amir Haddad se despencou de Santa Teresa no meio da madrugada para me ensinar, quando eu era uma criança ainda chegando no teatro, uma das lições mais essenciais daquela que viria a ser a minha vida profissional de comediante. 40 anos tenho levado aprendendo, aos poucos e intensamente, o significado e a utilidade da comédia para a humanidade. Que sorte a minha ter encontrado nessa vida Amir Haddad! É muito provável que outros aprimoramentos do sentido da aula sobre a crueldade da comédia venham a me surgir nos tempos vindouros. Amir tem esse modo de pensar naturalmente transcendente; ontologia que emerge da observação da profissão de ator; teoria conhecida pela prática mais do que por alguma abstração conceitual; saber de quem exerce a profissão; filosofia para o dia-a-dia.








sexta-feira, 24 de outubro de 2025

ANA LÚCIA SANTANA ESCREVEU: TEATRO DE FANTOCHES

TEATRO DE FANTOCHES

O teatro de fantoches, de bonecos ou de marionetes é a expressão teatral que caracteriza as encenações realizadas, respectivamente, com fantoches, marionetes ou bonecos. É ainda mais autêntico aquele no qual seus elementos – palco, cenários, cortinas, entre outros – são estritamente criados para determinada representação.

Teatro de Fantoches. Foto: Africa Studio / Shutterstock.com

Teatro de Fantoches. Foto: Africa Studio / Shutterstock.com

O fantoche remonta aos tempos ancestrais e tem executado um papel significativo na história das civilizações. Ele está especialmente ligado aos primitivos cultos animistas, os quais consideram que tudo no Universo é portador de alma e, por extensão, de sentimentos, desejos e até mesmo de inteligência. Assim, determinados objetos eram considerados sagrados, entre eles as máscaras e os fantoches.

Este instrumento teatral conferia aos seres que os utilizavam poderes mágicos, caracterizando-os como personas intermediárias entre os povos primitivos e seus deuses. As pessoas conferiam tal sacralidade ao fantoche que ele realmente parecia sustentá-las espiritualmente.

Ao se tornar portador do fantoche, o personagem adquiria poderes que o convertia em um profeta, um ser sagrado, um exorcista. Portanto, somente um iniciado nos conhecimentos sacros poderia usar suas mãos para dar vida ao fantoche, em uma cerimônia especialmente preparada para essa encenação.

Na era clássica os fantoches estavam dispostos principalmente dentro dos templos; eram bonecos de grande porte conduzidos igualmente durante as procissões de iniciação. Eles se desenvolvem particularmente a partir do século VII, com a adoção de estátuas semelhantes ao Homem. Estes fantoches que imitam as feições humanas são então escolhidos cada vez mais para estes eventos religiosos, assumindo um estilo que ainda hoje marca as representações do teatro de fantoches.

Como esta modalidade lembrava demais os antigos ritos animistas, a Igreja começou a proibir as encenações dentro dos templos. Esta atitude deu origem aos teatros itinerantes, os quais reduziram o porte de forma a poder circular aqui e ali com suas representações, especialmente pelas ruas e em festas empreendidas no interior dos palácios.

Ao longo do Renascimento eles são novamente resgatados no seio das Igrejas, apresentando-se também nos pátios residenciais e nas festas realizadas durante as feiras. A platéia se populariza e o teatro de fantoches assume uma postura mais satírica, impregnada de humor. Ele tem um papel importante nesse período, chegando até mesmo a preservar o Teatro Inglês quando este é interditado durante 18 anos.

Seguindo a evolução histórica, os fantoches foram se transmutando conforme as necessidades de cada época, não se atendo jamais ao passado. Assim, eles estão sempre em metamorfose, constantemente assumindo novas formas. Esta modalidade teatral preserva sempre, porém, seu caráter ambulante, ao encenar seus espetáculos não só nos teatros convencionais, mas também nas ruas, nas praias, nos espaços ao ar livre diante das Igrejas.



Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_de_fantoches

http://pt.shvoong.com/social-sciences/1626672-história-dos-fantoches/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Animismo

Texto originalmente publicado em:

quinta-feira, 5 de junho de 2025

MARIONETE DE BIMA - MARIONETE DO TEATRO DE SOMBRAS DE JAVA, INDONÉSIA - 1600-1800 D.C.


Quando o jovem Barack Obama foi levado para Java para viver com o padrasto indonésio, espantou-se ao ver, na estrada, uma estátua gigantesca com corpo de homem e cabeça de macaco. Disseram-lhe que se tratava de Hanuman, o deus-macaco hindu. O motivo para um gigantesco deus hindu ser retratado nas ruas da Indonésia islâmica dos dias de hoje é parte de uma história fascinante sobre tolerância e assimilação, um compromisso informal entre religiões diferente de qualquer solução para os problemas das sociedades multirreligiosas [...]. E é uma história que, de certa maneira, pode ser sintetizada por uma marionete do teatro de sombras indonésio, uma forma de arte bastante conhecida e tradicional que permanece viva, apesar de muito antiga; porém, também está impregnada de política contemporânea. Por meio desta marionete e de seus companheiros, podemos explorar a expansão da transformação religiosa e política que começou no Sudeste Asiático há quinhentos anos e que continua a afetar a região nos dias de hoje.

O boneco apresentado aqui, um entre as várias centenas existentes na coleção do British Museum, que datam de mais de duzentos anos atrás até hoje, veio da ilha indonésia de Java. Tem cerca de setenta centímetros de altura e representa um personagem masculino com uma expressão de grande dramaticidade. Seu nome é Bima, e ele exibe feições bem peculiares, quase caricaturais — por exemplo, um nariz muito comprido —, e braços longos e finos, cada um terminando em uma única grande garra. Seu corpo é coberto por delicados tecidos rendados que tornariam sua sombra ainda mais dramática durante a apresentação. O rosto de Bima é negro, mas ele usa roupas douradas e adereços de cores vivas. Ainda que agora pareça sem vida e frágil, no passado ele teria empolgado plateias em espetáculos que se estendiam por toda a noite em uma corte javanesa. Esse tipo de espetáculo era conhecido na época — e assim continua até hoje — como teatro de sombras.

A forma real dos bonecos foi o produto de uma das mais drásticas mudanças religiosas ocorridas nos séculos XV e XVI. Enquanto a Espanha convertia o Novo Mundo ao catolicismo, o islã se expandia pelo que é hoje a Malásia, a Indonésia e o sul das Filipinas, e por volta de 1600 a maior parte do povo javanês era muçulmana. No entanto, o teatro de sombras já era uma característica da vida em Java muito antes da chegada do islã. O próprio Bima é um personagem conhecido não apenas em Java, mas por toda a Índia, uma vez que aparece no grande épico hindu Mahabharata. Em Java, porém, este personagem hindu veio a ser manipulado por titereiros islâmicos em apresentações diante de plateias também islâmicas. Ninguém parece ter se importado com isso, e o teatro de sombras indonésio segue combinando elementos pagãos, hindus e muçulmanos até hoje.

Confeccionar uma marionete como o nosso Bima era, e ainda é, uma tarefa que requeria enorme habilidade e exigia a participação de vários artesãos diferentes. Ele é feito de couro de búfalo cuidadosamente preparado, depois de ser raspado e esticado até ficar fino e translúcido. É o material que dá o nome javanês a esse gênero de teatro — Wayang Kulit —, “teatro de pele”. O boneco de marionete era então dourado e pintado; braços articulados eram acrescentados, e hastes feitas de chifre de búfalo eram fixadas ao corpo e aos braços para controlar seus movimentos.

Historicamente, as apresentações do teatro de sombras costumavam durar a noite inteira. A luz emitida por uma lamparina por trás do titereiro projetava as sombras das marionetes em um lençol branco. Alguns integrantes da plateia — em geral mulheres e crianças — sentavam-se do lado da tela em que a sombra era projetada, enquanto os homens se sentavam do outro, que oferecia uma visão melhor. Ao titereiro, conhecido como dalang, cabiam não apenas a tarefa de controlar os bonecos como a de reger a música executada por uma orquestra de gamelão.

Sumarsam, um prestigiado dalang no teatro de sombras atual, nos dá uma ideia de quão complexo é executar com competência uma apresentação:

É necessário controlar os bonecos, às vezes dois, três ou seis ao mesmo tempo, e o mestre titereiro também precisa saber quando dar o sinal para que os músicos comecem a tocar. E é claro que ele também tem de dar voz aos bonecos em diferentes diálogos; além disso, em algumas ocasiões canta músicas que ditam a atmosfera de determinadas cenas. Precisará usar seus braços e pernas — e tudo isso enquanto está sentado de pernas cruzadas. É divertido, mas também um trabalho que representa um grande desafio. As histórias podem ser atualizadas, porém a estrutura da trama permanece sempre a mesma.

As histórias contadas no teatro de sombras são em sua maior parte extraídas de dois grandes épicos do hinduísmo — o Mahabharata e o Ramayana, ambos escritos há bem mais de dois mil anos. Eles sempre foram amplamente conhecidos em Java, pois o hinduísmo, ao lado do budismo, era a religião mais difundida ali antes que o islamismo se tornasse hegemônico.

Como o budismo que inspirou Borobudur por volta do ano 800 e o hinduísmo que criou o Mahabharata, o islã chegou a Java pelas rotas do comércio marítimo que ligavam a Indonésia à Índia e ao Oriente Médio. Governantes javaneses logo perceberam as vantagens de se converterem ao islamismo: a despeito de uma possível atração espiritual, ele facilitava tanto o comércio com o mundo muçulmano de então quanto suas relações diplomáticas com as grandes potências islâmicas da Turquia otomana e a Índia mogol. A nova religião acarretou importantes mudanças em muitos aspectos da vida, mas de modo geral a cultura e a crença javanesas absorveram o islã em vez de serem totalmente substituídas por ele.

Os novos governantes islâmicos parecem ter aceitado isso: promoveram ativamente o teatro de sombras e suas histórias hindus, que continuaram a gozar da mesma popularidade de sempre. As plateias, tanto na época como nos dias de hoje, reconheciam de imediato o boneco Bima. No Mahabharata, ele é um dos cinco heroicos irmãos (hoje é possível acompanhar suas façanhas em desenhos animados na internet) e o grande guerreiro entre eles — de sentimentos nobres, dotado de franqueza e de força sobre-humana, equivalente à de dez mil elefantes, mas também dado a tiradas espirituosas e famoso por seu talento na cozinha. Um único toque das suas unhas que mais parecem garras significa a morte para seus inimigos.

O rosto negro do boneco de Bima expressa sua paz interior e serenidade, contrastando com os “vilões” do teatro de sombras, muitas vezes retratados em vermelho para indicar um espírito de vingança e crueldade. Mas sua forma também nos conta que a influência islâmica se fez presente nessa tradicional arte hindu, o que fica óbvio se compararmos nossa marionete javanesa de Bima, com o nariz e as garras caricaturais, a outro boneco representando Bima confeccionado na ilha vizinha de Bali, que permaneceu hindu. A figura de Bali exibe no rosto feições mais arredondadas e naturais, e seus braços e pernas parecem mais proporcionais em relação ao corpo. Hoje muitos em Java argumentariam que essas diferenças podem ser explicadas pela religião e que os bonecos tradicionais hindus foram deliberadamente reformulados por seus fabricantes javaneses muçulmanos a fim de contornar a proibição islâmica de criação de imagens de seres humanos e deuses. Algumas histórias falam em tentativas de proibir o teatro de sombras nos séculos XVI e XVII; outras mencionam Sunan Giri, um conhecido santo muçulmano, que teve a engenhosa ideia de distorcer as feições das marionetes para contornar a proibição — um ajuste feliz que pode explicar a estranha aparência do nosso Bima.

Atualmente a Indonésia, com seus 245 milhões de habitantes, é a nação islâmica mais populosa do mundo, e o teatro de sombras continua bem vivo. O autor de origem malaia Tash Aw descreve o papel permanente do teatro de sombras:


Mesmo hoje, existe uma grande consciência a respeito do que ocorre no reino do teatro de sombras. É uma forma de arte que segue sempre sendo renovada e usada de formas novas e instigantes. E, ainda que seu repertório tenha origem em grande parte no Ramayana e no Mahabharata, titereiros mais jovens estão sempre usando o teatro de sombras para injetar vida e humor com comentários maliciosos sobre a política na Indonésia, difíceis de serem reproduzidos em outros lugares. Logo após a crise financeira de 1997, lembro-me de um monólogo virtuoso em Jacarta que poderia ser traduzido de forma aproximada como “A língua ainda está em coma” ou “A língua continua muda”, no qual o atual presidente Habibie era apresentado como um personagem ridículo chamado Gareng, baixinho e com olhinhos irrequietos, incrivelmente determinado, porém muito incompetente. Assim, em vários aspectos, o teatro de sombras tornou-se uma fonte de sátira política e social de um modo que seria difícil acontecer na TV, no rádio ou nos jornais, já que esses meios podem ser censurados com mais facilidade; ele se mostra bem mais flexível, mais enraizado em comunidades de base e, portanto, mais difícil de ser controlado.

Uma marionete de Bima feita em Bali exibe feições mais realistas

No entanto, não é apenas a oposição que faz uso do teatro de sombras. O ex-presidente Sukarno, o primeiro dirigente da Indonésia após a obtenção da independência da Holanda depois da Segunda Guerra Mundial, gostava de se identificar com personagens de marionetes do teatro de sombras, sobretudo com Bima — um guerreiro íntegro e poderoso, que fala a linguagem do homem comum, e não a da elite. Sukarno costumava ser comparado ao dalang, o mestre das marionetes, do povo indonésio — aquele que lhe dava voz e o dirigia em seu novo Estado, liderando-o em seu épico nacional, como de fato fez durante vinte anos até ser deposto em 1967.

Mas por que este Bima se encontra agora no British Museum? A resposta, como sempre, está na política europeia. Durante cinco anos, entre 1811 e 1816, em meio à luta travada contra a França napoleônica em várias partes do mundo, a Grã-Bretanha ocupou Java. O novo governador britânico, Thomas Stamford Raffles, que mais tarde fundaria Cingapura, era um estudioso dedicado e grande admirador da cultura javanesa de todas as épocas, e, a exemplo de todos os governantes de Java, incentivava o teatro de sombras e colecionava seus bonecos. Nosso Bima veio dele. Esse curto período de domínio britânico explica outra coisa: por que o carro de onde o jovem Barack Obama avistou um deus hindu nas ruas da Jacarta islâmica era guiado no lado esquerdo da estrada.



Fonte:

A história do mundo em 100 objetos, Neil MacGregor; tradução de Beatriz Rodrigues, Berilo Vargas e Cláudio Figueiredo

sábado, 3 de maio de 2025

FELINI DELÍRIO E MEIO, peça de Isaias Edson Sidney

 

  



ISAIAS EDSON SIDNEY

Telefone: (11)3628-6388

SBAT – 34.001

 

  

 

FELINI DELÍRIO E MEIO

 

Isaias Edson Sidney

 

S.P.22.2.96


(TEXTO CLASSIFICADO NO IV CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA “VLADIMIR MAIAKOVSKI”, DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, CONFORME COMUNICADO DA FUNDAÇÃO CULTURAL CASSIANO RICARDO, DE 6 DE DEZEMBRO DE 1996, ASSINADO POR ELISABETH BRAIT ALVIM, DIRETORA PRESIDENTE INTERINA DA FUNDAÇÃO CASSIANO RICARDO).


PERSONAGENS

 

1. FELINI

2. BRUXAS :

·   BRUXA 1

·   BRUXA 2

·   BRUXA 3

3. MÃE

4. AMAZONA/ATRIZ

5. ILUMINADOR/ASSISTENTE/MÉDICO

6. POLICIAL/POLÍCIA/SOLDADO

7. JAGUNÇO 1/ ATOR 1/ATOR/ENFERMEIRO

8. JAGUNÇO 2/ ATOR 2/ENFERMEIRO

 

 ATO ÚNICO 



(Só um foco de luz sobre Felini, agachado, gemendo).


FELINI:-- Ai! Ui! São dores horríveis! Por quê? Por quê?! Que merda ! Já estou velho demais para suportar isso! Antes, uma dorzinha como essa eu tirava de letra! Mas, agora!... Que merda! Ai! Ai! Ai! Vem, dor maldita! Traz a loucura de volta ao meu pensamento! Vem, mistura tudo! Vida! Morte! Horrores! E a luz... luz... câmera! Ação! Ação! Vamos, seus putos! Botem emoção nessa porra de beijo!


(Surge a Bruxa, como por encanto. Rodeia-o como uma borboleta em torno da lâmpada).


BRUXA:- Felini, seu filho da puta! Nem no delírio tu esquece! Desgraçado!

FELINI:- Você! Vai embora! Me deixa!

BRUXA (gargalhando):- FELINI! Eu sou o teu delírio, desgraçado!

FELINI:- Não! Você não existe! Sai! Vai embora!

BRUXA:- É claro que eu existo, seu falso! Eu sou a tua ilusão, como tudo que você criou! Ilusão! Ouviu? Tudo ilusão!

FELINI:- Não! Vai embora! Ai! Ui!

BRUXA:- Grita, filho da loucura! Grita de dor! Teu delírio é minha vida! E eu sou tão falsa quanto a tua vida!

FELINI:- Não! Minha vida não é falsa! Eu criei! Eu criei!

BRUXA:- Criou o quê, Felini? Ilusões?


(A Bruxa sai, “voando”, às gargalhadas. Felini debruça-se sobre a sua dor e mergulha nas lembranças. Uma luz ilumina a Mãe).


FELINI:- MÃE? MÃE? MÃE! É você, MÃE?

MÃE:- Sou eu, filhinho! Vem, vem no colo, queridinho, vem?!

FELINI:- Ai, MÃE... É tão bom o teu colo! Por que você não fica mais comigo, MÃE? Por quê? (Chora).

MÃE (acariciando-o):- Mamãe tão ocupada! Precisa ganhar dinheirinho pro filhinho! Precisa ganhar dinheirinho pro filhinho! Olha! Vai vender esses pirulitinhos na praia, vai, meu neguinho! (Entrega-lhe um cesto com enormes pirulitos fálicos). Todo mundo quer chupar pirulitinhos que Mãezinha de Felinizinho fez!


(Felini pega a cesta, esboça um bailado meio trôpego, ameaça sair e volta).


FELINI:- Mãezinha!

MÃE:- Sim, filhinho!

FELINI:- Filhinho pode fazer perquntinha? Pode?

MÃE:- Se perguntinha for rapidinha... Felinizinho pode fazer perguntinha pra mamãezinha!

FELINI (escondendo o rosto, como a esperar uma porrada):- Mamãezinha! Quem... quem... quem é meu paizinho?


(A Mãe ameaça bater-lhe, para o gesto no ar, abre um sorriso safado e canta).


MÃE:- Paizinho de Felinizinho!

Paizinho de Felinizinho!

Irineu? que tanto amei?

Ivan? que tanto trepei?

Que mais aconteceu?

Manhã? Messias! Messias!

Quase me matei!

Todos os santos... tantos...

Valdir, Válter e Vanderlei!

Cada um que me... fui eu...

Fui que me estrepei!

Felinizinho... Felinizinho,

Ouça bem Mãezinha... escuta:

Um dia você nasceu...


FELINI:- Ah! Mãezinha! Então eu sou um... um...

MÃE (completando o canto):- Um lindo... lindinho... filhinho... da puta!


(Sai a Mãe e entra uma mulher vestida de amazona, cavalgando um ator que imita cavalo. Há um set de filmagem, com câmeras, técnicos etc.).


FELINI (falando através de um megafone):- Vamos, seus palermas! Luz! Câmera! Ação! Aqui! Esse ângulo! E você, sua molenga, mais vibração: vamos, esporeie o cavalo! Vamos! Bata nele com o chicote! Mais força! Mais força! Vamos! Você está cavalgando numa estepe russa! Numa estepe russa! Ouviu? Gelada!

AMAZONA:- Mas, seu Felini!... O senhor disse que era uma praia!...

FELINI:- Ah! Ousa me contrariar? Eu te tiro do filme! Eu tiro! Você sabe quem eu sou? Sabe? Sou Felini Brasileiro da Silva! Ouviu? O maior diretor dessa bosta de terra! Ouviu?

ATOR:- Ai! Seu Felini! Eu num guento mais! Minha bunda está doendo de tanto chicote!

FELINI (imitando o ator, de forma caricata):- Ai! Seu Felini! Eu num guento mais! Minha bunda está doendo... E vai doer mais, seu palerma! Bata! Açoite! (Para o câmera). Vamos, seu bosta! Close na bunda dele! Close na bunda dele! Fica quieto, seu puto! Você é um merda como ator, mas vai ter uma bunda famosa! Ilumina aqui, seu veado! Parece que não entende de luz!? Será que eu tenho de ficar falando tudo, pra vocês entenderem?

ILUMINADOR (do alto da cena):- O senhor quer mais luz, “seu” FELINI?

FELINI:- Não, seu puto, quero o rabo de sua mãe! Será que eu preciso repetir? Luz! Luz na bunda desse cavalo besta!

ATRIZ (chicoteando cada vez mais forte):- É assim, seu Felini? É assim que o senhor quer?

ATOR:- Ai! Chega! Tá doendo!

FELINI:- Calem a boca, seus imbecis! Uma obra-prima está nascendo... e vocês ficam aí resmungando! Vamos! Filma tudo! Mais luz! Mais luz! Vamos! Gritem, berrem! Mais alto!


(A cena é um pandemônio: os atores berram e Felini berra ainda mais alto, ao som de instrumentos musicais cada vez mais altos, até o máximo possível! E, de repente, tudo pára. No silêncio que se segue, Felini volta à infância. Todos se retiram lenta e silenciosamente. Somente um foco de luz em Felini e na Mãe).


FELINI:- Mãezinha! Mãezinha! Olha o que eu achei! (Mostra uma máquina fotográfica).

MÃE:- O que é isso que o filhinho tem na mãozinha? O que o filhinho trouxe pra Mãezinha?

FELINI:- Uma máquina de tirar retrato, MÃE! Vou ser retratista! Olha! (Tira uma foto da Mãe com a Polaroid. A Mãe olha-o, espantada).

MÃE:- Uma maquinazinha de retratinho, não é, filhinho? Pra tirar retratinho da Mãezinha, não é, filhinho?

FELINI:- É sim, Mãezinha! Gostou? Mãezinha gostou? Filhinho vai ganhar dinheirinho com retratinho de turistinhas!...

MÃE (pegando-o pela orelha):- Filhinho imbecilzinho... filhinho imbecilzinho!... E ladrãozinho! E ladrãozinho! De quem filhinho roubou? Diga pra Mãezinha, diga!

FELINI:- Eu não roubei, Mãezinha, eu juro... eu não roubei... eu não roubei...

MÃE (tomando-lhe a máquina):- Agora é da Mãezinha! Agora é da Mãezinha! Vai vender pro Tiãozinho da venda! Vai vender pro Tiãozinho da venda! E ganhar dinheirinho! E ganhar dinheirinho!


(A Mãe sai e Felini fica chorando e resmungando. Vai até o lado oposto de onde saiu a Mãe, toma uma filmadora e vem andando lentamente, “filmando” tudo à volta, até topar de novo com a Mãe).


MÃE:- E então, filhinho! Mais brinquedinho pra Mamãezinha fazer dinheirinho? Mais maquininha?

FELINI (recobrando-se do susto):- Não, Mãezinha, não me toma o brinquedinho... Não é maquininha... é... é... (Tenta fugir. A MÃE toma-lhe a frente). É maquininha... pra Mamãezinha... (Entrega-lhe a filmadora).

MÃE:- Filhinho fica quietinho... que Mamãezinha vai ali e volta já... Ouviu?


(A Mãe sai e Felini se contorce no chão, em posição fetal, chupando o dedo. A Mãe volta, contando dinheiro, que guarda no seio).


FELINI:- Mãezinha! Felinizinho já sabe o que vai ser quando crescer!

MÃE:- Que gracinha do filhinho da Mãezinha! Conta, conta pra Mãezinha o que o filhinho vai serzinho quando crescidinho! Conta!

FELINI:- Ah! Mãezinha! Tive uma visão! Vou fazer cinema!

MÃE:- Cinema! Cruz! Só cinema?

FELINI:- Sim, Mãezinha, só cinema! Vou...

MÃE:- Mas por que só cinema? Você não pode fazer também casa... igreja... edifício... barraco?...

FELINI:- O que Mãezinha tá dizendo?

MÃE:- Por que fazer só cinema? Pedreiro que faz só cinema... ganha dinheirinho?

FELINI:- Não, Mãe! Não é fazer cinema... o prédio... é fazer filme! Filme! Que os outros vão lá pra assistir!

MÃE:- Filme? Aqui? Na favela? Como na televisão?


(Neste momento entra a polícia).


POLICIAL:- Mãos ao alto! Tá todo mundo preso!



(Felini se esconde atrás da Mãe).


MÃE:- Que é isso, seu polícia? Presa? Presa por quê?

POLICIAL:- Vender mercadoria roubada! É isso aí! Tá todo mundo preso. (Mostra a filmadora).

MÃE (ajoelhando-se):- Não! Por favor! Não levem o meu filhinho! Eu sei que ele roubou... até bati nele... eu ia devolver... “ta’qui” o dinheiro... olha... ele jura que não rouba mais... não leve o meu filhinho... eu já falei pra ele... filhinho não pode roubar... Mamãe dá tudo pra filhinho... Filhinho não precisa roubar turista na praia... ele não vai mais fazer isso, seu polícia... eu prometo...

POLICIAL:- Ah! Então é esse o ladrãozinho, heim?! Levem o elemento pro juizado! Levem ele pro juizado!


(Pegam e arrastam Felini, que vai aos berros. A Mãe vira as costas à saída do filho, pega o dinheiro e conta-o com satisfação. A cena seguinte ocorre no set de filmagem. Dois atores vestidos como jagunços nordestinos lutam com facões, numa coreografia acompanhada pelo som de berimbaus, cantando os seguintes versos).


JAGUNÇO 1-: Entonces, Zé das Cobra,

Tuma lá essa paulada...


JAGUNÇO 2:-: Num vai sê c’uma facada

Que esse véio já se dobra...


JAGUNÇO 1:- Mas vosmicê há de convi

Que já tá indo pro beleléu...


JAGUNÇO 2:- Vosmicê me faiz é ri

Indo a caminho do céu...


JAGUNÇO 1:- ‘Cê matô é mais de cem,

Mas agora é sua vez...


JAGUNÇO 2:- ‘Ocê nunca matô ninguém

E num vai sê nessa pelez...

FELINI:- Corta! Corta! Tá uma merda! Vocês tão parecendo duas velhas resmungando! Mais força! Mais vibração! Mais tesão, seus frouxos. Retoca aqui a maquiagem desses maricas! Ilumina mais a cena, ô seu iluminador de merda! Quero luz! Muita luz! Isso é uma obra-prima, ouviram? E você, seu camerazinha de porra nenhuma, mais atenção nos detalhes! Vamos repetir! Todos a postos! Luz! Câmera! Ação!


(A cena se repete. Felini acompanha tudo como um louco, pulando, incentivando, gesticulando, quase atrapalhando os câmeras).



FELINI:- Corta! Chega por hoje! Está quase bom! (Para os atores). Vão descansar! Amanhã repetiremos.

ATORES:- Repetiremos?!

FELINI:- Sim, repetiremos! É preciso repetir, repetir, repetir... mil vezes... até a exaustão... até a perfeição! Ouviram? Per-fei-ção! Vocês sabem o que é isso? Sabem? O mínimo que eu quero desta bosta de filme é a per-fei-ção! E isso vale para todos! Ouviram? Para todos! Per-fei-ção!


(Os dois atores se retiram, desanimados).


ASSISTENTE:- E agora, seu Felini? Que cena vamos filmar?

FELINI:- A cena do beijo! A cena do beijo!

ASSISTENTE:- Mas já fizemos esta cena ontem!

FELINI:- Está péssima! Horrível! Entendeu? Horrível! Vamos fazer de novo!

ASSISTENTE:- Que entrem os atores da cena do beijo!


(Entram dois rapazes, vestidos com longas túnicas. Um sofá é colocado no meio da cena. Eles se sentam, de frente um para o outro).


ASSISTENTE:- Todos prontos? Silêncio! Claquete!

FELINI:- Luz! Câmera! Ação!

ASSISTENTE:- Silêncio! Filmando! Cena 82, tomada 25!


(Os dois rapazes começam a se acariciar e lentamente vão-se aproximando até se abraçarem num beijo cada vez mais forte. Felini está quase em cima deles, como um louco, olhos esbugalhados, berrando).


FELINI:- Mais forte! Vamos! Mais forte! Vamos, seus putos. Força. Tesão. (Da boca dos atores começa a correr sangue). Isso! Isso! Eu quero ver sangue! Sangue verdadeiro! Vamos! Mais... mais...


(A tensão da cena vai aumentando, até que um dos atores não suporta mais a dor e o sangue e salta como um louco na frente de Felini, com a boca pingando sangue).


ATOR:- Chega, seu velho desgraçado! (Cospe sobre Felini). É isso o que você quer? Matar a todos? Sangrar a todos até morrer? Vai se foder, ouviu? Vai se foder!

FELINI:- É isso! É isso! Bravos! (Corre para o câmera). Filma tudo... não para... É isso mesmo... Fantástico! Fantástico, não: sublime! Era assim que eu queria! Bravos!


(Os atores estão estupefatos, parados, com as bocas sangrando. Felini continua, cada vez mais exaltado).


FELINI:- Aqui! Um close! Vamos! E aqui! Feche a câmera... rápido... agora abra devagar... Vamos... Mais luz sobre esse aqui... Assim... Vejam que rostos! É isso a tragédia humana! É isso o que eu quero! Bravos!


(A cena se congela por alguns instantes, com focos de luz sobre os rostos machucados e espantados dos atores. Pouco a pouco, a equipe começa a aplaudir, as luzes se abrem, todos se abraçam comovidos, dançam, ao som da música cada vez mais alta, fazem uma roda com Felini no meio, agradecendo os aplausos, beijando a uns e outros, numa ciranda até o clímax. Tudo se apaga de repente e depois de alguns instantes, no espaço vazio, um facho ilumina apenas o rosto de Felini, deitado no chão).


FELINI:- Sonho! A vida foi um sonho! E eu criei fantasias mil... sonhos que embalaram na sala escura os desejos de milhares de outros sonhos de pessoas que não conheço nem conhecerei... mas que viajaram nas imagens que eu inventei... que eu tirei de meus delírios...


(De repente, vindas do alto, caem quase sobre ele, as bruxas. Gritam e dançam ao seu redor, ameaçadoras).


BRUXA 1:- Sonhando, hem seu Felini!

BRUXA 2:- Seu Felini uma ova... Que “seu” Felini que nada! Isso aí é um monstro! Um monstro! É o que ele é...


(As bruxas gargalham. Percebe-se que ele está preso, amarrado ao solo).


FELINI:- Me deixem em paz! Suas bruxas de merda! Eu é que criei vocês!

AS BRUXAS (cantando):- Felini nos criou! Felini nos criou! Felini nos criou!

FELINI:- Sim! Eu criei vocês! E eu destruirei vocês!

AS BRUXAS (cantando):-

Olhem como ele é...

Olhem como ele é...

Olhem como ele é...

Poderoso... absoluto...

Nem parece que ele é

Um grande puto,

Um grande puto!

FELINI:- Criatura ordinárias! Me soltem! Eu sou o seu criador! Eu fiz vocês, demônios das trevas... Vão embora! Xô! Xô!

AS BRUXAS (cantando):- Xô, Satanás!

Xô, Satanás!

Que vamos, que vamos

Que vamos todas...

Atrás! Atrás! Atrás!...


(Pulam, gritam e jogam sobre ele um monte de porcarias).



FELINI:- Parem! Ouçam! Eu tenho uma proposta para vocês!

BRUXA 1:- Uma proposta?

BRUXA 2:- Que bosta!

BRUXA 3:- Você não gosta?

BRUXA 1:- Vamos ouvir!

BRUXA 2:- Você pode latir!

BRUXA 3:- Mas eu vou rir!

FELINI:- Não! Por favor, parem! Rima, não! Rima, não! Suas Bruxas velhas e fedidas!

AS BRUXAS:- Fedidas

E atrevidas...

BRUXA 1:- Mas bem fornidas!

BRUXA 2:- E muito metidas!

BRUXA 3:- Vestidas...

TODAS:- Ou despidas!

FELINI:- Chega! Me poupem! Ouçam, por favor. (Mudando o tom de voz). Felinizinho quer as bruxinhas bem comportadinhas... bem quietinhas...

AS BRUXAS (cantando e imitando Felini):-

Quietinhas...quietinhas...

Quietinhas ficaremos...

Com o filhinho das Mãezinhas...

Nós... nós... nós...

Fornicaremos!

BRUXA 1:- Vem pro colinho da Mãezinha!

BRUXA 2:- Mãezinha tem leitinho pro filhinho...

BRUXA 3:- Pra mamãe ganhar dinheirinho...


(As Bruxas desamarram-no e, sempre gritando e pulando, se reúnem numa roda e fazem surgir, no meio de grande fumaça e de um grande estrondo, a figura da Mãe).


FELINI:- MÃE! Mãezinha! A senhora está aí, Mãezinha?

MÃE:- Sim, filhinho! Mãezinha vela soninho de filhinho! (Canta). Boi, boi, boi da cara preta...

FELINI:- MÃE?! Eu sonhei!

MÃE:- Sonhou com a Mamãezinha, filhinho? Sonhou?

FELINI:- Sim, Mãezinha! Sonhei com a senhora!

MÃE:- Sonhinho bom, filhinho?

FELINI:- Sim, Mãezinha!

MÃE:- Que bom, filhinho!

FELINI:- Sim, Mãezinha! Que bom, que bom!

MÃE:- Felinizinho conta pra Mãezinha?

FELINI:- FELINI tem vergonha! FELINI tem vergonha!

MÃE:- Felinizinho, Felinizinho!

FELINI:- Ah! Mãezinha! Que sonhinho gostosinho!

MÃE:- Conta, filhinho! Que Mamãezinha repete sonhinho do filhinho.

FELINI:- A senhora promete, Mãezinha? Promete?

MÃE:- Prometo, filhinho!

FELINI:- Jura? Jura por todos os meus pais?

MÃE:- Juro, filhinho!

FELINI:- Ah! Mãe! Foi um alumbramento!...

MÃE:- Alumbramento, filhinho?

FELINI:- Meu primeiro alumbramento, Mãezinha!

MÃE:- Como o do poeta, filhinho?

FELINI:- Sim, Mãezinha, como o do poeta!

MÃE:- Aquele do Recife, filhinho?

FELINI:- Sim, Mãezinha! Que você gosta tanto!

MÃE:- Aquele que diz que seu primeiro alumbramento foi...

FELINI:- Nuinha, Mãe, nuinha...

MÃE:- A moça do banho... Nuinha...

FELINI:- Mãe!

MÃE:- Sim, filhinho!

FELINI:- Você... você prometeu!

MÃE:- Eu... eu prometi...

FELINI:- Alumbramento...

MÃE:- Seu primeiro alumbramento... (Despe-se e deita-se lentamente).

FELINI (aconchegando-se ao corpo da Mãe, colocando-se em posição fetal e sugando-lhe o seio):- Alumbramento... alumbramento...


(No set de filmagem, todos aguardam as ordens de Felini, que anda de um lado para o outro, como em transe).


FELINI:- O beijo... o beijo e a cavalgada... Assim se fez um povo... Amor... aventura... Está faltando algo... Eu sinto... As Bruxas que me visitaram.. É isso... Já sei... está faltando um pouco de... ASSISTENTE! ASSISTENTE! Chame o ator que faz o Nero!

ASSISTENTE:- O Nero, senhor diretor? Mas não era o Conselheiro?

FELINI:- Sim, esse mesmo! Chame-o! Vamos filmar!


(O assistente sai e volta com um ator trajando uma longa túnica suja e esfarrapada, com uma longa cabeleira desgrenhada).


FELINI:- É isso! Assistente! Ponha uma coroa sobre a cabeça dele!

ASSISTENTE:- Rápido, uma coroa!

FELINI:- É isso! Falta ainda uma cítara!

ASSISTENTE:- Uma cítara, senhor Diretor? Não temos nenhuma cítara à mão. Temos que mandar buscar... e pode demorar...

FELINI:- Não, eu quero agora... Uma cítara... uma harpa... ou mesmo, um violão...

ASSISTENTE:- O nosso iluminador toca violão... Quem sabe? (Para o iluminador). Está aí o seu violão? Então, traga-o aqui. Rápido.

FELINI (colocando o violão nas mãos do ator):- Vamos, segure isso e... toque... vamos, toque...

ATOR:- Mas, Diretor, eu não sei...

FELINI:- Não importa... agora você sabe... Vamos, toque!


(O ator dedilha o violão, desajeitadamente).


FELINI:- Isso, mais forte... Assim... Vamos... vamos... Isso... Pare! Agora vamos filmar...

ASSISTENTE:- Silêncio! Claquete!

FELINI:- Luz! Câmera! Ação!

ASSISTENTE:- Cena 103. Tomada 1.

FELINI (dirigindo a cena como um possesso, falando às vezes ao megafone, aproximando-se e afastando-se, gritando, implorando etc.):- Isso mesmo... toque o violão... com mais força... isso... Agora dance! Vamos, dance, como os loucos dançam... Você sabe... Isso... assim... mais forte... roda ... roda... toque... balance o corpo para frente... isso... olhe para cima... você está vendo um deus lá no alto... veja... ele está chamando você... ofereça a ele a sua música... o seu corpo... Você está sobre a montanha... E o deus fala com você... O povo aguarda a palavra... a sua palavra... mas você só tem a música... Toque... toque... mais alto... Dance! Dance! Até morrer! Até morrer! A morte o libertará! Rode! Rode até cair... Isso... Isso mesmo... Corta! Corta! (Pausa. Levantam o ator, exausto). Muito bem! Filmaram tudo como determinei, não filmaram? (Sua voz vai, pouco a pouco, readquirindo a normalidade e passa, ao final, a um alheamento meio louco). É isso... o meu filme... agora começo a perceber... e vocês também percebem, não percebem? Um povo... uma nação se faz com cavalgadas, com beijos e com sonhos. São esses os elementos primordiais da alma humana. E nós, nós aqui, neste filme, estamos captando esse momento mágico. Vocês estão fazendo a história! E eu, eu sou aquele que dirige tudo isso... Eu sonho... eu deliro... eu realizo... Não sou, também, um deus? Não sou? Eu, Felini Brasileiro da Silva, um deus... um deus...


(Neste momento ouve-se um tiro, seguido de gritos. Após alguns instantes, entra um ator correndo).


ATOR:- Senhor Felini, senhor Felini.... Uma tragédia! Uma tragédia!

FELINI:- A vida é uma tragédia! Vamos, fale, o que aconteceu de tão grave?...

ATOR:- É... é a nossa atriz... ela se matou...

FELINI:- Como?! Como ela ousou fazer isso sem que eu estivesse dirigindo?!... Como?!...

ASSISTENTE:- Senhor Diretor, ouça... A nossa atriz se matou de verdade!

FELINI:- Não foi uma cena?

ATOR:- Não, senhor. Foi de verdade!

FELINI:- Mas, por que ela fez isso?

ATOR:- Estão dizendo que ela recebeu notícia do noivo... ele está com AIDS...

FELINI:- Oh! Como é pobre a realidade! Matar-se porque o noivo está com AIDS... É por isso que não gosto dessa... dessa... coisa que vocês chamam vida real... cheia... de dores... de desencantos...

ATOR:- Mas, senhor Diretor, o senhor não diz sempre que arte é vida levada ao paroxismo?

FELINI:- Eu disse?... Eu digo sempre isso?... Vida? Arte? Paroxismo da vida ou da arte?... Não... sei... Por que matar-se pela vida? Não é mais lógico matar-se pela arte?... Você disse... Não, eu disse paroxismo... Um vez, há muito tempo, minha Mãe...


(As luzes vão-se apagando à proporção que um foco sobre Felini vai aumentando. Todos se retiram em silêncio).


FELINI (senta-se numa cadeira):- Minha Mãe! Onde você está? Onde? Tenho sentido tanto sua falta! (Pausa). MÃE! É o seu filhinho, Mãezinha! Estou precisando de você! (Ouve-se um riso abafado). Eu sei que você está aí. (Outro riso, mais claro). Filhinho precisa de Mãezinha! Filhinho precisa de Mãezinha! (Uma gargalhada). É você mesmo, Mãe? Estou com medo!

VOZ:- Filhinho está com medinho? Coitadinho! Coitadinho!


(Gargalhada).


FELINI:- Não! Você, não! Desgraçada!

BRUXA (pulando sobre ele, às gargalhadas):- Sou euzinho, sou euzinho, cantando pro filhinho... Filhinho com medinho... Filhinho com medinho...

FELINI:- Criatura dos quintos dos infernos! Vai-te embora! Te esconjuro!


(A Bruxa canta e dança ao redor de Felini, imobilizando-o e amarrando-o).


BRUXA:- Medo de escuro

É um medo tão puro

Por isso te esconjuro

Menino dedo-duro

Menino dedo-duro!

FELINI:- Não, não! Dedo duro, não! Sua filha da puta!


(A Bruxa liga uma máquina de choque elétrico aos órgãos sexuais de Felini).


BRUXA:- Menino medroso,

Menino medroso,

Na noite tão fria,

Toca piano, toca,

Na delegacia!

FELINI:- Não, isso não! Eu conto! Eu falo tudo! Mas não me machuque! Eu quero minha Mãezinha! Eu quero minha Mãe! (Chora). Mãe! Por que você deixou que eles fizessem isso comigo? Por quê, Mãe?


(A iluminação destaca, pouco a pouco, a Mãe, que declama).



MÃE:- Era tão puro o meu menininho!

Meu menininho era tão puro!

De nada sabia,

Pois nada ouvia!

Ouvia somente, na noite tão fria,

A cama que rangia,

Um cão que latia...

Mas nada ouvia

Do preço da vida,

Da dor da ferida...

Ouvia uma cama ranger

E pensava, deitado no escuro,

Meu menino tão puro,

Pensava apenas ser

Um grande filho da puta!

A cama, no entanto,

Era o campo da luta,

Era a voz do meu canto,

O grito da verdade,

Voz de liberdade!

E o filhinho tão puro

Virou dedo-duro.

O menino pensava

Que a mãe só trepava

E nada ouvia

Da dor que se cala,



E nada ouvia

Do preço da vida,

Da dor da ferida,

Ferida de bala.

Aos Guerreiros da luta

Fazia-me de puta,

Pra dar ao menino,

O menino tão puro,

Um pouco da dança

Chamada esperança...

E o menino tão puro,

E o menino tão burro

Se fez dedo-duro!

FELINI:- Mãe! Mãe! Por favor, Mãe, me perdoa! Me perdoa! Ai! Ai! Eles me forçaram, Mãe! Eles me torturaram! Me enrabaram, Mãe!


(A Bruxa canta, dança e tortura Felini).


BRUXA:- Menininho gostoso!

Menininho mentiroso!

Um choque... arrepia.

Um murro... estrebucha.

Menino então fazia,

Da mente medrosa

Surgir uma bruxa!

Menininho gostoso!

Menininho mentiroso!

FELINI:- Não! Não sou mentiroso! Eu não criei essas bruxas desgraçadas! Elas... elas vieram povoar meus sonhos! Eu não sabia, Mãezinha, eu não sabia!

MÃE (cantando):- Boi, boi, boi,

Boi da cara preta!

Pega esse menino

Que tem medo de careta.

Boi, boi, boi,

Boi da cara preta!


(A figura da Mãe vai-se esmaecendo, pouco a pouco, até que fique visível somente o rosto).


MÃE:- Filhinho queridinho da Mãezinha! Mãezinha vai embora! Deixa beijinho! Deixa beijinho!

FELINI:- Não, por favor! Não vá embora, minha Mãe! Eu preciso saber... eu tenho de saber...

MÃE:- Saber? Saber o quê, filhinho? Filhinho já sabe tudo! Filhinho já sabe de lutas e cavalgadas, de dores de amores e de beijos de dores, de aventuras e de sonhos... de sonhos tão loucos!... Filhinho é famoso... Fazedor de grandes feitos em fitas de celulóide! Filhinho é tão sábio!

FELINI:- Nada sei, minha Mãe, nada sei se não sei o mistério maior de minha vida...

MÃE:- Lá vem filhinho querendo saber quem foi paizinho... Lá vem filhinho curiosinho do nominho de paizinho...

FELINI:- Não, Mãe! Dessa vez você se enganou. (Leva um choque da Bruxa). Ai! Sua maldita! Desgraçada! Xô, diabo do inferno que eu mesmo fiz!

BRUXA (dançando e cantando):- Dodói no filhinho!

Dodói no filhinho!

Filhinho mentiroso

Virou curioso!

Filhinho tão gostoso!

Ficou tão furioso!

MÃE:- Então, diz, meu filho, diz logo, que estou indo embora. Já quase forças não tenho para te ver. Logo não mais poderei te responder.

FELINI:- Há um só mistério em minha vida e esse mistério não é meu pai. Há muito desisti de pensar num pai. Sou teu filho apenas, um filho que traiu porque te amou. Mas teu filho. Só teu filho.

MÃE:- Filhinho está com mais mistérios que o mistério da dor!

FELINI:- Ouça, Mãe, e me responda. Apenas isso: meu nome! Por que Felini! Por que, Mãe?

MÃE:- Felini Brasileiro da Silva! Os nomes traçam destinos insondáveis! O teu Felini vem do sonho e do delírio em que devias te transformar... Felini Brasileiro da Silva! Da favela para o sonho! Da vida para a dor de viver! Felini, nada há de mais nesse mistério que o teu próprio delírio... Não posso mais falar... Adeus! Não sei se ainda terei forças para te perdoar...


(A Mãe desaparece).


BRUXA:- Menininho ficou sozinho!

Menininho ficou sozinho!

Mas já está crescidinho

E pode levar mais um choquinho!

FELINI:- Bruxa do inferno! Eu vou te matar, desgraçada!


(Felini consegue desamarrar-se e passa a perseguir a bruxa que, às gargalhadas, foge de um lugar para outro. Figuras estranhas surgem de todos os lados e encetam um bailado, ao som de gritos e sons estridentes, em torno de Felini que, exausto, desmaia. Tudo silencia e desaparece de repente. Quando as luzes voltam a acender, Felini está semiconsciente. Entram soldados, enfermeiras e um médico).


SOLDADO:- Está morto?

MÉDICO (examinando-o rapidamente):- Ainda vive.


(O soldado chuta a bunda de Felini).


FELINI:- Bruxa desgraçada... vai embora...

MÉDICO (para os soldados):- Levantem o cara...

FELINI (abrindo um só olho):- Ah! As bruxas tão querendo me enganar, é? Xô! Vão embora!

SOLDADO:- Está louco?

MÉDICO:- Sempre foi...

FELINI:- Louco é a mãe, bruxas malditas...

SOLDADO (dando-lhe um safanão):- Acorda, idiota... Você está preso!

FELINI (recobrando-se):- Preso?! (Livra-se dos que o seguram). É isso! Vamos! Prenda-me. É a cena final. Eu mando, vocês obedecem. Eu, Felini Brasileiro da Silva, o gênio... (Faz uma careta, solta um grunhido e ameaça pular em cima do grupo. Todos se assustam). Luz! Câmara! Ação! (Estende os braços para um dos soldados). Vamos, soldado! Cumpra o seu dever: prenda o louco. (O soldado fica alguns instantes sem saber o que fazer. O médico faz-lhe um sinal de concordância. Ele algema Felini). Algemas, não, imbecil! Não se prende um louco com algemas! Vamos, tire isso! (O soldado obedece-lhe. Felini coloca-se, ameaçadoramente, na frente do médico). Você, seu médico de bosta! Me diz: como se prende um louco?

MÉDICO (assustado):- Com... com uma camisa de força...

FELINI (imitando-o):- Com uma camisa de força... Que canastrão! Repita comigo: (fala de forma afetada) Com uma camisa de força, senhor Felini! Vamos, repete o que eu disse...


(O médico tenta repetir).


FELINI:- Vamos ter que repetir! Repetir! Re-pe-tir! Mil vezes! Mas agora é só um ensaio. Vamos, manda colocar uma camisa-de-força em mim!

MÉDICO (recuperando-se):- Façam o que ele mandou! Uma camisa-de-força... rápido!


(Os enfermeiros colocam-lhe uma camisa-de-força).


FELINI:- Muito bem, seus imbecis! Está melhorando! E agora? Onde vão colocar o louco? Me digam! Onde? (Pausa. Indecisão entre o grupo). Não sabem, não é? Pois, vejam (aponta para o alto): é mais um de meus truques! (Desce uma jaula do teto). Vamos! Tranquem o louco! Tranquem o louco!


(Colocam Felini na jaula. As luzes vão-se apagando lentamente, ficando um só foco sobre ele, que retoma a posição em que estava no início).


FELINI:- Ai! Ui! São dores horríveis! Por quê?! É a dor maldita que traz de volta a loucura! Meu pensamento... tudo misturado... vida... arte... loucura... E a luz... luz ... câmera! Ação! Ação! Tudo merda! Merda! MERDA!



FIM

 

 

ISAIAS EDSON SIDNEY

 

S.PAULO, 20/3/96



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