sábado, 25 de abril de 2026

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO 2

 "REFLEXÕES SOBRE O TEATRO"


compiladas por Cássio Pires de Freitas.



Bertolt Brecht, Louis Jouvet, Zeami, Peter Brook, Tertuliano, Friedrich Nietzsche, Bharata, Manifesto Arte Contra a Bárbarie, Constantin Stanislavki, Martins Penna, José Celso Martinez Correa, João Guimarães Rosa, Bertolt Brecht, Anatol Rosenfeld, Jorge Luis Borges,...


"MANIFESTO ARTE CONTRA A BÁRBARIE"



O primeiro manifesto do movimento arte contra a barbárie foi lançado em 1999 após intensas discussões sobre o rumo da cultura em São Paulo. Os artistas signatários do manifesto "Arte contra a barbárie" foram Aimar Labaki, Beto Andretta, Carlos Francisco Rodrigues, César Vieira, Eduardo Tolentino, Fernando Peixoto, Gianni Ratto, Hugo Possolo, Marco Antonio Rodrigues, Reinaldo Maia, Sérgio de Carvalho, Tadeu de Souza, Márcia de Barros, e Umberto Magnani. Também participaram do movimento os grupos teatrais Companhia do Latão, Folias D'Arte, Parlapatões, Pia Fraus, Grupo TAPA, União e Olho Vivo e Monte Azul.

Alegavam que a política de renúncia fiscal, a Lei Rouanet, não contemplava o tipo de teatro que esses artistas produziam. Conforme arguição do movimento, os profissionais de marketing pareciam não se interessar por determinados tipos de teatro, que não davam visibilidade e lucro às empresas que destinavam parte dos impostos (verba pública) a eles. O movimento também discutia o papel do teatro na sociedade, como se relacionava com o público e se existia um público em um momento que o pensamento predominante, neoliberal não parecia estar disposto a uma cultura que discutisse os seus valores. A conclusão dessas discussões provocou a formulação do primeiro manifesto.


"O teatro é uma forma de arte cuja especificidade a torna insubstituível como registro, difusão e reflexão do imaginário de um povo. Sua condição atual reflete uma situação social e política grave. É inaceitável a mercantilização imposta à cultura no País, na qual predomina uma política de eventos.

É fundamental a existência de um processo continuado de trabalho e pesquisa artística. Nosso compromisso ético é com a função social da arte. A produção, circulação e fruição dos bens culturais é um direito constitucional, que não tem sido respeitado. Uma visão mercadológica transforma a obra de arte em "produto cultural". E cria uma série de ilusões que mascaram a produção cultural no Brasil de hoje.

A atual política oficial, que transfere a responsabilidade do fomento da produção cultural para a iniciativa privada, mascara a omissão que transforma os órgãos públicos em meros intermediários de negócios. A aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria de investimentos culturais a longo prazo que visem à qualidade da produção artística.

A maior das ilusões é supor a existência de um mercado. Não há mecanismos regulares de circulação de espetáculos no Brasil. A produção teatral é descontínua e no máximo gera subemprego. Hoje, a política oficial deixou a cultura restrita ao mero comércio do entretenimento. O teatro não pode ser tratado sob a ótica economicista. A cultura é o elemento de união de um povo que pode fornecer-lhe dignidade e o próprio sentido de nação. É tão fundamental quanto a saúde, o transporte e a educação. É, portanto, prioridade do Estado.

Torna-se imprescindível uma política cultural estável para a atividade teatral. Para isso são necessárias, de imediato, ações no sentido de: Definição da estrutura, do funcionamento e da distribuição de verbas dos órgãos públicos voltados à cultura.

Apoio constante à manutenção dos diversos grupos de teatro do País. Política regional de viabilização de acesso do público aos espetáculos. Fomento à formulação de uma dramaturgia nacional. Criação de mecanismos estáveis e permanentes de fomento à pesquisa e experimentação teatral. Recursos e políticas permanentes para a construção, manutenção e ocupação dos teatros públicos. Criação de programas planejados de circulação de espetáculos pelo País.

Esse texto é expressão do compromisso e responsabilidade histórica de seus signatários com a idéia de uma prática artística e política que se contraponha às diversas faces da barbárie - oficial e não oficial - que forjaram e forjam um País que não corresponde aos ideais e ao potencial do povo brasileiro."



Constantin Stanislavki

(1863-1938)




"A preparação do ator"


O texto a seguir é um trecho do clássico "A preparação do ator", de Stanislavski. Como é sabido, o livro é apresentado na forma de uma narrativa em que um diretor, Tortsov, ensina técnicas de interpretação para seus jovens alunos. Certamente, o mais interessante da passagem é o ineditismo de uma idéia que na época não era nem um pouco comum:


"E agora recordem com firmeza o que lhes vou dizer: o teatro, pela publicidade e pelo seu lado espetacular, atrai muita gente que quer apenas tirar proveito da beleza própria ou fazer carreira. Valem-se da ignorância do público, do seu gosto adulterado, do favoritismo, das intrigas, dos falsos êxitos e de muitos outros meios que não tem relação alguma com a arte criadora. Esses exploradores são os inimigos mais mortíferos da arte. Temos que usar contra eles as medidas mais severas e se for impossível reformá-los será necessário afastá-los do palco. "



Arthur Azevedo

1855- 1908




Este texto faz parte do conjunto de sainetes O Teatro a Vapor, que Arthur Azevedo publicou de 1906 a 1908 no jornal O Século. A Cia. Dramática de Santa Teresa reuniu 11 desses sainetes no espetáculo


Reforma Ortográfica


(Numa barbearia do bairro da Saúde. O barbeiro mais sabichão que o céu cobre, faz a barba a um freguês.)

O Fregues- Ó seu Isidro, que vem ser a isso de ortografia da Academia de Letras?

O Barbeiro- Pois não sabe? A Academia, que é uma sociedade de literatos com um t só, quer simplificar a escrita. Por exemplo: philosophia tem dois hh; prá quê? Você chama-se Affonso...

F- Alto lá! Eu me chamo Joaquim.

B- É uma hipótese sem hh.Você chama-se Affonso com dois ff. Pois não lhe basta um? Que vem fazer aquele outro?

F- Então não é melhor que as palavras se escrevam com toods os ff e rr ? Qual o resultado prático dessa reforma?

B- Trata-se de uma grande economia de tempo, tinta e papel.

F- Ouvi também dizer que a tal Academia quer que se escreva kiosque com q-u-i, qui...

B- Sim senhor! Kiosque e todas as palavras que eram escritas com k. Essa letra já não existe no alfabeto sem h: a Academia suprimiu-a com um q só.

F- Mas com os diabos! Isso não é simplificar, porque quiosque com q tem oito letras e com k tem apenas sete!

B- É para uniformizar com q. Uma vez que nós possuímos o q, que necessidade temos k?

F- Nada seu Isidro, eu sou franco: kiosque com quiosque com q-u-i, qui, para mim não é kiosque nem na casa do diabo!

B- É uma questão de hábito, desde que você se habitue... eu cá, estou entusiasmado sem h pela ortografia com f !

F- (Erguendo-se)Bom, não lhe pago a barba, porque só tenho aqui níkeis com k; aparecerei cquando tiver com q! (Sai)

B- Querem ver que este sujeito com j, aproveita a refroma ortográfica para ferrar-me o calo com um l só, e pregar-me uma pessa com dois ss?



Martins Penna

(1815-1848)



A reflexão sobre teatro sugerida por Erica Montanheiro é do verdadeiro iniciador do gênero cômico no Brasil. Famoso por peças como "O Noviço" e "Juiz de Paz na Roça" ele, ainda no século XIX, toca neste trecho em uma questão que, penso, até hoje está presente entre nós:


"Assim como há portugueses que esperam por D. Sebastião, ingleses por Artur, crentes pelo Messias, renegados pelo Anti-Cristo, nós também esperamos pelo reformulador do nosso teatro. São crenças, e com elas morreremos, legando-as a nossos filhos."


José Celso Martinez Correa

(1937 - 2023)



Segue a citação de um trecho de texto do diretor José Celso Martinez Correa, líder do teatro Oficina de São Paulo, criador de alguns dos momentos mais brilhantes de nosso teatro, como as montagens de "O rei da vela", de Oswald, "Vida de Galileu", de Brecht e "Bacantes", de Eurípedes. De resto, penso, Zé Celso dispensa apresentações. Pois aí vai a reflexão, no inconfundível estilo de seu autor:


In: "Futuro da dramaturgia depende de ´bacantes`" (Estadão, Caderno 2 de 7/10/95)


"Teatro, como diz tia Oscar Wilde, dá em sociedades nobres. Quer dizer, é filho de uma dramaturgia da sociedade que coloca no centro a importância de estar vivo e ser mortal, do "é hoje só, amanhã não tem mais". Assim foi no século de Péricles que deu tragédia grega, no de Elizabeth, Shakespeare, no da vontade de poder descolonizadora tenenista ou varguista (sei lá como chamar isto que hoje é maldição do stalinismo liberal) deu a antropofagia, Villa-Lobos, Bidu Saião, Oswald. No desenvolventismo, JK deu Nelson, Cacilda, bossa, cinema novo, no aqui agora do tempo das multidões jovens dos anos 60, jorrou tropicalismo, música, cinema, teatro, política, artes plásticas, Plinio Marcos e Cacilda Becker de nova Antígona Chanel no teatro da agitação política de 68.

Nossa época de aparência, repito: aparência, pouco nobre e muito pobre, onde pra poder qualquer coisa, como sobre viver, por exemplo e não ser pra sempre matematicamente "cortado", somos convidados a viver fuçando, lambendo, babando, o capital especulativo, empregado da abstração economicista. Temos que tagarelar nas TVs e colunas para garantir a miséria social e dar vida a "ela", a moeda, a "real" que se recusa a virar matéria-prima concreta, investimento produtivo, comida devorável, esterco."


João Guimarães Rosa

(1908-1967)




Duas palavrinhas sobre o trecho a seguir: reflexão, de fato, não é. Mas como Guimarães Rosa não precisa mostrar que está pensando pra fazer a gente pensar, resolvi selecionar a passagem. Sobre Guimarães, não vou dizer nada além que nunca foi voltado ao teatro, pois não quero subestimar os conhecimentos de ninguém. No entanto, mesmo não sendo Guimarães um homem de teatro, me lembrei que no conto "Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo" havia um diálogo que valia a citação no contexto destes posts. Em princípio, é apenas para se divertir, mas com alguma atenção, dá pra ir além, pois a passagem é genial. Trata-se de um diálogo sobre um certo "teatrinho" entre Laio, dito Lalino, o mais preguiçoso, malandro e pedante dentre um grupo de trabalhadores que constróem uma estrada e seu Marra, o chefe dos trabalhadores:


In: "Sagarana"


"Seu Marra tem noção de hierarquia e tacto suficiente. Começa:

- Olha, seu Laio, eu lhe chamei, para lhe aconselhar. A coisa assim não vai!... Seu serviço precisa de render...

- Pois, hoje, eu estou com uma coragem mesmo doida de trabalhar, seu Marrinha!...

- É bom... Carece de tomar jeito!... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura... Precisa de dar exemplo aos outros... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar... que tem rompante... Até servia para fazer o papel do moço-que-acaba-casando, no teatro...

Seu Marra foi muito displicente no final. Deu a deixa, e agora olha para o matinho lá longe, esperando réplica.

Mas não pega. Não pega, porque, se bem que Lalino esteja cansado de saber o que é que o outro deseja, não o pode atender: do "Visconde Sedutor" mal conhece o título, ouvido em qualquer parte.

- Qual, isso é bondade sua, seu Marrinha... São seus olhos melhores...

- Não. Eu sou muito franco... Quando falo que é, é porque é mesmo...

(Pausa)... Quem sabe, a gente podia representar esse drama, hem seu Laio?...

Como é que chama mesmo?... "O Visconde Sedutor"... Foi o que você disse, não foi?

- Isso mesmo, seu Marrinha.

Definição, amável mas enérgica:

- Bem, seu Laio. Vamos sentar aqui nestas pedras e você vai me contar a peça.

Agora não tem outro jeito. Mas Lalino não se aperta: há atualmente nos seus miolos uma circunvoluçãozinha qualquer, com vapor solto e freios frouxos, e tanto melhor.

- O primeiro ato, é assim, seu Marrinha: quando levanta o pano, é uma casa de mulheres. O Visconde, mais os companheiros, estão bebendo junto com elas, apreciando música, dançando... Tem umas vinte, todas bonitas, umas vestidas de luxo, outras assim... sem roupa nenhuma quase...

- Tu está louco, seu Laio!?... Onde que já se viu esse despropósito?!... Até o povo jogava pedra e dava tiro em cima!... Nem o subdelegado não deixava a gente aparecer com isso em palco... E as famílias, homem? Eu quero é levar peça para famílias... Você não estará inventando: Onde foi que tu viu isso?

- Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No Rio de Janeiro! Na capital... Isso é teatro de gente escovada...

- Mas, você não disse, antes, que tinha sido companhia, lá no Bagre?

- Cabeça ruim minha. Depois me alembrei... No Bagre eu vi foi a "Vingança do Bastardo"... Sabe? Um rapaz rico que descobriu que a ...

- Espera! Espera, homem... Vamos devagar com o terço. Primeiro o "Visconde Sedutor". Acaba de contar.

- Bem, as mulheres são francesas, espanholas, italianas, e tudo, falando estrangeirado, fumando cigarros...

- Mas, seu Laio! Onde é que a gente vai arranjar mulher aqui para representar isso?... De que jeito?!

- Ora, a gente manda vir umas raparigas daí de perto...

- Deus me livre!

- Ou então, seu Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher...

Fica até bom... No teatro que seu Vigário arranjou, quando levaram a ...

- Aquilo nem foi teatro! Vida de santo, bobagem! Bem, conta, conta seu Laio... Depois a gente vai ver.

- Bom, tem uma francesa mais bonita de todas, lourinha, com olhos azulzinhos, com vestido aberto nas costas... muito pintada, linda mesmo... que senta no colo do Visconde e faz festa no queixo dele... depois abraça e beija...

- Espera um pouco, seu Laio...

É o caminhão da empresa, que vem de volta. Parou."



terça-feira, 21 de abril de 2026

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO 1

 

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO

compiladas por Cássio Pires de Freitas

(1)

Bertolt Brecht, Louis Jouvet, Zeami, Peter Brook, Tertuliano, Friedrich Nietzsche, Bharata, Manifesto Arte Contra a Bárbarie, Constantin Stanislavki, Martins Penna, José Celso Martinez Correa, João Guimarães Rosa, Bertolt Brecht, Anatol Rosenfeld, Jorge Luis Borges,...



Bertolt Brecht

(1898-1956)



"Pequeno Organon Para o Teatro"

"O prazer sexual torna-se, entre nós, uma obrigação conjugal; o prazer artístico está a serviço da cultura; e aprender não significa um conhecimento agradável, mas sim enfiarmos o nariz num objeto de conhecimento. Nada do que fazemos representa um esforço de alegria e para justificarmos os nossos atos não invocamos o prazer que tivemos, mas, sim o suor que nos custou."


Louis Jouvet

(1887-1951)


Diretor e ator francês Louis Jouvet, que deixou um importante legado no Thèâtre do Vieux Colombier, em Paris

"O comediante desencarnado"


"Não há nada mais fútil, mais falso, mais vão, nada mais necessário que o teatro."



Zeami

(1363-1444)



Zeami é um dos grandes nomes do teatro japonês. Atribui-se a ele a criação do gênero Nô. Ao longo de sua vida, escreveu cerca de 200 Nô, dos quais a metade ainda hoje é representada. O trecho que vem abaixo faz parte do texto teórico denominado "O espelho da flor", transmitido oralmente durante décadas e publicado apenas em 1665, mais de duzentos anos após a morte do autor e ator: (Trad. Helena Barbas)


"Olhando as plantas em flor, perguntamo-nos: porque se simboliza por uma flor todas as coisas do mundo? É pela sua existência efêmera que se gosta delas, elas só florescem durante uma estação, são raras. De igual modo, o Nô fala ao coração e suscita o interesse. A flor, o interesse e a raridade, eis a maravilha do Nô.

Florir e murchar são inevitáveis: é o que torna as flores maravilhosas. O encanto do Nô, a sua flor, encontra-se na virtude da mudança. O Nô nunca é estático, transforma-se sem cessar, como a flor, e é esta mudança que o torna tão raro.

No entanto, é necessário respeitar as suas regras e evitar a extravagância, mesmo na demanda da raridade ou da novidade. Após todos os exercícios, no momento de apresentar um Nô, é preciso escolher de acordo com a situação. De entre todas as flores, só é verdadeiramente rara aquela que eclode no seu quadro temporal. Do mesmo modo, se aprendestes bem as numerosas técnicas das artes, escolhereis adaptando-vos à época e ao público; será como uma flor na sua estação.

As flores de hoje são semelhantes às do ano passado. Assim, o Nô, mesmo tendo já sido visto antes, ou inscrevendo-se num repertório importante, retornará, após a passagem do tempo, igualmente raro."



Peter Brook

(1925-2022)




"O ponto de mudança."



"Nunca acreditei em verdades únicas. Nem nas minhas, nem nas dos outros. Acredito que todas as escolas, todas as teorias podem ser úteis em algum lugar, num dado momento. Mas descobri que é impossível viver sem uma apaixonada e absoluta identificação com um ponto de vista. No entanto, à medida que o tempo passa, e nós mudamos, e o mundo se modifica, os alvos variam e o ponto de vista se desloca. Num retrospecto de muitos anos de ensaios publicados e idéias proferidas em vários lugares, em tantas ocasiões diferentes, uma coisa me impressiona por sua consistência. Para que um ponto de vista seja útil, temos que assumi-lo totalmente e defendê-lo até a morte. Mas, ao mesmo tempo, uma voz interior nos sussura: "Não o leve muito a sério. Mantenha-o firmemente, abandone-o sem constrangimento."



Tertuliano

(c. 155 - c.255)



Um trecho de um texto de um dos primeiros teólogos do cristianismo, um cartaginês que viveu na época do Império Romano. Na passagem, sobre os teatros grego e romano, nota-se claramente que ele não gostava muito de teatro

"Sobre os Espetáculos"


"O teatro não é apenas consagrado à deusa do amor, mas também ao deus do vinho. Porque estas duas testemunhas da libertinagem e da embriaguez estão estreitamente unidas que parecem ter conspirado juntas contra a virtude: deste modo, o palácio de Vênus é também o paço de Baco. Com efeito, havia

antigamente alguns jogos do teatro que eram propriamente chamados de liberais: não apenas porque eram consagrados a Baco, como o são os dionisíacos dos gregos; mas ainda porque Baco era o seu instituidor. Além disso, estas duas divindades execráveis não presidem menos às ações do teatro que ao próprio teatro; seja que se tenha em consideração a infâmia dos gestos, ou outros movimentos dissolutos dos corpos. É o que se nota particularmente nos atores da comédia. Neste ofício miserável, eles vangloriam-se em imolar de qualquer maneira a sua languidez a Vênus e a Baco; um deles por libertinagens horríveis, os outros com representações lascivas e brutais. No que respeita aos versos, a música, as flautas, as violas, tudo é mostra de Apolos, das Musas, das Minervas, dos Mercúrios.

Discípulos de Jesus Cristo, detestareis os objetos cujos autores vos devem parecer tão detestáveis."



Friedrich Nietzsche

(1844-1900)




Segue uma bela reflexão sobre uma condição central do teatro, realizada por Nietzsche, num texto em que o autor estabelece a famosa distinção entre apolínio e dionisiaco e que comenta a origem da tragédia grega, ou em outros termos, a origem do teatro ocidental. Se Nietzsche não era homem de teatro, foi, ao que dizem e ao que se espera, um grande professor de literatura e teatro gregos e um filósofo que dispensa apresentações:

"A origem da tragédia"


"A possessão é a condição prévia de toda a arte dramática; possuído, o exaltado por Dionisos vê-se como sátiro - e como sátiro, então, ele vê o deus. O que signfica que, metamorfoseado, ele apercebe, exterior a si, uma nova visão que é a concretização apolínea do seu estado. É com esta nova visão que o drama acaba de se constituir."



Bharata

(cerca da época de Cristo)



A citação a seguir trata-se de um trecho do primeiro capítulo do "Natya-Shastra", obra clássica dos hindus. "Natya-Shastra", significa, aproximadamente, "Tratado sobre Teatro (ou dança)". Estamos diante de um dos livros míticos da Índia. Não se sabe ao certo quando foi criado. Por séculos foi transmitido oralmente e chegou a sua forma escrita, em sanscrito, apenas há alguns séculos. A autoria do texto é atribuída a Bharata, entidade mítica que recebeu de Xiva e Brama, as divindades hindus, a ordem para a criação do teatro e a feitura do tratado em questão. Bharata, diz a lenda, teria vivido por volta da época de Jesus Cristo e é, para a mitologia hindu, o inventor do teatro. O primeiro capítulo trata da origem do teatro e os demais, cerca de trinta, começam a abordar uma série de questões técnicas do teatro e dança hindus.

Pois bem, agora tenham um pouco de paciência: o trecho é longo, mas vale a pena chegar ao seu final, belíssimo.


"Natya-Shastra"

"Inclinando-me diante de Brama e Xiva, descreverei as regras do teatro tal qual foram promulgadas por Brama.

No tempo antigo, os sábios de grande alma que tinham dominado os seus sentidos aproximaram-se do piedoso Bharata, mestre da arte dramática, durante um intervalo nos seus trabalhos. Ele tinha acabado de terminar a recitação das suas orações, e estava rodeado dos seus filhos. Os sábios de grande alma que tinham dominado os seus sentidos disseram-lhe respeitosamente: Oh Bramane, como nasceu o tratado do teatro, semelhante aos livros sagrados, que tu compuseste? A quem se dirige ele, quais são suas partes, o tamanho, e como deve ser aplicado? Rogamos-te que nos digas tudo isto detalhadamente.

Ouvindo estas palavras dos sábios, Bharata respondeu-lhes assim sbre a questão do tratado do teatro:

Purificai-vos, ficai atentos e escutai as origens do tratado do teatro composto por Brama. Oh brâmanes, no tempo antigo, no tempo em que a idade de ouro foi substítuida pela idade da prata, em que os homens se deram aos prazeres dos sentidos, submetendo-se assim ao jugo do desejo, quando eles conheceram o ciúme, a cólera, quando a sua felicidade se misturou de tristeza, nesse tempo os deuses, com o grande Indra à sua cabeça, aproximaram-se de Brama e falaram-lhe assim:

Nós queremos um objeto de representação, que deve ser tanto audível quanto visível. Como os quatro livros sagrados não podem ser ouvidos por aqueles que nasceram intocáveis, rogamos-te que cries um outro livro sagrado que pertença igualmente a todas as castas.

Assim seja, respondeu ele, e tendo despedido os deuses, medita e chama à sua memória os quatro livros sagrados. Depois pensa: vou fazer um quinto livro sagrado sobre o teatro, servindo-me dos livros históricos. Ele mostrará o caminho em direção à virtude, á riqueza, à glória, conterá bons conselhos morais, guiará os homens do futuro em todas as suas ações, será enriquecido pelo ensinamento de todos os tratados, e passará em revista todas as artes e todos os ofícios.

Com a sua recordação dos quatro livros sagrados, Brama fez então o seu tratado sobre o teatro. Deles retira o texto, a música, a encenação e os sentimentos.

Depois de o santo e o omnisciente Brama ter assim criado o seu tratado do teatro, ele disse a Indra: Os livros históricos foram compostos por mim. Tu vais transformá-los em peças de teatro, e faze-las representar pelos deuses. Transmite este tratado do teatro àqueles de entre os deuses que são destros, instruídos, hábeis no falar e estão habituados a trabalhar duramente.

A estas palavras de Brama, Indra inclina-se diante dele, junta as mãos e responde: Oh melhor e mais santo, os deuses não são capazes nem de receber e defender o teu tratado do teatro, nem de compreender e utilizar. Eles são completamente inaptos para o teatro. Mas os sábios que conhecem os mistérios dos livros sagrados, e que cumpriram os seus votos, são capazes de defender este tratado do teatro e de o pôr em prática.

A estas palavras de Indra, Brama disse-me: Homem sem pecado, és tu, com os teus cem filhos, quem deverá servir-se deste tratado do teatro.

Para obedecer a esta ordem, estudei o tratado do teatro de Brama e pedi aos meus filhos que também o estudassem e que o pusessem em prática. Para benefício dos homens, distribui pelos meus filhos os papéis que mais lhe convinham.

Oh brâmanes, preparei-me assim para dar uma representação na qual entravam diferentes estilos dramáticos, o poético, o grandioso e o patético.

(...)

Aproximei-me de Brama e disse-lhe: Oh mais santos e melhor dos deuses, os maus espíritos estão decididos a impedir esta representação dramática; ensina-me também os meios de a proteger. Então Brama disse ao seu arquiteto para construir cuidadosamente um teatro do melhor tipo. Brama visita-o e diz aos outros deuses: vós deveis cooperar na proteção das diversas partes deste teatro, e dos objetos necessários à representação dramática. O deus da lua protegerá o edifício principal, os guardiões dos mundos os edifícios adjacentes (...) O grande Indra, ele mesmo, estabelecer-se-á do lado da cena (...) Na seção do alto foi colocado Brama, na segunda Xiva, na terceira Vixnu, na quarta Kartikeia e na quinta outros deuses poderosos. (...) O próprio Brama ocupa o meio da cena. É por esta razão que esse local é ornado com flores no início das representações.

(...)

Durante este tempo, os deuses em corpo disseram a Brama: Tu devias acalmar os maus espíritos por meio da conciliação. Primeiro é preciso aplicar este método, depois dar prendas, depois, se não servirem de nada, criar a dissensão entre os inimigos, e por fim, se preciso, recorrer a expedientes punitivos. Ouvindo estas palavras dos deuses, Brama chama os maus espíritos e diz-lhes: Porque quereis impedir a representação teatral? (...) Eles responderam: O conhecimento da arte dramática que tu introduziste pela primeira vez segundo o desejo dos deuses colocou-nos sob uma luz desfavorável, e fizeste-o no interesse dos deuses. Não o deverias ter feito, tu que és o pai do mundo inteiro, tanto de nós quanto dos deuses. Brama respondeu: Cessai a vossa cólera, abandonai a vossa tristeza. Preparei este tratado do teatro que determinará o bom e o mau destino dos deuses, e o vosso, e que terá em conta os atos e as idéias dos deuses, e vossas.

Neste teatro, não há representação exclusiva dos deuses, ou vossa. O teatro é a representação do mundo inteiro. Fala-se aí de dever, de jogos, de dinheiro, de paz, do riso, de combate, de amor e de morte. Ele ensina o dever àqueles que o ignoram, o amor àqueles que a ele aspiram. Ele pune os maus, aumenta o domínio dos que são disciplinados, dá coragem aos covardes, energia aos heróis, inteligência aos fracos de espírito, e sabedoria aos sábios. (...) O teatro que eu inventei é uma imitação das ações e das condutas dos homens. É rico em emoções variadas, e descreve diferentes situações. As ações dos homens que ele relata são boas, más ou indiferentes.

Ele dá coragem, divertimento, felicidade e conselhos a todos."




segunda-feira, 13 de abril de 2026

HISTÓRIA DO TEATRO OCIDENTAL: 534 A.C. NA GRÉCIA, O PRIMEIRO ATOR

 534 A. C. 

 TÉSPIS TORNA-SE PRIMEIRO ATOR AO PROTAGONIZAR UMA PEÇA DE TEATRO




Téspis de Icária, segundo fontes da Grécia Antiga e, em especial, Aristóteles, foi a primeira pessoa a aparecer em um palco como ator, desempenhando um personagem em peça teatral. Outras fontes o colocam como dramaturgo, introduzindo o conceito de protagonista e da técnica deste contracenar com o coro.

Ele era cantor de ditirambos – composição poética com estrofes irregulares que festejavam o vinho, a alegria, os prazeres da mesa, em tom entusiástico e/ou delirante. Credita-se a ele ter introduzido o estilo no qual um cantor ou ator desempenhava um único personagem em cada história, distinguindo-se os personagens com a ajuda de distintas máscaras.

Esse estilo foi chamado de tragédia e Téspis era o seu mais popular expoente. Em 23 de novembro de 534 a. C. foram criadas competições para eleger-se a melhor tragédia em Atenas. Téspis foi o ganhador da primeira competição documentada. Valendo-se de seu sucesso, percorreu várias cidades em carroça, apresentando-se com suas vestimentas e máscaras.


(máscara grega)

Foi durante uma Olimpíada que Téspis apresentou sua primeira tragédia: “[…] Um homem, um ‘desconhecido’, ‘alguém’, que se deixa arrastar pelas forças sagradas de Melpomene, alguém que é capaz de representar cinco ou seis personagens ao mesmo tempo, alguém que escreve as obras e as interpreta com um magnífico ‘sentido de imitação”.

Foi o primeiro ator e o primeiro autor ocidental conhecido. Assim como escrevia e representava, também defendia seus direitos autorais, criando a primeira altercação entre o teatro e o governo quando discutiu com Sólon (640-558 a.C), legislador ateniense, a razão de seus ataques aos deuses do Olimpo. Representava vários papéis numa mesma apresentação e, mais tarde, acusado de hipócrita por Sólon, reconheceu: “[…] Fui, em verdade, um grande ator, mas também um hipócrita. Meus deuses, meus mercadores e meus pobres não eram mais que pedaços de minha alma endurecida”.

Em suas origens, o ator grego da comédia – possivelmente posterior ao da tragédia – era alguém mais descontraído e brincalhão, portador da vivacidade e da folia que vai caracterizar o cômico em todos os tempos. Os espectadores assumiam uma embriaguez coletiva, e o espetáculo aos poucos ia se tornando uma encenação de grande participação popular.

(Sófocles)

Os precursores do teatro ocidental se sucedem. Quérilo viveu o bastante para concorrer, quase centenário, com Sófocles (495-405 a. C.). Frínico teria se tornado tão ilustre quanto Ésquilo (525-439 a. C.) se sua obra escrita tivesse sobrevivido. A Téspis é atribuído a invenção da máscara, a Frínico, a introdução de personagens femininas em suas peças. Prátinas é o terceiro nome contemporâneo de Ésqiuilo e reprovava as interferências musicais em detrimento da palavra do poeta.

O protagonista, introduzido por Téspis, permitiu o diálogo entre ator e coro. O segundo ator, introduzido por Ésquilo, o deuterogonista, propiciou a criação do conflito. O coro foi perdendo sua função principal no desenvolvimento da tragédia, crescendo, por outro lado, a importância dos atores. Sófocles deu-nos o terceiro ator, o tritagonista, o que não significava que em suas peças encontrássemos dois ou tres personagens, mas vários personagens para serem interpretados por dois ou três atores no máximo.

Esta tendência iria aumentar com seus sucessores, a ponto dos componentes reduzirem-se de 50 para 15 elementos. Sófocles secularizou o espírito e o conteúdo da tragédia, assim como dissociou em suas especificas funções: o ator, como intérprete dos textos do poeta; o músico, com atividade própria e separada; e o coro, agora mais estruturado a ponto de ganhar um diretor próprio.

Encontramos muito pouca documentação sobre a forma de representação do ator grego. Aristóteles teria falado a respeito, mas esses trechos foram perdidos. Entretanto, quanto à interpretação teatral, poderíamos dizer que a pantomima era importante, e o uso de máscaras enormes, de traços acentuados, de roupas gigantescas, sobrecarregadas de bordados, que caíam até os pés, daí seu modo estático de representar, dando-se maior destaque ao texto falado. A cor das vestes anunciava o sexo e o nível social da personagem.

A fim de evitar a desproporção física que a indumentária poderia causar em relação aos grandes teatros gregos, aumentava-se o tamanho dos corpos acolchoando-os com falsos ventres, ombros,… recobrindo tudo isso com um tecido de malha ajustada ao corpo, sobre o qual vestiam as túnicas e os mantos. A máscara e a pesada vestimenta impediram qualquer elaboração mais individualizada. Segundo uma citação tradicional, o ator grego “era uma voz e uma presença”.

Os atores trágicos nunca tomaram parte na comedia, nem os cômicos na tragédia. Apenas os homens podiam subir aos palcos atenienses, e os atores trágicos eram considerados cidadãos muito requisitados e regiamente pagos.

No século IV a.C., o teatro decaiu, enquanto o ator foi ganhando cada vez mais importância. A expressão corporal superou o jogo das palavras, e nasceram então as primeiras cenas improvisadas. Os mímicos começaram a imitar os tipos cômicos da sociedade.

Ainda no século IV a.C., organizaram-se agremiações ou corporações de atores, denominadas Artesãos de Dionísio, que alcançaram muito poder e respeito, perdidos depois quando passaram a aceitar, em suas hostes, músicos, coristas, ajudantes e comparsas, o que provocou paulatina desconsideração social, a ponto de Aristóteles chama-los de “Parasitas de Dionísio”.

Outro depoimento aristotélico diz-nos que, à época, o intérprete despertava mais interesse que a obra poética. No ano de 449 a.C. foram instituídos os concursos para atores; o processo do individualismo começava a se estabelecer. Pólus foi o mais famoso, não só por suas qualidades de intérprete – segundo o filosofo Denis Diderot, ele tinha interpretado uma cena de Electra portando as cinzas do próprio filho -, mas também por ter sido o professor de dicção do grande orador grego Demóstenes (385-322 a.C.), que ganhou notoriedade por sua arte retórica.

Fonte: