segunda-feira, 13 de abril de 2026

HISTÓRIA DO TEATRO OCIDENTAL: 534 A.C. NA GRÉCIA, O PRIMEIRO ATOR

 534 A. C. 

 TÉSPIS TORNA-SE PRIMEIRO ATOR AO PROTAGONIZAR UMA PEÇA DE TEATRO




Téspis de Icária, segundo fontes da Grécia Antiga e, em especial, Aristóteles, foi a primeira pessoa a aparecer em um palco como ator, desempenhando um personagem em peça teatral. Outras fontes o colocam como dramaturgo, introduzindo o conceito de protagonista e da técnica deste contracenar com o coro.

Ele era cantor de ditirambos – composição poética com estrofes irregulares que festejavam o vinho, a alegria, os prazeres da mesa, em tom entusiástico e/ou delirante. Credita-se a ele ter introduzido o estilo no qual um cantor ou ator desempenhava um único personagem em cada história, distinguindo-se os personagens com a ajuda de distintas máscaras.

Esse estilo foi chamado de tragédia e Téspis era o seu mais popular expoente. Em 23 de novembro de 534 a. C. foram criadas competições para eleger-se a melhor tragédia em Atenas. Téspis foi o ganhador da primeira competição documentada. Valendo-se de seu sucesso, percorreu várias cidades em carroça, apresentando-se com suas vestimentas e máscaras.


(máscara grega)

Foi durante uma Olimpíada que Téspis apresentou sua primeira tragédia: “[…] Um homem, um ‘desconhecido’, ‘alguém’, que se deixa arrastar pelas forças sagradas de Melpomene, alguém que é capaz de representar cinco ou seis personagens ao mesmo tempo, alguém que escreve as obras e as interpreta com um magnífico ‘sentido de imitação”.

Foi o primeiro ator e o primeiro autor ocidental conhecido. Assim como escrevia e representava, também defendia seus direitos autorais, criando a primeira altercação entre o teatro e o governo quando discutiu com Sólon (640-558 a.C), legislador ateniense, a razão de seus ataques aos deuses do Olimpo. Representava vários papéis numa mesma apresentação e, mais tarde, acusado de hipócrita por Sólon, reconheceu: “[…] Fui, em verdade, um grande ator, mas também um hipócrita. Meus deuses, meus mercadores e meus pobres não eram mais que pedaços de minha alma endurecida”.

Em suas origens, o ator grego da comédia – possivelmente posterior ao da tragédia – era alguém mais descontraído e brincalhão, portador da vivacidade e da folia que vai caracterizar o cômico em todos os tempos. Os espectadores assumiam uma embriaguez coletiva, e o espetáculo aos poucos ia se tornando uma encenação de grande participação popular.

(Sófocles)

Os precursores do teatro ocidental se sucedem. Quérilo viveu o bastante para concorrer, quase centenário, com Sófocles (495-405 a. C.). Frínico teria se tornado tão ilustre quanto Ésquilo (525-439 a. C.) se sua obra escrita tivesse sobrevivido. A Téspis é atribuído a invenção da máscara, a Frínico, a introdução de personagens femininas em suas peças. Prátinas é o terceiro nome contemporâneo de Ésqiuilo e reprovava as interferências musicais em detrimento da palavra do poeta.

O protagonista, introduzido por Téspis, permitiu o diálogo entre ator e coro. O segundo ator, introduzido por Ésquilo, o deuterogonista, propiciou a criação do conflito. O coro foi perdendo sua função principal no desenvolvimento da tragédia, crescendo, por outro lado, a importância dos atores. Sófocles deu-nos o terceiro ator, o tritagonista, o que não significava que em suas peças encontrássemos dois ou tres personagens, mas vários personagens para serem interpretados por dois ou três atores no máximo.

Esta tendência iria aumentar com seus sucessores, a ponto dos componentes reduzirem-se de 50 para 15 elementos. Sófocles secularizou o espírito e o conteúdo da tragédia, assim como dissociou em suas especificas funções: o ator, como intérprete dos textos do poeta; o músico, com atividade própria e separada; e o coro, agora mais estruturado a ponto de ganhar um diretor próprio.

Encontramos muito pouca documentação sobre a forma de representação do ator grego. Aristóteles teria falado a respeito, mas esses trechos foram perdidos. Entretanto, quanto à interpretação teatral, poderíamos dizer que a pantomima era importante, e o uso de máscaras enormes, de traços acentuados, de roupas gigantescas, sobrecarregadas de bordados, que caíam até os pés, daí seu modo estático de representar, dando-se maior destaque ao texto falado. A cor das vestes anunciava o sexo e o nível social da personagem.

A fim de evitar a desproporção física que a indumentária poderia causar em relação aos grandes teatros gregos, aumentava-se o tamanho dos corpos acolchoando-os com falsos ventres, ombros,… recobrindo tudo isso com um tecido de malha ajustada ao corpo, sobre o qual vestiam as túnicas e os mantos. A máscara e a pesada vestimenta impediram qualquer elaboração mais individualizada. Segundo uma citação tradicional, o ator grego “era uma voz e uma presença”.

Os atores trágicos nunca tomaram parte na comedia, nem os cômicos na tragédia. Apenas os homens podiam subir aos palcos atenienses, e os atores trágicos eram considerados cidadãos muito requisitados e regiamente pagos.

No século IV a.C., o teatro decaiu, enquanto o ator foi ganhando cada vez mais importância. A expressão corporal superou o jogo das palavras, e nasceram então as primeiras cenas improvisadas. Os mímicos começaram a imitar os tipos cômicos da sociedade.

Ainda no século IV a.C., organizaram-se agremiações ou corporações de atores, denominadas Artesãos de Dionísio, que alcançaram muito poder e respeito, perdidos depois quando passaram a aceitar, em suas hostes, músicos, coristas, ajudantes e comparsas, o que provocou paulatina desconsideração social, a ponto de Aristóteles chama-los de “Parasitas de Dionísio”.

Outro depoimento aristotélico diz-nos que, à época, o intérprete despertava mais interesse que a obra poética. No ano de 449 a.C. foram instituídos os concursos para atores; o processo do individualismo começava a se estabelecer. Pólus foi o mais famoso, não só por suas qualidades de intérprete – segundo o filosofo Denis Diderot, ele tinha interpretado uma cena de Electra portando as cinzas do próprio filho -, mas também por ter sido o professor de dicção do grande orador grego Demóstenes (385-322 a.C.), que ganhou notoriedade por sua arte retórica.

Fonte:

quarta-feira, 25 de março de 2026

FRIEDRICH NIETZSCHE ESCREVEU: ÉDIPO NO UNIVERSO TRÁGICO

 ÉDIPO NO UNIVERSO TRÁGICO

(Jean-Auguste Dominique Ingres - Édipo e a Esfinge)

Vivemos num mundo eminentemente racional. Tudo tem de ter sua lógica, a sua razão de ser. Entretanto, como já disse Shakespeare, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vã filosofia".

Houve um tempo, anterior à criação da "vã filosofia", em que os homens realmente partilhavam dessa visão de mundo. Mais do que isso: respeitavam esses mistérios. Trata-se do mundo trágico, que se constituiu na Grécia antiga, entre os séculos VI e V a.C., e que teve seu declínio justamente a partir do século V a.C., com a criação da filosofia socrática, a afirmação crescente do direito e a universalização de toda a racionalidade que nos atravessa até os dias de hoje.

Responsabilidade e culpa - O mundo trágico assinala um período de transição da aristocracia para a democracia, da cidade regida pelos privilégios dos laços de sangue para a cidade regida pelo direito. Para nós, é muito difícil imaginar um mundo sem leis válidas para todos os cidadãos, pois mesmo nos casos de golpes de Estado, ditaduras ou guerras, não é que as leis não existam; elas simplesmente são suspensas, anuladas ou, então elaboradas para favorecer a classe dominante/dirigente.

Entretanto, no mundo trágico, nem a noção de responsabilidade existia totalmente formada, com todo o peso que tem para nós hoje em dia. Os gregos viviam num mundo povoado de deuses e heróis, onde - e eles acreditavam nisso! - potências divinas podiam, muitas vezes, possuir a alma de um homem, enlouquecê-lo, tirá-lo de si, fazendo-o cometer os atos mais desatinados: crimes, roubos, assassinatos etc. Ora, como alguém pode ser considerado responsável pelos atos que cometeu sob a inspiração ou sob o mando de um deus? Não faz nenhum sentido.

Também nessa época, o direito já procurava instituir uma nova ordem, a do sujeito responsável, distinguindo crimes cometidos "de bom grado" dos cometidos "de mau grado", ou seja, na ignorância ou com conhecimento de causa.

Dessa forma, no universo trágico a avaliação da responsabilidade oscilava entre duas interpretações diferentes: por um lado, associava-se à noção de falta (hamártema = "erro" de espírito, polução religiosa, em que o ser humano é tomado por forças sinistras que o arrastam e enlouquecem); por outro, era engolfado pela noção legal de delito (adíkema = delito intencional, que deve ser punido, a ser distinguido de atýchema, acidente imprevisível, não passível de punição).

Assim, quando um herói trágico como Édipo fura os próprios olhos ele sem dúvida o faz ao descobrir que - no mais puro desconhecimento e realizando um oráculo do deus Apolo - havia matado o seu pai e partilhado o leito de sua mãe, como esposo, cometendo os crimes de parricídio e de incesto. Se existe hamártema (uma vez que Édipo realiza esses crimes por um "erro" de espírito, polução advinda de uma maldição ligada aos seus descendentes, destino comandado por um oráculo), não se trata, entretanto, de um adíkema. O herói é, aí, vítima de um atýchema, não cabendo, pois, interpretar o ato de cegar-se como motivado por qualquer sentimento de culpa. Ocorre, simplesmente, que esses olhos não guardavam mais qualquer utilidade diante de um mundo que se tornara pura desolação, ruína, vergonha. É o que dizem as palavras de Édipo, na peça Édipo-rei (cf. Sófocles, 1989: 88):

Foi Apolo. Foi Apolo, sim, meu amigo!

Foi Apolo o autor de meus males,

De meus males terríveis; foi ele!

Mas fui eu quem vazou os meus olhos.

Mais ninguém. Fui eu mesmo, o infeliz!

Para que serviriam meus olhos

Quando nada me resta de bom

Para ver? Para que serviriam?

Aquém e além dos deuses - No universo trágico, quem cometia hýbris era todo aquele que, através de um ato, ultrapassasse a medida humana, seja em direção à dimensão ilimitada de um deus, seja em direção à dimensão irrefletida de um animal.

Édipo, por exemplo, ao cometer parricídio e incesto ultrapassa essa medida, dado que esses crimes são prerrogativas dos deuses ou da inconsciência animal. É verdade que seus atos não tiveram caráter intencional, que foram marcados pelo puro desconhecimento: ele matara um velho ao entrar em Tebas, porque fora provocado e açoitado por ele, sem saber que era Laio, rei de Tebas e seu pai; da mesma forma, recebera a mão da rainha Jocasta como prêmio por ter decifrado o enigma da Esfinge e livrado a cidade do monstro.

Entretanto, apesar do desconhecimento, há uma hýbris que atravessa todo o seu percurso, tal qual aparece na tragédia Édipo-rei, de Sófocles: o orgulho, a prepotência, que o acompanham desde a saída de Corinto e o levam até o final da trama, a tentar descobrir o assassino do rei Laio, sem suspeitar que ele pudesse ser o assassino, sem sequer imaginar que Laio pudesse ser seu pai.

Embora oficialmente Édipo fosse filho dos reis de Corinto, ele sabia da possibilidade de ser apenas filho adotivo, pois, certa vez, um cortesão embriagado jogara-lhe essa ofensa no rosto. Também havia consultado o Oráculo de Delfos, santuário do deus Apolo, e recebido a previsão de que mataria seu pai e partilharia o leito de sua mãe. Foi então que se desviou de Corinto e tomou o caminho de Tebas, imaginando que, assim, escaparia da previsão.

Opera, pois, aí, uma prepotência que desconsidera a força do oráculo, que se imagina acima das injunções do destino humano, imune à circunstâncias capazes de produzir desgraça e infortúnio, como se não habitasse este mundo, feito de surpresas e acasos inesperados, como se a vida não fosse meramente humana. No final de tudo, ao se perceber completamente cego à trama que determinara sua vida, Édipo cega-se de fato, furando os olhos: na escuridão, deverá aprender a "ver" o mundo invisível das forças que ele desconsiderara até então, aquele que opera sob o mundo das formas visíveis e que os gregos chamavam de moîra (= destino).




(NIETZSCHE, Friedrich. "O eterno retorno", § 1066.

In: Nietzsche - Obras incompletas. Trad. , Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo, Abril, 1978, p. 397)

terça-feira, 3 de março de 2026

TONY KUSHNER ESCREVEU: O GÊNIO DO NEVOEIRO - EUGENE O'NEIL


EUGENE O' NEIL


O GÊNIO DO NEVOEIRO

Tony Kushner

Tradução: Rubens Figueiredo



Quando Eugene O’Neill terminou Longa Jornada Noite Adentro, em 1941, decidiu que a peça não poderia ser lida nem montada senão vinte e cinco anos após a sua morte. Indagado sobre as razões dessa exigência, O’Neill respondeu apenas que uma das personagens ainda vivia. Raros amigos tiveram o privilégio de ler os originais, antes que eles fossem enviados para os cofres da Randon House, a editora que publicava as obras de O’Neill, e para a Biblioteca da Universidade de Yale. Mas a vontade do autor não foi cumprida.

Em 1956, três anos depois de sua morte, a viúva de O’Neill, Carlotta Monterey, liberou a publicação e a montagem da peça. Soube-se então por que o dramaturgo não desejava que a Longa Jornada Noite Adentro viesse a público. Com essa autobiografia dramática, como tantos a chamariam, ele ressuscitava seus mortos o pai, a mãe, o irmão —, traçando um comovente retrato da família O’Neill, no qual o autor se identificava com o personagem Edmund. Em 1941, ao concluir a peça, apenas Edmund-Eugene estava vivo.

Apesar de seu caráter autobiográfico, Longa Jornada Noite Adentro é muito mais do que um retrato do artista quando jovem. Ainda que O’Neill tenha reproduzido na obra parte de sua vida, também é certo que determinados aspectos da realidade foram omitidos e outros simplesmente inventados.

A aventura desse homem singular chamado Eugene O’Neill, tuberculoso na juventude, dominado pelo medo de se tornar um alcoólatra como o irmão, filho de uma mulher que se abandonou ao vício das drogas e de um ator famoso que aviltou seu talento em peças de sucesso comercial, tem paralelos muito estreitos com a realidade de Longa Jornada Noite Adentro. Mas esse destino particular, ao ser recriado por meio do teatro, ganhou dimensão maior — graças, precisamente, ao caráter inconfundível das experiências pessoais do autor —, transfigurando-se e revestindo-se de um sentido comum e universal.

UM LAR PROVISÓRIO

A Barret House era uma pensão familiar situada na Broadway, em Nova York, onde se hospedavam artistas de teatro, como James O’Neill, que, ao regressar de suas excursões pelo país, fazia daquela casa o seu lar. Ali, no quarto 236 do terceiro andar, nasceu Eugene Gladstone O’Neill, na tarde de 16 de outubro de 1888.

James O’Neill, católico de origem irlandesa, foi um grande ator que se perdeu. Poderia ter sido maior que o shakespeariano Edwin Booth (1833-1893), pois, na opinião deste, que o vira como protagonista em Otelo, James interpretava melhor que ele o famoso personagem. Mas James não soube aproveitar seu talento e se tornou apenas um bom ator, dedicando a maior parte de sua vida a representar Edmund Dantes em O Conde de Monte Cristo, percorrendo a América de costa a costa e ganhando uma fortuna em cada temporada.

Alguns biógrafos relacionam essa mudança de rumo com o seu casamento com Ella Quinlan, filha de abastado comerciante, uma jovem frágil, delicada e muito religiosa. Para casar-se com o ator, Ella foi obrigada a romper com seu meio social e sua família. James tinha adoração pela mulher e, para compensá-la do que havia perdido, construiu casas requintadas que ela nunca pôde habitar.

Em 1878, nasceu James O’Neill Jr., o primeiro filho do casal. Foi internado muito cedo no Colégio Notre-Dame, uma aristocrática escola católica. Quando Eugene nasceu James tinha dez anos e só viu o irmão três meses depois, durante uma visita em que os pais levaram o bebê ao internato.

Entre James Jr. e Eugene, Ella tivera outro filho, Edmund, que morrera ainda bebê, na casa dos avós, enquanto a mãe acompanhava o marido numa temporada pelo interior. Ella jamais se refez do sentimento de culpa por ter abandonado Edmund. Além do mais, era uma mulher sensível e sofria intensamente com a falta de raízes que ligassem a família O’Neill a uma casa, a uma vizinhança, a uma paróquia.

Desde o parto de Eugene, Ella descobrira que a morfina, que fora receitada pelo médico para lhe aliviar as dores, também diminuía seu nervosismo e sua insatisfação permanente. Procurou esconder do marido esse vício e quando James descobriu já era muito tarde.

Enviado para um internato católico em Nova York. o Mount Saint-Vincent, em 1895, Eugene passou a ver seus pais muito raramente. Era um menino triste e quieto, mergulhado numa solidão que se acentuava com a falta de calor humano das freiras e com o sentimento de rejeição em relação à família.

Em 1900, Eugene saiu do Saint-Vincent e foi para o De La Salle Institute, em Nova York. No segundo ano de sua permanência no La Salle, a mãe resolveu interná-lo novamente. O menino esforçou-se nos estudos, passou de ano com excelente média, mas a mãe sentia que era insuportável viver com o filho, cujos olhos pareciam reprovar constantemente seus atos. Ela acabou convencendo o marido, e Eugene voltou a ser internado, em 1902, na Academia Betts, em Stanford, um colégio laico.

Nessa fase ocorre sua revolta contra a religião católica e Eugene estreita sua ligação com o irmão James, que passa a ser uma espécie de tutor, introduzindo o adolescente no “outro lado” do mundo teatral, do qual os pais tinham procurado preservá-lo durante a infância.

Ao terminar o curso secundário, no ano de 1906, Eugene entrou na aristocrática Universidade de Princeton, no leste. Sentiu imediatamente que estava num ambiente tradicional, esnobe e, sobretudo, pouco estimulante intelectualmente. Nove meses mais tarde, era expulso, por atirar uma garrafa contra a janela da casa onde vivia Woodrow Wilson (1856-1924), presidente da Universidade e, durante a Primeira Guerra Mundial, presidente dos Estados Unidos.

Em Nova York, Eugene encontrou um clima de tensão muito grande na família, pois James, também expulso de Notre-Dame, no ano anterior, não conseguia se definir profissionalmente, entregando-se a bebedeiras e farras sem fim. Tentara a carreira de repórter e depois resolveu ser ator.

Eugene, por sua vez, foi trabalhar como escriturário numa empresa de promoções.

O emprego era tedioso, mas Eugene passava a maior parte do tempo numa livraria da 6.ª Avenida, cujo proprietário, Benjamin Tucker, era um dos mais conhecidos membros do movimento anarco-individualista americano. Eugene absorvia suas idéias, seus livros, suas palavras de ordem; mas a contribuição mais importante de Tucker foi revelar a O’Neill a obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Assim Falava Zaratustra, a grande obra profética de Nietzsche, acabou por se tornar o “catecismo” de O’Neill, a resposta que ele desejava contrapor ao primeiro dos seus catecismos: o católico. Naquela fase de sua vida anárquica, o pensamento de Nietzsche não era apenas uma refutação ao nível religioso, mas a confirmação de um estado de espírito, uma disposição em relacão à vida que era a sua. “Deves trazer o caos dentro de ti para fazer nascer uma estrela bailarina.”

Um dia, em 1909, Eugene comunicou à família que ia se casar. Na verdade, a moça, Kathleen Jenkins, já estava grávida. O filho nasceu pouco tempo depois do breve e tumultuoso casamento, quando O’Neill não se encontrava mais nos Estados Unidos. Havia ido para Honduras, em busca de “novas oportunidades” ou, segundo a opinião unânime de seus biógrafos, para fugir dos problemas. O casamento foi um erro e o casal divorciou-se oficialmente em 1912.

Vítima da febre amarela, Eugene teve que voltar para Nova York. O pai tentou então fazer dele uma espécie de assistente de diretor, em sua companhia de teatro; mas em três meses de excursão, Eugene não demonstrou o menor interesse pelo trabalho. Lia muito, principalmente relatos de viagem de Jack London (1876-1916), Josef Conrad (1857-1924) e Rudyard Kipling (1865-1936). Um dia resolveu partir para Buenos Aires, no navio Charles Racine, que saiu do porto de Nova York na primavera de 1910.

Em Buenos Aires, trabalhou algum tempo num frigorífico e numa fábrica de máquinas de costura. Durante os períodos de desemprego ia aos bares do cais, freqüentados por marinheiros que contavam suas aventuras, falavam de amores distantes, bebiam e jogavam muito. Em 1911 voltou para Nova York, engajado como marinheiro no Ikalis.

Ao chegar, não procurou imediatamente a família nem demonstrou curiosidade em conhecer o filho, Eugene Gladstone O’Neill Jr. Sua primeira providência foi alugar um quarto numa pensão que ficava em cima do Jimmy-the-Priest, conhecido bar de marinheiros. O bar e a pensão eram freqüentados por estivadores, prostitutas, contrabandistas, desempregados e anarquistas. De vez em quando Eugene aceitava um emprego em algum barco-correio ou navio de longo curso. O mar havia se tornado para O’Neill um símbolo de liberdade e conhecimento.

Mas afinal, cansado e sem dinheiro, foi ao encontro da família, em Nova Orleans. O pai achou que estava na hora de arranjar um emprego para o filho e convidou-o para fazer uma ponta em O Conde de Monte Cristo. Não havia alternativa e Eugene seguiu a companhia até o extremo oeste dos Estados Unidos. Na volta, ficaram algum tempo na casa de New London, em Connecticut.

Foi ali, no mês de agosto, que O’Neill começou a trabalhar como repórter no Telegraph. O proprietário do jornal, Frederick Latimer, interessou-se pelos escritos de Eugene e percebeu que ele não tinha apenas talento literário, mas gênio. Naquela época Eugene escrevia muito, apesar do precário estado de saúde que acabou por levá-lo para um sanatório de tuberculosos. No sanatório, durante o inverno e a primavera de 1912-13, O’Neill sentiu que escrever para teatro era a melhor forma de expressar o que sentia em relação à vida.

A decisão de se tornar um dramaturgo não surgiu subitamente. Na verdade, O’Neill não sabia de teatro apenas o que o velho James lhe ensinara. Lera toda a obra de William Shakespeare (1564-1616), assistira a numerosas montagens dos autores gregos e elisabetanos, conhecia alguma coisa do teatro europeu do século XIX. Desde 1911, seu interesse crescera muitíssimo e ele se convertera num espectador assíduo dos teatros de Nova York. Era um grande admirador de Ibsen (1828-1906) e, sobretudo, de Strindberg (1849-1912).

Em 1914, quando entrou para a Oficina Dramática do professor George Peirce Baker, em Harvard, O’Neill já havia escrito várias peças de teatro, como Uma Esposa para Sempre (A Wife for Life) e A teia de Aranha (The Web). Essas e outras obras, algumas das quais incluídas no volume Sede e Outras Peças em Um Ato (Thirst and Other One-Act-Plays), seriam renegadas mais tarde pelo autor, que as considerava de má qualidade. Dessa fase, apenas Sede, Rumo a Este para Cardiff (Bound East for Cardiff) e Névoa (Fog) chegaram a ser montadas.

O’Neill permaneceu no curso do professor Baker apenas oito meses. Em junho de 1915 abandonou Harvard. Três meses depois estava morando em Greenwich Village, Nova York, onde encontrou um bar irlandês, o Hell Hole, sucedâneo do velho JimmythePriest. O Hell Hole também era freqüentado por marginais, só que de uma espécie diferente a dos intelectuais outsiders: jornalistas, atores, anarquistas, políticos de esquerda.

No Village, O’Neill conheceu Terry Carlin, cuja prosa brilhante conquistara algumas amizades, como a de Jack London e Theodore Dreiser (1871-1945), o jornalista John Reed (1887-1920) e sua mulher Louise Bryant. Durante o verão de 1916, O’Neill, Carlin, John e Louise foram para Provincetown, uma cidade praiana de Cape Cod, Massachusetts, que se tornou decisiva na vida de O’Neill.

Desde o ano anterior, um grupo de teatro do Village, os Players, fazia ali suas montagens de verão. O’Neill e seus companheiros ligaram-se ao grupo, que ficou logo interessado na encenação de Rumo a Leste para Cardiff. Duas semanas mais tarde, a peça era montada com sucesso. A experiência de Provincetown animou o grupo a se estabelecer, de maneira regular, num teatro em Nova York, o Playwrights Theatre, cujo nome foi sugerido por O’Neill. O objetivo do grupo era a montagem de peças novas de autores americanos.

Entre 1917 e 1918, O’Neill escreveu várias peças em um ato, das quais as mais significativas foram reunidas depois no volume S. S. Glencairn: A Longa Viagem de Volta (The Long Voyage Home), Na Zona (In the Zone), A Lua das Caraibas (The Moon of the Caribees). E foi no outono de 1917 que Eugene começou a se projetar como dramaturgo. Algumas de suas peças foram publicadas a partir desse ano, na revista Smart Set. Os Washington Square Players interessaram-se por Na Zona e montaram-na em outubro daquele mesmo ano, enquanto A Longa Viagem de Volta era encenada pelos comediantes de Provincetown.

Em 1918, O’Neill casou-se com Agnes Boulton, jovem escritora que ele conhecera no Hell Hole, em fins de 1917. Mas o casamento fracassou. Eugene precisava de uma esposa que também fosse mãe e secretária, e Agnes estava muito empenhada em seu próprio trabalho. Haviam feito um acordo de não ter filhos, mas Agnes acabou dando à luz dois: Shane, que nasceu em 1919, e Oona, em 1925. Separaram-se em 1926.

Apesar de suas grandes desavenças com Agnes, O’Neill criou nesse período a maior parte de suas obras-primas, tendo mesmo dedicado a ela sua primeira peça em três atos Além do Horizonte (Beyond the Horizon). A peça foi apresentada no Morosco Theatre, na Broadway, em 1920, e lhe valeu o Prêmio Pulitzer, em junho desse mesmo ano.

Eugene O’Neill estava definitivamente lançado. Além do Horizonte fazia sucesso na Broadway; Chris Christopherson era aplaudida em Atlantic City; Exorcismo (Exorcism), uma peça experimental, estreava no Village; O’Neill escrevia Ouro (Gold) e se preparava para retomar o tema de Chris Christopherson e criar Anna Christie, a história da regeneração de uma prostituta pelo amor. Anna Christie estreou em 1921 e O’Neill recebeu seu segundo prêmio Pulitzer.

Grande parte dos dramas escritos por O’Neill abordava a condição de alguns homens que ele conhecia bem, especialmente aqueles ligados ao mar. O desenvolvimento dramático de suas peças baseava-se no naturalismo cênico, mas a grande novidade de sua obra não estava na forma e sim nos temas, na rudeza de seus personagens, na devassa que ele fazia de seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Desde o início, O’Neill permeou suas obras de uma ironia trágica. Quase sempre, os homens alimentavam-se de sonhos que não conseguiam realizar, pois os caminhos escolhidos conduziam ao fracasso.

Se, por um lado, os personagens de O’Neill não podem viver sem ilusões, também é certo que sofrem com a impressão de que jamais alcançarão seus objetivos. As ilusões constituem a perdição e a redenção dos personagens, pois O’Neill afirma que sonhar é uma das condições para viver. Devemos alimentar nossos sonhos, mesmo sabendo que será difícil concretizá-los. Para O’Neill, “o único sucesso está no fracasso” e qualquer homem que se surpreenda um dia pensando não haver mais o que perseguir está acabado.

O Imperador Jones (The Emperor Jones), escrita em 1920 e levada à cena no mesmo ano pelos Provincetown Players, tinha pouca relação com as outras peças de O’Neill. Na verdade, O Imperador Jones foi um marco, não só na história de O’Neill como na do próprio teatro americano. A peça abandona os moldes naturalistas, para introduzir o expressionismo na obra de O’Neill e no teatro americano. O protagonista é um negro, Brutus Jones, carregador de malas numa estação ferroviária, que comete um assassinato e foge de navio para uma ilha das Índias Ocidentais, onde acaba se tornando imperador de uma tribo. Jones explora o povo, faz fortuna, até que a tribo se revolta e ele se vê obrigado a fugir, refugiando-se na floresta, onde finalmente é morto.

Em 1921, O’Neill parecia interessado unicamente no seu trabalho. O Primeiro Homem (The First Man), A Fonte (The Fountain) e O Macaco Peludo (The Hairy Ape) foram escritas nesse ano. O Macaco Peludo era a mais brilhante e ofuscou as duas primeiras. A Fonte, na qual O’Neill dramatiza o idealismo de Ponce de Léon ao buscar a fonte da juventude, só chegou à cena em 1925. O Primeiro Homem estreou em março de 1921 e foi uma das produções menos felizes do autor. Durante os ensaios, em fevereiro, O’Neill recebeu um telegrama de James, que se encontrava na Califórnia com a mãe, comunicando que ela estava muito doente. Poucos dias depois ela morreria.

No dia anterior à morte de Ella, O Macaco Peludo tinha estreado no Playwrights Theatre, com um sucesso fantástico. Um mês depois, iniciava sua carreira na Broadway. O papel de Milkdred era interpretado então por uma bela atriz, Carlotta Monterey, que substituíra Mary Blair. O primeiro contato de Carlotta com O’Neill nada teve de excepcional e ele mal se deu conta de sua presença. Quando voltaram a se ver, cinco anos mais tarde, o reencontro foi decisivo na vida de ambos.

Em 1923, O’Neill escreveu Acorrentados (Welded), na qual abordou o tema do casamento, analisando um casal em sua relação de amor e ódio. Nesse mesmo ano escreveu outra peça, Todos os Filhos de Deus Têm Asas (All God ‘s Children Got Wings), que tratava de um tema até então inédito nos palcos americanos: o problema conjugal entre uma branca e um negro. Em novembro desse ano, O’Neill perdeu o irmão James, que passara vários meses numa clínica tentando se recuperar do alcoolismo.

Desejo sob os Olmos (Desire Under the Elms) foi o grande êxito de 1924. Nessa obra evidenciava-se nitidamente a influência da tragédia grega, mais precisamente de Hipólito e Medéia, de Eurípides (484-406 a.C.). A madrasta se apaixona pelo enteado, trai o marido e engravida, acabando por matar o filho para provar ao esposo o seu amor.

A peça criou problemas com a censura e chegou a ser proibida em algumas cidades, como Boston e Los Angeles. Em janeiro de 1925, O’Neill, cansado e preocupado com o vício de beber, temeroso de ter o mesmo fim do irmão, resolveu submeter-se à psicanálise. Por sugestão do psicanalista comprou uma casa nas Bermudas e se mudou com a família para lá, onde trabalhou em duas novas peças O Grande Deus Brown (The Great God Brown) e Marco Milhões (Marco Millions), esta última iniciada em 1923.

No fim de 1925, o Greenwich Village Theatre, do qual O’Neill fazia parte como sócio, encenou A Fonte, e em janeiro de 1926, O Grande Deus Brown. O’Neill estava empenhado também na cara produção de Marco Milhões, na qual um produtor da Broadway, David Belasco, parecia interessado. Mas depois de um ano de indecisões, Belasco desistiu e Marco Milhões teve que esperar mais dois anos para ser encenada, no Guild Theatre.

Tanto O Grande Deus Brown como Marco Milhões, apesar de sua diferente ambientação (a primeira se passava na época contemporânea, nos Estados Unidos, e a segunda tratava da viagem de Marco Polo à China no século XIII), eram uma crítica ao mito do sucesso e do dinheiro.

Ainda em 1926, O’Neill escreveu Lázaro Riu (Lazarus Laughed), na qual dramatizava a vida de Lázaro, após a sua ressurreição por Cristo. O’Neill procurava situar um novo idealismo religioso, mesclado de elementos cristãos, nietzscheanos e orientais. No verão desse mesmo ano, O’Neill e a família foram para o Maine, nos Estados Unidos. Perto da casa dos O’Neill morava uma amiga do autor, Elizabeth

Marbury, que na época estava hospedando Carlotta Monterey. O reencontro de O’Neill e Carlotta foi decisivo. Apaixonaram-se, voltaram a se encontrar em Nova York e, no ano seguinte, Eugene abandonou Agnes. O divórcio seria muito mais difícil de conseguir do que O’Neill imaginava. Agnes não chegava a um acordo sobre a pensão e desejava sempre mais do que O’Neill estava disposto a conceder.

Em janeiro de 1928 estreou Estranho Interlúdio (Strange Interlude), no John Golden Theatre. A peça, de nove atos, não era nem uma tragédia, nem um drama realista, nem um drama simbólico, mas uma mistura de todas essas formas num drama sobre uma mulher, Nina Leeds, em toda uma gama de papéis: mãe, esposa, amante, filha. Estranho Interlúdio foi a peça de O’Neill que alcançou maior êxito comercial: rendeu-lhe duzentos mil dólares. Ficou anos em cartaz e graças a ela O’Neill recebeu mais um prêmio Pulitzer.

Eugene e Carlotta resolveram então fazer uma viagem à Europa e embarcaram, incógnitos, em fevereiro de 1928. Foi uma longa viagem, que se estendeu até o Oriente. O’Neill não conseguia trabalhar: bebia demais para aliviar a tensão provocada pelas exigências de Agnes sobre o divórcio. A última bebedeira, em Xangai, culminou com seu internamento num hospital. Em julho de 1929, Agnes finalmente concedeu-lhe o divórcio. O’Neill e Carlotta casaram-se em Paris.

Quando terminou de escrever Electra e os Fantasmas (Mourning Becomes Electra), O’Neill dedicou-a a Carlotta. Era mais uma obra-prima. O’Neill lançara-se ao projeto ambicioso e feliz de basear sua peça num mito da Antiguidade clássica. Foi uma prova difícil, mas ele arrebatou mais elogios da crítica por essa peça do que em qualquer das anteriores. Electra e os Fantasmas passou à história como a maior tragédia americana.

O’Neill e Carlotta retornaram aos Estados Unidos em maio de 1931. Em outubro, Electra foi levada à cena e, para não fugir à regra, o autor não compareceu à estréia. Estava em sua casa, recém-adquirida, a Genotta, em Sea Island, na Geórgia, e começava a escrever Dias sem Fim (Days Without End). A peça abordava a aridez espiritual da época e só ficou pronta em 1933. No ano anterior, O’Neill concluiu A Juventude não É Tudo (Ah, Wilderness!), uma comédia. Em 1934, Dias sem Fim foi encenada pelo Guild Theatre — um grande fracasso. O’Neill resolveu afastar-se temporariamente das lides teatrais para se dedicar a um ciclo de peças que trataria da ascensão e queda de uma família americana. Trabalhou no projeto de 1935 a 1939, mas, insatisfeito com os resultados, rasgou a maior parte dos manuscritos. Sobraram apenas duas peças: Um Toque de Poeta (A Touch of Poet) e A mais Sólida Mansão (More Stately Mansion).

Depois de dois anos de silêncio foi surpreendido, em 1936, com a concessão do prêmio Nobel de Literatura. Mudou-se da Geórgia para a Califórnia, onde, em sua Tao House, uma imponente mansão, escrevia e recebia poucos amigos. Viveu na Tao House por mais de seis anos, sua maior permanência numa casa até então, e só a abandonou por motivos de saúde, em 1944.

Foi na Tao House que O’Neill voltou a ver os filhos, Shane, Oona e Eugene Jr. Quando Oona se casou com Charles Chaplin, em 1943, O’Neill a deserdou e nunca mais quis vê-la. Shane tornou-se um segundo James O’Neill, e Eugene Jr. parecia, em seu cargo de professor assistente em Yale, o único de seus filhos a lhe trazer satisfações.

Desde seu retiro voluntário, Eugene O’Neill começou a sofrer os primeiros sintomas da doença que acabaria por impedi-lo de escrever, pois atacava o sistema motor. A partir de 1939, com a guerra, a mudança para a Califórnia e a doença, O’Neill começou a se voltar para o seu passado. Naquele mesmo ano escreveu O Geleiro Chegou (The Iceman Cometh). Havia na peça um bar chamado Harry Hope, uma mistura do Hell Hole e do Jimmy-the-Priest. Foi nessa volta ao passado, revendo seus fantasmas, que escreveu Longa Jornada Noite Adentro (Long Day‘s Journey into Night, 1919-41), a última e a mais dolorosa das suas peças de caráter autobiográfico, e Uma Lua para o Bastardo (A Moon for the Misbegotten), onde dramatizava a vida de James, seu irmão.

Os últimos anos da vida de O’Neill foram extremamente difíceis e solitários. Sua ligação com o mundo exterior era Carlotta. Os médicos não conseguiam deter o curso da doença. Em 1951, O’Neill mudou-se para um hotel, em Boston, o Shelton, próximo ao hospital onde trabalhava a equipe médica que o assistia. Em novembro de 1953 seu estado se agravou. No dia 24 deixou de comer; na madrugada do dia 27, morreu. Nesses dias de agonia, num momento de lucidez, balbuciou: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!”

UMA ÁRDUA JORNADA

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

A tragédia de Longa Jornada Noite Adentro é motivada pelo drama da família Tyrone, cujos elementos se baseiam na biografia da família O’Neill. O pai, James Tyrone (como James O’Neill), é filho de pobres imigrantes irlandeses. Da mesma forma que James, Tyrone investiu sua carreira numa obra de sucesso fácil, sabendo que poderia ter sido um grande ator. Há uma característica no personagem, entretanto, que não corresponde ao modelo real: o materialismo exacerbado.

Edmund corresponde a Eugene O’Neill. Ao longo da peça o autor alude à sua vida de vagabundo na América do Sul, à febre amarela contraída nos trópicos, às noites na taverna Jimmy-the-Priest, à infância nefasta de James, o irmão mais velho. Mas o autor omite que em 1912, ano dos acontecimentos de Longa Jornada Noite Adentro, Edmund já havia se casado, tido um filho e se divorciado. Curiosamente, O’Neill apropriou-se do nome do irmão falecido, Edmund, enquanto que, no decorrer da peça, a mãe se refere ao filho morto como Eugene.

James é inteiramente James O’Neill, um bêbado irrecuperável, inútil e perdulário, sem qualquer esperança de redenção. Traz em si a marca de Caim — o filho e irmão maldito. É rejeitado pela mãe e pelo pai, acusado de corromper Edmund, responsável (segundo a mãe) pela morte do pequeno Eugene, pois tinha ciúme dele. Aos sete anos, quando contraiu sarampo, sabia que devia ficar afastado do bebê mas entrou no quarto do irmão, deliberadamente — e o contaminou, levando-o à morte.

Mary Tyrone, a mãe, corresponde a Ella, numa imagem de pureza e inocência, a projetar no destino os motivos de sua falência. Mary diz: “Nenhum de nós pode remediar as coisas que a vida nos faz! Estão feitas antes mesmo que a gente se aperceba... “ Ela aceita a condenação à impotência, como se fosse uma sina, e tenta sobreviver dentro do sonho provocado pela droga. Esta, por instantes, preserva-a da dor de viver uma vida que não teve nenhuma complacência com sua fragilidade.

A Longa Jornada Noite Adentro, como especifica O’Neill, aconteceu num dia de agosto de 1912, quando a família estava reunida em sua casa de veraneio. Edmund apresentava sintomas de tuberculose e trabalhava no jornal daquela pequena comunidade à beira-mar. O pai estava muito preocupado mas bastante esperançoso, pois Edmund começara a escrever.

No cenário em que se ambienta a peça, o tapete é surrado, mas há muitos livros em duas estantes distintas. A de Tyrone, com livros históricos, obras de Shakespeare, Dumas e Victor Hugo; a de Edmund, com obras de Zola, Ibsen, Strindberg e outros autores, que o velho James O’Neill — como James Tyrone — considerava decadentes.

Nesse cenário, inundado de sol no primeiro e segundo atos, obscurecido pelo nevoeiro às 18h30 do mesmo dia, no terceiro ato, e rodeado pela noite no quarto ato, é que os personagens se atormentam e se descobrem.

Longa Jornada Noite Adentro é uma tragédia porque os personagens são em parte responsáveis por sua própria destruição, embora também sejam vítimas de algo que não conseguem controlar e que se pode chamar de destino. Não se trata de uma peça de enredo mas de ação psicológica, pois o que realmente aconteceu aos Tyrones está no passado; esse passado é revisitado, trazido à cena nos sucessivos embates entre os personagens, justificando a ação presente.

O tempo do drama vai das 8h30 da manhã até a meia-noite, mas o tempo psicológico é muito maior, porque esse dia corresponde a uma vida inteira.

A ação começa numa manhã ensolarada, com Mary Tyrone entrando em cena, “sorrindo afetuosamente”, e termina quando ela, à meia-noite, envolta pelo sonho provisório da morfina, remete ao ponto onde tudo começou. Nesse momento, Mary sente falta de alguma coisa que se perdeu e durante alguns minutos procura descobrir como e quando isso teria ocorrido. Voltando ao passado, ela se reencontra no convento, experimentando uma vocação religiosa que não foi levada adiante. Logo a seguir, numa primavera, ela conheceria James Tyrone, apaixonar-se-ia por ele e, durante algum tempo, seria muito feliz.

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

Entre a imagem de Mary sorrindo afetuosamente e a cena final, todos os personagens percorreram um trajeto idêntico dentro de sua própria noite. Para cada um houve momentos de confissão, de revelação, de esclarecimento, através dos vários conflitos entre eles. Um dos conflitos mais importantes se dá entre Edmund e seu irmão James. Pouco antes, James Tyrone e Edmund haviam tido seu confronto definitivo, quando o velho revelara ao filho mais moço as razões que o levaram a prostituir-se profissionalmente. O confronto termina com um momento de compreensão entre o pai e o filho.

O conflito com James, que aparece camuflado desde o início, revela-se afinal mais violento e profundo. James demonstra todo seu rancor por Edmund ter sido sempre o “queridinho”, porque Edmund está no caminho de se encontrar e ele se sente perdido. James tenta destruir as ilusões do irmão, como deliberadamente procurara destruí-lo no passado, quando o introduziu em seu estilo de vida decadente. James não tem ilusões, nem sonhos, nem vontade, nem fé. É o mais indefeso, porque ainda lhe restam alguma lucidez e consciência sobre seu próprio estado. Sabe que é irrecuperável, como o próprio James O’Neill, que morreu aos 45 anos, vitima do álcool e de si mesmo.

A jornada de Edmund é mais positiva. No itinerário do sofrimento, ele chega à luz, erguendo o véu das ilusões. Se por um lado isso lhe causa imensa dor, por outro o projeta numa dimensão na qual ele consegue superar seu desespero, iluminando-se, redimindo-se.

(Cena do filme dirigido por Sidney Lumet)

Em Lázaro Riu, O’Neill tem uma frase que poderia resumir a condição dos personagens de Longa Jornada Noite Adentro: “A vida é para cada homem uma cela solitária cujas paredes são espelhos”. Assim o foi para os quatro Tyrones na viagem de um longo dia dentro da noite, quando conseguiram levar até o fim a descoberta insuportável de sua fragilidade.


domingo, 23 de novembro de 2025

PEDRO CARDOSO ESCREVEU: A COMÉDIA É CRUELDADE!

A COMÉDIA É CRUELDADE, 

DISSE CERTA FEITA MEU MESTRE AMIR HADDAD


Encontrei o texto abaixo publicado no "Instagram", acompanhando um vídeo com o depoimento do grande (e às vezes polêmico) ator Pedro Cardoso. Diz muito sobre o que é a comédia, um tema complexo, que tem sido objeto de estudo de muitos e muitos autores que se dedicam a entender por que rimos da desgraça alheia, numa comédia. Não pedi autorização a ele para publicar o texto e espero que, se tomar conhecimento do meu blog, não fique bravo comigo. O link para o vídeo está no final do post:


Meu amigo e mestre, Amir Haddad, comentando meu trabalho numa comédia, disse-me, certa feita: “Pedro, comédia é crueldade! Seja impiedoso!” Eu era muito jovem, tinha nem 20 anos, estava no teatro profissional fazia nem 2 anos. Eu não entendi, naquele momento, o que meu mestre estava me dizendo. A lição, no entanto, repetidas em muitas outras ocasiões, permaneceu inesquecível durante o todo o tempo entre quando me foi ensinada e o dia de ontem. Longe de mim a pretensão de haver agora compreendido toda a imensidão do sentido da pedagógica frase do meu mestre - “comédia é crueldade”, mas acredito ter desvendado um fração da sua verdade. A comédia revela a maldade que está em toda pessoa, mas proibida de se exibir em publico. A comédia nos faz rir da nossa própria maldade, que vai mal guardada pela nossa educação. A crueldade, que meu mestre me pedia que deixasse agir sobre mim quando eu estava em cena, não é crueldade para fazer mal aos outros. É, pelo oposto: crueldade para ser impiedoso com a mentira do bom comportamento, que a vida em sociedade nos exige; é crueldade para revelar a maldade que vai em nós. A comédia profissional, acontecida no templo sagrado do teatro, é um modo seguro de vivenciarmos nossa maldade sem que ela faça verdadeiro mal a ninguém. Rir numa comédia teatral é como dar socos num saco de areia: agressão que não machuca ninguém.

Faz mais de 40 anos que Amir Haddad se despencou de Santa Teresa no meio da madrugada para me ensinar, quando eu era uma criança ainda chegando no teatro, uma das lições mais essenciais daquela que viria a ser a minha vida profissional de comediante. 40 anos tenho levado aprendendo, aos poucos e intensamente, o significado e a utilidade da comédia para a humanidade. Que sorte a minha ter encontrado nessa vida Amir Haddad! É muito provável que outros aprimoramentos do sentido da aula sobre a crueldade da comédia venham a me surgir nos tempos vindouros. Amir tem esse modo de pensar naturalmente transcendente; ontologia que emerge da observação da profissão de ator; teoria conhecida pela prática mais do que por alguma abstração conceitual; saber de quem exerce a profissão; filosofia para o dia-a-dia.








sexta-feira, 24 de outubro de 2025

ANA LÚCIA SANTANA ESCREVEU: TEATRO DE FANTOCHES

TEATRO DE FANTOCHES

O teatro de fantoches, de bonecos ou de marionetes é a expressão teatral que caracteriza as encenações realizadas, respectivamente, com fantoches, marionetes ou bonecos. É ainda mais autêntico aquele no qual seus elementos – palco, cenários, cortinas, entre outros – são estritamente criados para determinada representação.

Teatro de Fantoches. Foto: Africa Studio / Shutterstock.com

Teatro de Fantoches. Foto: Africa Studio / Shutterstock.com

O fantoche remonta aos tempos ancestrais e tem executado um papel significativo na história das civilizações. Ele está especialmente ligado aos primitivos cultos animistas, os quais consideram que tudo no Universo é portador de alma e, por extensão, de sentimentos, desejos e até mesmo de inteligência. Assim, determinados objetos eram considerados sagrados, entre eles as máscaras e os fantoches.

Este instrumento teatral conferia aos seres que os utilizavam poderes mágicos, caracterizando-os como personas intermediárias entre os povos primitivos e seus deuses. As pessoas conferiam tal sacralidade ao fantoche que ele realmente parecia sustentá-las espiritualmente.

Ao se tornar portador do fantoche, o personagem adquiria poderes que o convertia em um profeta, um ser sagrado, um exorcista. Portanto, somente um iniciado nos conhecimentos sacros poderia usar suas mãos para dar vida ao fantoche, em uma cerimônia especialmente preparada para essa encenação.

Na era clássica os fantoches estavam dispostos principalmente dentro dos templos; eram bonecos de grande porte conduzidos igualmente durante as procissões de iniciação. Eles se desenvolvem particularmente a partir do século VII, com a adoção de estátuas semelhantes ao Homem. Estes fantoches que imitam as feições humanas são então escolhidos cada vez mais para estes eventos religiosos, assumindo um estilo que ainda hoje marca as representações do teatro de fantoches.

Como esta modalidade lembrava demais os antigos ritos animistas, a Igreja começou a proibir as encenações dentro dos templos. Esta atitude deu origem aos teatros itinerantes, os quais reduziram o porte de forma a poder circular aqui e ali com suas representações, especialmente pelas ruas e em festas empreendidas no interior dos palácios.

Ao longo do Renascimento eles são novamente resgatados no seio das Igrejas, apresentando-se também nos pátios residenciais e nas festas realizadas durante as feiras. A platéia se populariza e o teatro de fantoches assume uma postura mais satírica, impregnada de humor. Ele tem um papel importante nesse período, chegando até mesmo a preservar o Teatro Inglês quando este é interditado durante 18 anos.

Seguindo a evolução histórica, os fantoches foram se transmutando conforme as necessidades de cada época, não se atendo jamais ao passado. Assim, eles estão sempre em metamorfose, constantemente assumindo novas formas. Esta modalidade teatral preserva sempre, porém, seu caráter ambulante, ao encenar seus espetáculos não só nos teatros convencionais, mas também nas ruas, nas praias, nos espaços ao ar livre diante das Igrejas.



Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_de_fantoches

http://pt.shvoong.com/social-sciences/1626672-história-dos-fantoches/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Animismo

Texto originalmente publicado em:

quinta-feira, 5 de junho de 2025

MARIONETE DE BIMA - MARIONETE DO TEATRO DE SOMBRAS DE JAVA, INDONÉSIA - 1600-1800 D.C.


Quando o jovem Barack Obama foi levado para Java para viver com o padrasto indonésio, espantou-se ao ver, na estrada, uma estátua gigantesca com corpo de homem e cabeça de macaco. Disseram-lhe que se tratava de Hanuman, o deus-macaco hindu. O motivo para um gigantesco deus hindu ser retratado nas ruas da Indonésia islâmica dos dias de hoje é parte de uma história fascinante sobre tolerância e assimilação, um compromisso informal entre religiões diferente de qualquer solução para os problemas das sociedades multirreligiosas [...]. E é uma história que, de certa maneira, pode ser sintetizada por uma marionete do teatro de sombras indonésio, uma forma de arte bastante conhecida e tradicional que permanece viva, apesar de muito antiga; porém, também está impregnada de política contemporânea. Por meio desta marionete e de seus companheiros, podemos explorar a expansão da transformação religiosa e política que começou no Sudeste Asiático há quinhentos anos e que continua a afetar a região nos dias de hoje.

O boneco apresentado aqui, um entre as várias centenas existentes na coleção do British Museum, que datam de mais de duzentos anos atrás até hoje, veio da ilha indonésia de Java. Tem cerca de setenta centímetros de altura e representa um personagem masculino com uma expressão de grande dramaticidade. Seu nome é Bima, e ele exibe feições bem peculiares, quase caricaturais — por exemplo, um nariz muito comprido —, e braços longos e finos, cada um terminando em uma única grande garra. Seu corpo é coberto por delicados tecidos rendados que tornariam sua sombra ainda mais dramática durante a apresentação. O rosto de Bima é negro, mas ele usa roupas douradas e adereços de cores vivas. Ainda que agora pareça sem vida e frágil, no passado ele teria empolgado plateias em espetáculos que se estendiam por toda a noite em uma corte javanesa. Esse tipo de espetáculo era conhecido na época — e assim continua até hoje — como teatro de sombras.

A forma real dos bonecos foi o produto de uma das mais drásticas mudanças religiosas ocorridas nos séculos XV e XVI. Enquanto a Espanha convertia o Novo Mundo ao catolicismo, o islã se expandia pelo que é hoje a Malásia, a Indonésia e o sul das Filipinas, e por volta de 1600 a maior parte do povo javanês era muçulmana. No entanto, o teatro de sombras já era uma característica da vida em Java muito antes da chegada do islã. O próprio Bima é um personagem conhecido não apenas em Java, mas por toda a Índia, uma vez que aparece no grande épico hindu Mahabharata. Em Java, porém, este personagem hindu veio a ser manipulado por titereiros islâmicos em apresentações diante de plateias também islâmicas. Ninguém parece ter se importado com isso, e o teatro de sombras indonésio segue combinando elementos pagãos, hindus e muçulmanos até hoje.

Confeccionar uma marionete como o nosso Bima era, e ainda é, uma tarefa que requeria enorme habilidade e exigia a participação de vários artesãos diferentes. Ele é feito de couro de búfalo cuidadosamente preparado, depois de ser raspado e esticado até ficar fino e translúcido. É o material que dá o nome javanês a esse gênero de teatro — Wayang Kulit —, “teatro de pele”. O boneco de marionete era então dourado e pintado; braços articulados eram acrescentados, e hastes feitas de chifre de búfalo eram fixadas ao corpo e aos braços para controlar seus movimentos.

Historicamente, as apresentações do teatro de sombras costumavam durar a noite inteira. A luz emitida por uma lamparina por trás do titereiro projetava as sombras das marionetes em um lençol branco. Alguns integrantes da plateia — em geral mulheres e crianças — sentavam-se do lado da tela em que a sombra era projetada, enquanto os homens se sentavam do outro, que oferecia uma visão melhor. Ao titereiro, conhecido como dalang, cabiam não apenas a tarefa de controlar os bonecos como a de reger a música executada por uma orquestra de gamelão.

Sumarsam, um prestigiado dalang no teatro de sombras atual, nos dá uma ideia de quão complexo é executar com competência uma apresentação:

É necessário controlar os bonecos, às vezes dois, três ou seis ao mesmo tempo, e o mestre titereiro também precisa saber quando dar o sinal para que os músicos comecem a tocar. E é claro que ele também tem de dar voz aos bonecos em diferentes diálogos; além disso, em algumas ocasiões canta músicas que ditam a atmosfera de determinadas cenas. Precisará usar seus braços e pernas — e tudo isso enquanto está sentado de pernas cruzadas. É divertido, mas também um trabalho que representa um grande desafio. As histórias podem ser atualizadas, porém a estrutura da trama permanece sempre a mesma.

As histórias contadas no teatro de sombras são em sua maior parte extraídas de dois grandes épicos do hinduísmo — o Mahabharata e o Ramayana, ambos escritos há bem mais de dois mil anos. Eles sempre foram amplamente conhecidos em Java, pois o hinduísmo, ao lado do budismo, era a religião mais difundida ali antes que o islamismo se tornasse hegemônico.

Como o budismo que inspirou Borobudur por volta do ano 800 e o hinduísmo que criou o Mahabharata, o islã chegou a Java pelas rotas do comércio marítimo que ligavam a Indonésia à Índia e ao Oriente Médio. Governantes javaneses logo perceberam as vantagens de se converterem ao islamismo: a despeito de uma possível atração espiritual, ele facilitava tanto o comércio com o mundo muçulmano de então quanto suas relações diplomáticas com as grandes potências islâmicas da Turquia otomana e a Índia mogol. A nova religião acarretou importantes mudanças em muitos aspectos da vida, mas de modo geral a cultura e a crença javanesas absorveram o islã em vez de serem totalmente substituídas por ele.

Os novos governantes islâmicos parecem ter aceitado isso: promoveram ativamente o teatro de sombras e suas histórias hindus, que continuaram a gozar da mesma popularidade de sempre. As plateias, tanto na época como nos dias de hoje, reconheciam de imediato o boneco Bima. No Mahabharata, ele é um dos cinco heroicos irmãos (hoje é possível acompanhar suas façanhas em desenhos animados na internet) e o grande guerreiro entre eles — de sentimentos nobres, dotado de franqueza e de força sobre-humana, equivalente à de dez mil elefantes, mas também dado a tiradas espirituosas e famoso por seu talento na cozinha. Um único toque das suas unhas que mais parecem garras significa a morte para seus inimigos.

O rosto negro do boneco de Bima expressa sua paz interior e serenidade, contrastando com os “vilões” do teatro de sombras, muitas vezes retratados em vermelho para indicar um espírito de vingança e crueldade. Mas sua forma também nos conta que a influência islâmica se fez presente nessa tradicional arte hindu, o que fica óbvio se compararmos nossa marionete javanesa de Bima, com o nariz e as garras caricaturais, a outro boneco representando Bima confeccionado na ilha vizinha de Bali, que permaneceu hindu. A figura de Bali exibe no rosto feições mais arredondadas e naturais, e seus braços e pernas parecem mais proporcionais em relação ao corpo. Hoje muitos em Java argumentariam que essas diferenças podem ser explicadas pela religião e que os bonecos tradicionais hindus foram deliberadamente reformulados por seus fabricantes javaneses muçulmanos a fim de contornar a proibição islâmica de criação de imagens de seres humanos e deuses. Algumas histórias falam em tentativas de proibir o teatro de sombras nos séculos XVI e XVII; outras mencionam Sunan Giri, um conhecido santo muçulmano, que teve a engenhosa ideia de distorcer as feições das marionetes para contornar a proibição — um ajuste feliz que pode explicar a estranha aparência do nosso Bima.

Atualmente a Indonésia, com seus 245 milhões de habitantes, é a nação islâmica mais populosa do mundo, e o teatro de sombras continua bem vivo. O autor de origem malaia Tash Aw descreve o papel permanente do teatro de sombras:


Mesmo hoje, existe uma grande consciência a respeito do que ocorre no reino do teatro de sombras. É uma forma de arte que segue sempre sendo renovada e usada de formas novas e instigantes. E, ainda que seu repertório tenha origem em grande parte no Ramayana e no Mahabharata, titereiros mais jovens estão sempre usando o teatro de sombras para injetar vida e humor com comentários maliciosos sobre a política na Indonésia, difíceis de serem reproduzidos em outros lugares. Logo após a crise financeira de 1997, lembro-me de um monólogo virtuoso em Jacarta que poderia ser traduzido de forma aproximada como “A língua ainda está em coma” ou “A língua continua muda”, no qual o atual presidente Habibie era apresentado como um personagem ridículo chamado Gareng, baixinho e com olhinhos irrequietos, incrivelmente determinado, porém muito incompetente. Assim, em vários aspectos, o teatro de sombras tornou-se uma fonte de sátira política e social de um modo que seria difícil acontecer na TV, no rádio ou nos jornais, já que esses meios podem ser censurados com mais facilidade; ele se mostra bem mais flexível, mais enraizado em comunidades de base e, portanto, mais difícil de ser controlado.

Uma marionete de Bima feita em Bali exibe feições mais realistas

No entanto, não é apenas a oposição que faz uso do teatro de sombras. O ex-presidente Sukarno, o primeiro dirigente da Indonésia após a obtenção da independência da Holanda depois da Segunda Guerra Mundial, gostava de se identificar com personagens de marionetes do teatro de sombras, sobretudo com Bima — um guerreiro íntegro e poderoso, que fala a linguagem do homem comum, e não a da elite. Sukarno costumava ser comparado ao dalang, o mestre das marionetes, do povo indonésio — aquele que lhe dava voz e o dirigia em seu novo Estado, liderando-o em seu épico nacional, como de fato fez durante vinte anos até ser deposto em 1967.

Mas por que este Bima se encontra agora no British Museum? A resposta, como sempre, está na política europeia. Durante cinco anos, entre 1811 e 1816, em meio à luta travada contra a França napoleônica em várias partes do mundo, a Grã-Bretanha ocupou Java. O novo governador britânico, Thomas Stamford Raffles, que mais tarde fundaria Cingapura, era um estudioso dedicado e grande admirador da cultura javanesa de todas as épocas, e, a exemplo de todos os governantes de Java, incentivava o teatro de sombras e colecionava seus bonecos. Nosso Bima veio dele. Esse curto período de domínio britânico explica outra coisa: por que o carro de onde o jovem Barack Obama avistou um deus hindu nas ruas da Jacarta islâmica era guiado no lado esquerdo da estrada.



Fonte:

A história do mundo em 100 objetos, Neil MacGregor; tradução de Beatriz Rodrigues, Berilo Vargas e Cláudio Figueiredo