sábado, 25 de abril de 2026

REFLEXÕES SOBRE O TEATRO 2

 "REFLEXÕES SOBRE O TEATRO"


compiladas por Cássio Pires de Freitas.



Bertolt Brecht, Louis Jouvet, Zeami, Peter Brook, Tertuliano, Friedrich Nietzsche, Bharata, Manifesto Arte Contra a Bárbarie, Constantin Stanislavki, Martins Penna, José Celso Martinez Correa, João Guimarães Rosa, Bertolt Brecht, Anatol Rosenfeld, Jorge Luis Borges,...


"MANIFESTO ARTE CONTRA A BÁRBARIE"



O primeiro manifesto do movimento arte contra a barbárie foi lançado em 1999 após intensas discussões sobre o rumo da cultura em São Paulo. Os artistas signatários do manifesto "Arte contra a barbárie" foram Aimar Labaki, Beto Andretta, Carlos Francisco Rodrigues, César Vieira, Eduardo Tolentino, Fernando Peixoto, Gianni Ratto, Hugo Possolo, Marco Antonio Rodrigues, Reinaldo Maia, Sérgio de Carvalho, Tadeu de Souza, Márcia de Barros, e Umberto Magnani. Também participaram do movimento os grupos teatrais Companhia do Latão, Folias D'Arte, Parlapatões, Pia Fraus, Grupo TAPA, União e Olho Vivo e Monte Azul.

Alegavam que a política de renúncia fiscal, a Lei Rouanet, não contemplava o tipo de teatro que esses artistas produziam. Conforme arguição do movimento, os profissionais de marketing pareciam não se interessar por determinados tipos de teatro, que não davam visibilidade e lucro às empresas que destinavam parte dos impostos (verba pública) a eles. O movimento também discutia o papel do teatro na sociedade, como se relacionava com o público e se existia um público em um momento que o pensamento predominante, neoliberal não parecia estar disposto a uma cultura que discutisse os seus valores. A conclusão dessas discussões provocou a formulação do primeiro manifesto.


"O teatro é uma forma de arte cuja especificidade a torna insubstituível como registro, difusão e reflexão do imaginário de um povo. Sua condição atual reflete uma situação social e política grave. É inaceitável a mercantilização imposta à cultura no País, na qual predomina uma política de eventos.

É fundamental a existência de um processo continuado de trabalho e pesquisa artística. Nosso compromisso ético é com a função social da arte. A produção, circulação e fruição dos bens culturais é um direito constitucional, que não tem sido respeitado. Uma visão mercadológica transforma a obra de arte em "produto cultural". E cria uma série de ilusões que mascaram a produção cultural no Brasil de hoje.

A atual política oficial, que transfere a responsabilidade do fomento da produção cultural para a iniciativa privada, mascara a omissão que transforma os órgãos públicos em meros intermediários de negócios. A aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria de investimentos culturais a longo prazo que visem à qualidade da produção artística.

A maior das ilusões é supor a existência de um mercado. Não há mecanismos regulares de circulação de espetáculos no Brasil. A produção teatral é descontínua e no máximo gera subemprego. Hoje, a política oficial deixou a cultura restrita ao mero comércio do entretenimento. O teatro não pode ser tratado sob a ótica economicista. A cultura é o elemento de união de um povo que pode fornecer-lhe dignidade e o próprio sentido de nação. É tão fundamental quanto a saúde, o transporte e a educação. É, portanto, prioridade do Estado.

Torna-se imprescindível uma política cultural estável para a atividade teatral. Para isso são necessárias, de imediato, ações no sentido de: Definição da estrutura, do funcionamento e da distribuição de verbas dos órgãos públicos voltados à cultura.

Apoio constante à manutenção dos diversos grupos de teatro do País. Política regional de viabilização de acesso do público aos espetáculos. Fomento à formulação de uma dramaturgia nacional. Criação de mecanismos estáveis e permanentes de fomento à pesquisa e experimentação teatral. Recursos e políticas permanentes para a construção, manutenção e ocupação dos teatros públicos. Criação de programas planejados de circulação de espetáculos pelo País.

Esse texto é expressão do compromisso e responsabilidade histórica de seus signatários com a idéia de uma prática artística e política que se contraponha às diversas faces da barbárie - oficial e não oficial - que forjaram e forjam um País que não corresponde aos ideais e ao potencial do povo brasileiro."



Constantin Stanislavki

(1863-1938)




"A preparação do ator"


O texto a seguir é um trecho do clássico "A preparação do ator", de Stanislavski. Como é sabido, o livro é apresentado na forma de uma narrativa em que um diretor, Tortsov, ensina técnicas de interpretação para seus jovens alunos. Certamente, o mais interessante da passagem é o ineditismo de uma idéia que na época não era nem um pouco comum:


"E agora recordem com firmeza o que lhes vou dizer: o teatro, pela publicidade e pelo seu lado espetacular, atrai muita gente que quer apenas tirar proveito da beleza própria ou fazer carreira. Valem-se da ignorância do público, do seu gosto adulterado, do favoritismo, das intrigas, dos falsos êxitos e de muitos outros meios que não tem relação alguma com a arte criadora. Esses exploradores são os inimigos mais mortíferos da arte. Temos que usar contra eles as medidas mais severas e se for impossível reformá-los será necessário afastá-los do palco. "



Arthur Azevedo

1855- 1908




Este texto faz parte do conjunto de sainetes O Teatro a Vapor, que Arthur Azevedo publicou de 1906 a 1908 no jornal O Século. A Cia. Dramática de Santa Teresa reuniu 11 desses sainetes no espetáculo


Reforma Ortográfica


(Numa barbearia do bairro da Saúde. O barbeiro mais sabichão que o céu cobre, faz a barba a um freguês.)

O Fregues- Ó seu Isidro, que vem ser a isso de ortografia da Academia de Letras?

O Barbeiro- Pois não sabe? A Academia, que é uma sociedade de literatos com um t só, quer simplificar a escrita. Por exemplo: philosophia tem dois hh; prá quê? Você chama-se Affonso...

F- Alto lá! Eu me chamo Joaquim.

B- É uma hipótese sem hh.Você chama-se Affonso com dois ff. Pois não lhe basta um? Que vem fazer aquele outro?

F- Então não é melhor que as palavras se escrevam com toods os ff e rr ? Qual o resultado prático dessa reforma?

B- Trata-se de uma grande economia de tempo, tinta e papel.

F- Ouvi também dizer que a tal Academia quer que se escreva kiosque com q-u-i, qui...

B- Sim senhor! Kiosque e todas as palavras que eram escritas com k. Essa letra já não existe no alfabeto sem h: a Academia suprimiu-a com um q só.

F- Mas com os diabos! Isso não é simplificar, porque quiosque com q tem oito letras e com k tem apenas sete!

B- É para uniformizar com q. Uma vez que nós possuímos o q, que necessidade temos k?

F- Nada seu Isidro, eu sou franco: kiosque com quiosque com q-u-i, qui, para mim não é kiosque nem na casa do diabo!

B- É uma questão de hábito, desde que você se habitue... eu cá, estou entusiasmado sem h pela ortografia com f !

F- (Erguendo-se)Bom, não lhe pago a barba, porque só tenho aqui níkeis com k; aparecerei cquando tiver com q! (Sai)

B- Querem ver que este sujeito com j, aproveita a refroma ortográfica para ferrar-me o calo com um l só, e pregar-me uma pessa com dois ss?



Martins Penna

(1815-1848)



A reflexão sobre teatro sugerida por Erica Montanheiro é do verdadeiro iniciador do gênero cômico no Brasil. Famoso por peças como "O Noviço" e "Juiz de Paz na Roça" ele, ainda no século XIX, toca neste trecho em uma questão que, penso, até hoje está presente entre nós:


"Assim como há portugueses que esperam por D. Sebastião, ingleses por Artur, crentes pelo Messias, renegados pelo Anti-Cristo, nós também esperamos pelo reformulador do nosso teatro. São crenças, e com elas morreremos, legando-as a nossos filhos."


José Celso Martinez Correa

(1937 - 2023)



Segue a citação de um trecho de texto do diretor José Celso Martinez Correa, líder do teatro Oficina de São Paulo, criador de alguns dos momentos mais brilhantes de nosso teatro, como as montagens de "O rei da vela", de Oswald, "Vida de Galileu", de Brecht e "Bacantes", de Eurípedes. De resto, penso, Zé Celso dispensa apresentações. Pois aí vai a reflexão, no inconfundível estilo de seu autor:


In: "Futuro da dramaturgia depende de ´bacantes`" (Estadão, Caderno 2 de 7/10/95)


"Teatro, como diz tia Oscar Wilde, dá em sociedades nobres. Quer dizer, é filho de uma dramaturgia da sociedade que coloca no centro a importância de estar vivo e ser mortal, do "é hoje só, amanhã não tem mais". Assim foi no século de Péricles que deu tragédia grega, no de Elizabeth, Shakespeare, no da vontade de poder descolonizadora tenenista ou varguista (sei lá como chamar isto que hoje é maldição do stalinismo liberal) deu a antropofagia, Villa-Lobos, Bidu Saião, Oswald. No desenvolventismo, JK deu Nelson, Cacilda, bossa, cinema novo, no aqui agora do tempo das multidões jovens dos anos 60, jorrou tropicalismo, música, cinema, teatro, política, artes plásticas, Plinio Marcos e Cacilda Becker de nova Antígona Chanel no teatro da agitação política de 68.

Nossa época de aparência, repito: aparência, pouco nobre e muito pobre, onde pra poder qualquer coisa, como sobre viver, por exemplo e não ser pra sempre matematicamente "cortado", somos convidados a viver fuçando, lambendo, babando, o capital especulativo, empregado da abstração economicista. Temos que tagarelar nas TVs e colunas para garantir a miséria social e dar vida a "ela", a moeda, a "real" que se recusa a virar matéria-prima concreta, investimento produtivo, comida devorável, esterco."


João Guimarães Rosa

(1908-1967)




Duas palavrinhas sobre o trecho a seguir: reflexão, de fato, não é. Mas como Guimarães Rosa não precisa mostrar que está pensando pra fazer a gente pensar, resolvi selecionar a passagem. Sobre Guimarães, não vou dizer nada além que nunca foi voltado ao teatro, pois não quero subestimar os conhecimentos de ninguém. No entanto, mesmo não sendo Guimarães um homem de teatro, me lembrei que no conto "Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo" havia um diálogo que valia a citação no contexto destes posts. Em princípio, é apenas para se divertir, mas com alguma atenção, dá pra ir além, pois a passagem é genial. Trata-se de um diálogo sobre um certo "teatrinho" entre Laio, dito Lalino, o mais preguiçoso, malandro e pedante dentre um grupo de trabalhadores que constróem uma estrada e seu Marra, o chefe dos trabalhadores:


In: "Sagarana"


"Seu Marra tem noção de hierarquia e tacto suficiente. Começa:

- Olha, seu Laio, eu lhe chamei, para lhe aconselhar. A coisa assim não vai!... Seu serviço precisa de render...

- Pois, hoje, eu estou com uma coragem mesmo doida de trabalhar, seu Marrinha!...

- É bom... Carece de tomar jeito!... O senhor é um rapaz inteligente, de boa figura... Precisa de dar exemplo aos outros... Eu cá, palavra que até gosto de gente assim, que sabe conversar... que tem rompante... Até servia para fazer o papel do moço-que-acaba-casando, no teatro...

Seu Marra foi muito displicente no final. Deu a deixa, e agora olha para o matinho lá longe, esperando réplica.

Mas não pega. Não pega, porque, se bem que Lalino esteja cansado de saber o que é que o outro deseja, não o pode atender: do "Visconde Sedutor" mal conhece o título, ouvido em qualquer parte.

- Qual, isso é bondade sua, seu Marrinha... São seus olhos melhores...

- Não. Eu sou muito franco... Quando falo que é, é porque é mesmo...

(Pausa)... Quem sabe, a gente podia representar esse drama, hem seu Laio?...

Como é que chama mesmo?... "O Visconde Sedutor"... Foi o que você disse, não foi?

- Isso mesmo, seu Marrinha.

Definição, amável mas enérgica:

- Bem, seu Laio. Vamos sentar aqui nestas pedras e você vai me contar a peça.

Agora não tem outro jeito. Mas Lalino não se aperta: há atualmente nos seus miolos uma circunvoluçãozinha qualquer, com vapor solto e freios frouxos, e tanto melhor.

- O primeiro ato, é assim, seu Marrinha: quando levanta o pano, é uma casa de mulheres. O Visconde, mais os companheiros, estão bebendo junto com elas, apreciando música, dançando... Tem umas vinte, todas bonitas, umas vestidas de luxo, outras assim... sem roupa nenhuma quase...

- Tu está louco, seu Laio!?... Onde que já se viu esse despropósito?!... Até o povo jogava pedra e dava tiro em cima!... Nem o subdelegado não deixava a gente aparecer com isso em palco... E as famílias, homem? Eu quero é levar peça para famílias... Você não estará inventando: Onde foi que tu viu isso?

- Ora, seu Marrinha, pois onde é que havia de ser?!... No Rio de Janeiro! Na capital... Isso é teatro de gente escovada...

- Mas, você não disse, antes, que tinha sido companhia, lá no Bagre?

- Cabeça ruim minha. Depois me alembrei... No Bagre eu vi foi a "Vingança do Bastardo"... Sabe? Um rapaz rico que descobriu que a ...

- Espera! Espera, homem... Vamos devagar com o terço. Primeiro o "Visconde Sedutor". Acaba de contar.

- Bem, as mulheres são francesas, espanholas, italianas, e tudo, falando estrangeirado, fumando cigarros...

- Mas, seu Laio! Onde é que a gente vai arranjar mulher aqui para representar isso?... De que jeito?!

- Ora, a gente manda vir umas raparigas daí de perto...

- Deus me livre!

- Ou então, seu Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher...

Fica até bom... No teatro que seu Vigário arranjou, quando levaram a ...

- Aquilo nem foi teatro! Vida de santo, bobagem! Bem, conta, conta seu Laio... Depois a gente vai ver.

- Bom, tem uma francesa mais bonita de todas, lourinha, com olhos azulzinhos, com vestido aberto nas costas... muito pintada, linda mesmo... que senta no colo do Visconde e faz festa no queixo dele... depois abraça e beija...

- Espera um pouco, seu Laio...

É o caminhão da empresa, que vem de volta. Parou."



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