ÉDIPO NO UNIVERSO TRÁGICO
(Jean-Auguste Dominique Ingres - Édipo e a Esfinge)
Vivemos num mundo eminentemente racional. Tudo tem de ter sua lógica, a sua razão de ser. Entretanto, como já disse Shakespeare, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vã filosofia".
Houve um tempo, anterior à criação da "vã filosofia", em que os homens realmente partilhavam dessa visão de mundo. Mais do que isso: respeitavam esses mistérios. Trata-se do mundo trágico, que se constituiu na Grécia antiga, entre os séculos VI e V a.C., e que teve seu declínio justamente a partir do século V a.C., com a criação da filosofia socrática, a afirmação crescente do direito e a universalização de toda a racionalidade que nos atravessa até os dias de hoje.
Responsabilidade e culpa - O mundo trágico assinala um período de transição da aristocracia para a democracia, da cidade regida pelos privilégios dos laços de sangue para a cidade regida pelo direito. Para nós, é muito difícil imaginar um mundo sem leis válidas para todos os cidadãos, pois mesmo nos casos de golpes de Estado, ditaduras ou guerras, não é que as leis não existam; elas simplesmente são suspensas, anuladas ou, então elaboradas para favorecer a classe dominante/dirigente.
Entretanto, no mundo trágico, nem a noção de responsabilidade existia totalmente formada, com todo o peso que tem para nós hoje em dia. Os gregos viviam num mundo povoado de deuses e heróis, onde - e eles acreditavam nisso! - potências divinas podiam, muitas vezes, possuir a alma de um homem, enlouquecê-lo, tirá-lo de si, fazendo-o cometer os atos mais desatinados: crimes, roubos, assassinatos etc. Ora, como alguém pode ser considerado responsável pelos atos que cometeu sob a inspiração ou sob o mando de um deus? Não faz nenhum sentido.
Também nessa época, o direito já procurava instituir uma nova ordem, a do sujeito responsável, distinguindo crimes cometidos "de bom grado" dos cometidos "de mau grado", ou seja, na ignorância ou com conhecimento de causa.
Dessa forma, no universo trágico a avaliação da responsabilidade oscilava entre duas interpretações diferentes: por um lado, associava-se à noção de falta (hamártema = "erro" de espírito, polução religiosa, em que o ser humano é tomado por forças sinistras que o arrastam e enlouquecem); por outro, era engolfado pela noção legal de delito (adíkema = delito intencional, que deve ser punido, a ser distinguido de atýchema, acidente imprevisível, não passível de punição).
Assim, quando um herói trágico como Édipo fura os próprios olhos ele sem dúvida o faz ao descobrir que - no mais puro desconhecimento e realizando um oráculo do deus Apolo - havia matado o seu pai e partilhado o leito de sua mãe, como esposo, cometendo os crimes de parricídio e de incesto. Se existe hamártema (uma vez que Édipo realiza esses crimes por um "erro" de espírito, polução advinda de uma maldição ligada aos seus descendentes, destino comandado por um oráculo), não se trata, entretanto, de um adíkema. O herói é, aí, vítima de um atýchema, não cabendo, pois, interpretar o ato de cegar-se como motivado por qualquer sentimento de culpa. Ocorre, simplesmente, que esses olhos não guardavam mais qualquer utilidade diante de um mundo que se tornara pura desolação, ruína, vergonha. É o que dizem as palavras de Édipo, na peça Édipo-rei (cf. Sófocles, 1989: 88):
Foi Apolo. Foi Apolo, sim, meu amigo!
Foi Apolo o autor de meus males,
De meus males terríveis; foi ele!
Mas fui eu quem vazou os meus olhos.
Mais ninguém. Fui eu mesmo, o infeliz!
Para que serviriam meus olhos
Quando nada me resta de bom
Para ver? Para que serviriam?
Aquém e além dos deuses - No universo trágico, quem cometia hýbris era todo aquele que, através de um ato, ultrapassasse a medida humana, seja em direção à dimensão ilimitada de um deus, seja em direção à dimensão irrefletida de um animal.
Édipo, por exemplo, ao cometer parricídio e incesto ultrapassa essa medida, dado que esses crimes são prerrogativas dos deuses ou da inconsciência animal. É verdade que seus atos não tiveram caráter intencional, que foram marcados pelo puro desconhecimento: ele matara um velho ao entrar em Tebas, porque fora provocado e açoitado por ele, sem saber que era Laio, rei de Tebas e seu pai; da mesma forma, recebera a mão da rainha Jocasta como prêmio por ter decifrado o enigma da Esfinge e livrado a cidade do monstro.
Entretanto, apesar do desconhecimento, há uma hýbris que atravessa todo o seu percurso, tal qual aparece na tragédia Édipo-rei, de Sófocles: o orgulho, a prepotência, que o acompanham desde a saída de Corinto e o levam até o final da trama, a tentar descobrir o assassino do rei Laio, sem suspeitar que ele pudesse ser o assassino, sem sequer imaginar que Laio pudesse ser seu pai.
Embora oficialmente Édipo fosse filho dos reis de Corinto, ele sabia da possibilidade de ser apenas filho adotivo, pois, certa vez, um cortesão embriagado jogara-lhe essa ofensa no rosto. Também havia consultado o Oráculo de Delfos, santuário do deus Apolo, e recebido a previsão de que mataria seu pai e partilharia o leito de sua mãe. Foi então que se desviou de Corinto e tomou o caminho de Tebas, imaginando que, assim, escaparia da previsão.
Opera, pois, aí, uma prepotência que desconsidera a força do oráculo, que se imagina acima das injunções do destino humano, imune à circunstâncias capazes de produzir desgraça e infortúnio, como se não habitasse este mundo, feito de surpresas e acasos inesperados, como se a vida não fosse meramente humana. No final de tudo, ao se perceber completamente cego à trama que determinara sua vida, Édipo cega-se de fato, furando os olhos: na escuridão, deverá aprender a "ver" o mundo invisível das forças que ele desconsiderara até então, aquele que opera sob o mundo das formas visíveis e que os gregos chamavam de moîra (= destino).
(NIETZSCHE, Friedrich. "O eterno retorno", § 1066.
In: Nietzsche - Obras incompletas. Trad. , Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo, Abril, 1978, p. 397)

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