segunda-feira, 5 de junho de 2023

O TEMPO DO TEMPLO E O TEMPLO DO MUNOD - A DRAMATURGIA DE CHICO DE ASSIS, por Isaias Edson Sidney

 


Tive a honra e o prazer de frequentar as aulas do Chico de Assis, no SEMDA – SEMINÁRIO DE DRAMATURGIA DO ARENA – durante muitos anos. Tudo o que sei de teatro devo a ele, assim como muitos de seus alunos. Como dramaturgo formado por suas ideias e teorias, escrevi várias peças (que estão todas no TRAPICHE DO DRAMATURGO, endereço no final deste artigo). Como escritor, sonhava escrever juntamente com o Chico de Assis um livro que contivesse toda a teoria que ele desenvolvida em sala de aula. Infelizmente, não consegui realizar esse intento.

Quando Chico morreu, pensei estar enterrada a ideia de colocar no papel, em formato de livro, tudo aquilo que aprendi durante as aulas no SEMDA. Então, um dia, recebi um convite do Marcio Boaro e a da Monica Rafael, meus amigos e também ex-alunos do Chico, da Companhia de Teatro OCAMORANA, para escrever um livro sobre a dramaturgia do mestre. A empreitada estaria dentro de um programa devidamente incentivado de resgate de sua obra. E o livro seria distribuído gratuitamente às companhias de teatro e a demais interessados.

Pensei em consultar e pedir anotações de amigos e colegas que, como eu, também frequentaram as aulas do SEMDA. Teria de enfrentar, possivelmente, centenas de páginas manuscritas. Também haveria um problema: conhecia muitas pessoas que têm anotações das aulas e correria o risco de deixar de fora gente que gostaria de colaborar. Enfim, seria uma tarefa demorada e arriscada. Que poderia atrasar o projeto.

Consultei minhas anotações e resolvi fazer um tour de force de memória e encarar sozinho a empreitada. Não pretendia esgotar tudo quanto ouvira e aprendera das aulas do Chico, pois isso daria um volume impossível de ser pago pelo incentivo dado ao projeto. Em conversas com Marcio e Monica, concluímos que teria de ser um manual com o essencial, com as ideias mais importantes que o mestre desenvolveu durante os anos de aula. E assim surgiu este livrinho:




Tenho a certeza de que consegui resumir de forma didática e clara os principais conceitos de sua dramaturgia, sem nenhuma pretensão de esgotar todas as ideias desenvolvidas pelo mestre. Espero e desejo sinceramente que contribua para que sua dramaturgia e sua obra não sejam esquecidas e que alguém com melhores e mais profundos conhecimentos do que eu possa, um dia, a partir dessa quase apostila, escrever uma obra mais completa e definitiva sobre a dramaturgia do Mestre CHICO DE ASSIS.






Trapiche do Dramaturgo:

segunda-feira, 21 de junho de 2021

BRUNA TESTI ESCREVEU: A CONSCIÊNCIA VIVA DO TEATRO DE BERTOLD BRECHT


A CONSCIÊNCIA VIVA DO TEATRO DE BERTOLT BRECHT




O Teatro Épico alcançou e despertou a massa, alterou fundamentalmente a função e o sentido social do teatro ao usá-lo como uma arma de conscientização e politização. Nas palavras de Brecht: é preciso estranhar tudo que tido como natural.

(Bertold Brecht collage by Papa Osmubal)


Você entra em um teatro, senta-se confortavelmente na poltrona mais bem posicionada diante do palco, tira o pacote de balas do bolso e se rende a uma despretensiosa imersão dramatúrgica. Ali, naquele ambiente, enquanto aprecia o cenário e os figurinos cuidadosamente valorizados sob a ribalta, você se pega dando risadas e até derramando uma ou outra lágrima, conforme a trama te convida, te seduz, te hipnotiza. Você olha para o palco como que fascinado pelo enredo, pela trilha sonora, pela meia luz que cria a atmosfera ideal. Uma obra de arte viva, capaz de te emocionar tanto mais do que a própria realidade, enquanto o mundo lá fora desmorona, enquanto o caos se alastra pelas ruas e a política torna-se desconcertante, você então busca a fuga, o refúgio, o escape, em uma entorpecente experiência artística.

Entorpecer, eis um dos mais relevantes objetivos do drama clássico. A função catártica do espetáculo já fora defendida por Aristóteles, em sua obra “Poética”, na delimitação da essência contida nas antigas tragédias gregas. Ao se deparar com o desfecho trágico do herói, o espectador é surpreendido com uma intensa descarga emocional, que lhe conduz à purificação de sua alma, seja por meio da compaixão ou pelo temor, ambos despertados por uma série de artifícios cenográficos, de ilusão e interpretação. Fundamento do drama clássico, o processo de envolvimento e identificação é ainda nos dias atuais o mais difundido por grande parte das dramaturgias, adotado pelo cinema e repercutido nas novelas e seriados contemporâneos.

Apesar de defendido pelos grandes blockbusters da indústria, em favor da manutenção de um aparelho teatral que trabalha em prol do entretenimento de uma massa privilegiada, a função entorpecente da dramaturgia pode ressonar problemática no que tange ao despertar da consciência e do olhar crítico do público. Não foram poucos os dramaturgos e teóricos que se dedicaram à elaboração de obras que buscavam solucionar os problemas ofertados pelo drama. Destaca-se aqui a Teoria do Drama Moderno, de Peter Szondi, livro escrito em 1954 no qual o estudioso desenvolveu de forma consistente as tentativas de superação do drama clássico, findando-se na emersão da forma épica do teatro. Deixando de lado o excesso de formalismo acadêmico, conceitos e o aspecto teleológico do processo histórico e social que resultou na reformulação da forma dramática, ergo neste artigo a bandeira em favor da nova proposta de experiências dramatúrgicas, que se consolidou por meio de um novo modelo de teatro épico, difundido pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Com a intenção aberta de propor uma dramaturgia não aristotélica, Brecht empreendeu um teatro político, com técnicas de afastamento e distanciamento, que impediam a identificação cega do público e mantinham a consciência viva da peça teatral. A quebra da ilusão, mais do que uma tentativa de superar o drama burguês, almejava retirar o domínio do aparelho teatral de uma classe burguesa dominadora e difundir o acesso ao público proletário, além de transformar a experiência teatral em um processo de reflexão, retirar o espectador da passividade extrema e conduzi-lo a uma postura ativa, tirá-lo da zona de conforto, e confrontá-lo ao contexto social dentro do qual se insere. Um teatro que torne a produtividade e a atividade consciente fontes dignas de diversão.

Imagina-se agora novamente entrando naquele mesmo teatro descrito no início deste texto.

Você entra no teatro, escolhe a sua poltrona, pega seu pacote de drops e se depara com um palco sem grandes artifícios, claramente iluminado, percebe a presença de cartazes, projeções de textos, uso de máscaras, figuras gigantescas, membros artificiais, deformidades… Nota um ator que vez ou outra se converte em narrador e personagens que se alternam entre indivíduos e coros. Você não consegue se contentar com a passividade amena, enquanto o contexto social no qual você está inserido parece se materializar ali, naquele palco, na sua frente. Personagens, outrora envolventes, se convertem em meros locais de enunciação. A realidade revela seu caos alarmante em meio ao coro que te convida a refletir. Você não está imerso, hipnotizado, nem tampouco entorpecido. Você está atento, sua consciência tão ávida quanto aquele espetáculo, seu olhar tão crítico quanto a denúncia explícita na fala do protagonista, que já se alternou como coadjuvante, narrador e até mesmo fez-se parte integrante do coro. Você está ali, consciente de sua função social, o teatro não é mais uma rota de fuga do caos que ocorre lá fora, mas ele é quem te convida a encarar o cenário caótico e, simultaneamente, a refletir sobre o seu papel e o seu potencial de transformar a realidade. Não é mais uma mera expressão artística entorpecente, é uma arena, um fórum, um palco de debates, um centro de reflexões e o confronto com possíveis soluções. Você sai do teatro transformado, com a mente ativa e com sede de mudança. O teatro cumpriu o seu papel.

O espectador do teatro épico é mais do que um mero espectador, ele é tratado como o protagonista de sua própria história. Um leitor marxista declarado, Bertolt Brecht utiliza-se do materialismo dialético defendido por Karl Marx para pautar o desenvolvimento formal de suas obras. Em linhas genéricas, materialismo dialético consiste na visão de que o homem ao mesmo tempo que é resultado da sociedade e de um processo histórico, é igualmente ele quem tem a capacidade de transformar a sociedade. O homem, no teatro de Brecht, é revelado tal qual um processo capaz de transformar-se e transformar o mundo; em oposição ao ser humano regido pelo destino fatalista da tragédia, contrariamente depende das condições históricas, mas também detém o poder de transformá-las. E é por meio do distanciamento e das técnicas anti-ilusionistas que o teatro épico brechtiano revela suas intenções. Porém, isso não significa que estamos diante de um teatro desagradável, hostil ou isento de prazeres. Além da proposta de um teatro de arena, transformador, Brecht propõe igualmente um espetáculo divertido e prazeroso ao público. O palco épico de Brecht é narrativo, faz do espectador um observador, mas atiça simultaneamente sua atividade, força-o a tomar decisões em face de novas e despertas concepções do mundo.

Brecht escreveu suas peças entre 1918 e 1955, viveu o período pós-Revolução Industrial, assim como sofreu a perseguição nazista na Amanha de Hitler e os efeitos da Segunda Guerra Mundial. O dramaturgo alemão usou de sua arte para mobilizar a população de sua época, para criar um legado de resistência, utilizando do despertar de uma consciência coletiva que represente o triunfo da razão contra a barbárie. Não foi por menos que Bertolt Brecht escreveu mais de cinquenta peças, sendo sua dramaturgia a segunda mais encenada da história do teatro mundial - ficando atrás somente de Shakespeare. E, ainda hoje, sua obra repercute nos palcos e nas telas, influenciando grandes nomes da dramaturgia internacional e nacional, como Augusto Boal e o teatro do oprimido.

Mais do que uma fonte de prazer e entretenimento a arte é um ato político, que permanece se fazendo essencial e urgente. Entre tantas manifestações artísticas, o teatro épico foi capaz de contagiar e despertar uma massa, alterando fundamentalmente a função e o sentido social do teatro, ao usá-lo como uma arma de conscientização e politização. Nas palavras de Brecht, é preciso estranhar tudo que tido como natural.

“Nós pedimos com insistência:/ Não digam nunca: isso é natural!/ Diante dos acontecimentos de cada dia./ Numa época em que reina a confusão/ Em que corre sangue,/ Em que se ordena a desordem,/ Em que o arbitrário tem força de lei,/ Em que a humanidade se desumaniza,/ Não digam nunca: isso é natural!” [Prólogo de “A Exceção e a Regra” de Bertolt Brecht]




BRUNA TESTI

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.


Fonte




quinta-feira, 23 de abril de 2020

MÁRCIO BOARO ESCREVEU: O ESPECTADOR ATIVO





O ESPECTADOR ATIVO

Lembro-me de um filme de 2003, hollywoodiano, com um enredo que me deixou surpreso. A história se passa na Idade Média e mostra um grupo (uma trupe de comediantes) que apresenta autos bíblicos pelo interior da Inglaterra. Quando o mentor da trupe morre, seu filho, o sucessor, conversa com os outros e decidem tentar algo novo, mas o quê? Estão em um vilarejo controlado por um barão, existe uma feira, algum comércio, mas a estrutura social é feudal. Conversam com os moradores, ficam sabendo de um crime e ouvem a versão oficial do ocorrido: um adolescente foi morto por uma mulher que era acusada de bruxaria. A trupe resolve encenar a esta história. Ao apresentá-la para o público, ficam surpresos, pois os moradores, ao verem a encenação, recusam a história oficial e começam a apontar os seus problemas. Os atores abandonam seu roteiro e passam a encenar o que está sendo narrado pelos moradores. Ao reunir as visões dos moradores, conclui-se que o adolescente foi morto pelo barão, que ele havia abusado do menino, inventado a história e culpado a pária do vilarejo. A população que assiste ao espetáculo se revolta e toma o castelo.

O filme retrata um momento em que a produção artística ajudou a questionar o meio social onde as pessoas estavam inseridas. A peça fez com que o público deixasse de ser consumidor; ao participar da produção, as pessoas deixaram de ser espectadoras e passaram a ser colaboradoras. O contraditório em minha experiência é que o público do cinema é espectador por definição passivo.

No século passado, o cinema, o rádio e a televisão fizeram o teatro se rever, buscar na sua raiz a sua reinvenção. Com a internet, a indústria cultural, que sempre se desenvolveu em sincronia com um mercado comprador, vive uma crise semelhante à que o teatro viveu durante o século XX. Vivemos um momento em que a indústria cultural passa pela transformação mais profunda, uma coisa que não parecia ser possível aconteceu, os meios de reprodução em grande escala das obras deixaram o Olimpo do grande capital e se aproximaram da população. Além disto, mesmo a produção de filmes pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha uma boa ideia, acesso a um celular, e à internet.

O que foi o motivo do teatro se rever há cem anos, continua a ser e se reafirma: o teatro é uma arte em que o espectador deve ser questionado e deixar a passividade por excelência, pela sua característica básica. Na presença do público durante a realização da obra, o questionamento se torna possível e desejável. Hoje temos acesso a custo baixo a quase qualquer obra cinematográfica, temos acesso a informações de todos os tipos, temos como produzir e divulgar vídeos rapidamente, as linguagens tendem a se transformar. O teatro que conhece sua própria história pode vir a ser uma legítima referência para se questionar o que está sendo proposto na obra durante sua realização e o público ter uma atitude ativa. Este tipo de teatro passa a ser necessário urgente.

Não vou falar das produções que insistem em querer disputar com a indústria cultural um jogo perdido, como dizia Brecht quando falava deste tipo de produções há quase 90 anos: “tem consequências tremendas, que não são suficientemente tidas em conta. Pensando possuir um aparelho que na realidade os possui, [os artistas de teatro] defendem um aparelho que já deixaram de controlar, que já deixou de ser, como ainda julgam, um meio para os produtores, para se tornar um meio contra os produtores”.

Se é possível que os coletivos teatrais renovem a sua linguagem com experiências multimídia, também é possível que os trabalhadores da indústria cultural aprendam com estes coletivos as formas de se organizar para produzir obras que contemplem a participação crítica dos espectadores, pois os meios técnicos estão totalmente disponíveis. Se o cinema apresenta obras acabadas, a internet já demonstrou que a televisão, como o rádio, podem ser veículos de duas mãos. Ao teatro cabe mergulhar em sua história e exercitar com o público a sua capacidade de questionar, de interferir na obra e deixar de considerar natural aquilo que lhe é apresentado. Os trabalhadores dos demais meios de produção cultural tem muito o que aprender com os coletivos teatrais.

segunda-feira, 30 de março de 2020

CÉLIA ARNS DE MIRANDA ESCREVEU: AS CONTROVÉRSIAS RACIAIS EM OTELO DE WILLIAM SHAKESPEARE



 Otelo e Desdêmona por Muñoz Degrain - 1881



AS CONTROVÉRSIAS RACIAIS EM OTELO DE WILLIAM SHAKESPEARE


Célia Arns de Miranda[1]

If [Othello] did not begin as a play about race,
then its history has made it one.
Ben Okri

Tem-se a impressão que a tragédia Otelo[2], escrita por William Shakespeare, parece estar cada vez mais vinculada aos tempos atuais. Por se tratar de um enredo que expõe temas como racismo, misoginia, miscigenação, identidade e choque culturais, conflito sexual e violência doméstica, esta tragédia escrita no início do século XVII torna-se uma misteriosa presciência do nosso mundo. As questões raciais que são expostas abertamente dentro da peça ressoam com o racismo que é vivenciado fora dela. Janet Suzman (1995, p. 279) menciona que é como se Shakespeare estivesse reproduzindo a teoria do regime de segregação racial da África do Sul quatro séculos antes que esta orientação política fosse formulada.

Em 1987, Ben Okri[3] (1987, apud HANKEY, 2005, p. 2) relata que ele estava sentado em um teatro londrino assistindo Ben Kingsley como Otelo e David Suchet como Iago numa produção da Royal Shakespeare Company. Ao perceber que ele era a única pessoa de pele negra na audiência, ele foi tomado por um sentimento de empatia por Otelo, outro homem negro isolado num mundo de brancos. Ele percebeu que incomoda ver Otelo como um homem negro no palco. O ressentimento de Okri está relacionado com a sua convicção de que nenhuma pessoa branca no auditório estava se sentindo da mesma forma que ele. De acordo com o seu ponto de vista, vários séculos já se passaram com Otelo assassinando Desdêmona e se suicidando no palco sem que alguma mudança significativa ocorresse em relação às pessoas negras. Ele sabe que esse fato não poderia ser diferente, ou seja, como poderiam pessoas brancas se imaginarem na ‘pele’ de Otelo? Logicamente, essa questão está sendo levantada por uma perspectiva política pós-colonial. A situação a que ele se refere não é pessoal ou moral, mas está ligada ao lugar que o homem negro ocupa na história: a cor de Otelo, a diferença, o fato de ele ser o outro.

Tem havido sempre muita discussão em torno da cor da pele de Otelo. Samuel Taylor Coleridge[4] (1969, p. 187), por exemplo, pressupunha, equivocadamente, que Shakespeare conhecia homens negros apenas como escravos. Sabe-se que na década de 1560, Sir John Hawkins e outros mais trouxeram um grande número de escravos da África Ocidental[5] para a Inglaterra – havia tantos escravos que a rainha Elisabete I aprovou dois decretos de deportação a partir do fundamento de que eles estavam consumindo os alimentos que eram destinados ao povo inglês. Por outro lado, sabe-se, igualmente, que os contos populares de viajantes daquela época descreviam as sociedades africanas e pessoas de diferentes tipos e cores, incluindo reis, nobres, eruditos e mercadores. Por esse motivo, um homem de ‘sangre azul’ que também fosse negro não significaria nada de extraordinário para os ingleses, muito menos, se ele fizesse parte do enredo de um espetáculo teatral (HANKEY, 2005, p. 9-10).

Dentro desta polêmica, é relevante mencionar o fato de que para os ingleses, tanto na Idade Média quanto no período elisabetano e jaimesco, um Mouro seria sempre de cor negra. Entretanto, E. A. J. Honigmann (2001, p. 14) reitera que, independentemente do que um Mouro possa ter representado para os ingleses antes de 1600, é indispensável que se tenha em mente que Shakespeare, como todos os londrinos, tiveram a oportunidade de conviver com os mulçumanos do séquito do embaixador Mouro (representante da região costeira da Barbaria[6]) que permaneceu em Londres por um período de seis meses, a partir de agosto de 1600. É de se esperar que este séquito, constituído por pessoas oriundas de uma cultura completamente diferente da inglesa, tanto no que se refere à aparência física quanto aos costumes, hábitos e maneira de se vestir, tenha causado um verdadeiro frisson em Londres. Inclusive, a companhia teatral, os Homens do Lorde Camerlengo, da qual Shakespeare participava, representou uma peça na corte antes da partida do embaixador (HONIGMANN, 2001, p. 2). Vale dizer que estes Mouros, oriundos região da Barbaria, eram fulvos, ou seja, de cor amarelo-tostada, em vez de serem negros (2001, p. 14). Percebe-se, portanto, que as primeiras audiências de Otelo tinham informações suficientes para poderem comparar o Mouro de Shakespeare, seja com os tão comentados estrangeiros (indivíduos amorenados), seja com o seu referencial histórico-cultural (indivíduos negros).

Não restam dúvidas de que Shakespeare tinha conhecimento de que nem todos os Mouros deveriam ser negros. Em Titus Andronicus, o Mouro Aaron é descrito como um Mouro negro retinto (coal-black Moor) que tem um cabelo lanoso e encaracolado (fleece and wooly hair) e um filho recém-nascido que é visto, carinhosamente, por ele como sendo um escravo beiçudo (thick lipp’d slave)[7]. Tendo-se essas referências em mãos, é possível afirmar que Shakespeare tenha imaginado o Mouro Aaron como uma pessoa negra. Entretanto, quando as indicações cênicas que anunciam, em O mercador de Veneza, a entrada do príncipe de Marrocos, como “um Mouro fulvo, vestido todo de branco” (II, i), tem-se a prova definitiva de que Shakespeare, realmente, sabia que existem nuances na cor da pele entre os Mouros, ou seja, que aqueles oriundos do Norte da África poderiam ser fulvos, em vez de negros. A partir dessas colocações, se voltarmos a nos referir ao Otelo, não é possível relevar o fato de que esta tragédia foi escrita, provavelmente, em 1603-1604, ou seja, um curto período de tempo após o embaixador Mouro, representante da Barbaria, partir de Londres (1601).

Percebe-se que existem relações entre este fato e algumas das falas em Otelo. Iago, por exemplo, ao denunciar para Brabantio a fuga de Otelo com Desdêmona, insulta o Mouro fazendo uso de uma linguagem extremamente ofensiva: “[O senhor] terá sua filha coberta por um garanhão da Barbaria;
terá netos que relincham, terá corcéis por primos e ginetes por consangüíneos.” (I, i, 110) (SHAKESPEARE, 1999, p. 18)[8]. Em outro trecho da peça, fazendo uso de estratégias mesquinhas e egoístas, Iago, ao tentar convencer Rodrigo de que suas chances para conquistar o amor de Desdêmona continuavam boas, faz novamente uma referência indireta à procedência de Otelo e, consequentemente, à cor de sua pele: “Se uma cerimônia e um juramento fraco entre um bárbaro errante (an erring barbarian) e uma veneziana superrequintada não forem demais para a minha esperteza unida a todas as tribos do inferno, hás de gozá-la.” (I, iii, 356; p. 44). Pode-se dizer que, a partir desses comentários, a questão acerca da cor da pele de Otelo esteja resolvida? De acordo com Honigmann (2001, p. 15), não inteiramente. Nesse caso, como poderia ser explicado o fato de que muitos personagens descrevem Otelo como beiçudo, negro e que ele próprio, na sua angústia para compreender a possível rejeição de Desdêmona, diz: “Quiçá por eu ser preto?” (III, iii; p. 101). Novamente, essas referências não elucidam a questão porque a palavra black (preto/negro) era frequentemente usada de uma maneira mais vaga para as raças não europeias, um pouco mais escuras do que muitos europeus[9] (MURRAY, 1977).

Percebe-se, entretanto, que essa distinção exata entre a pele escura e a tez amorenada não é significativa, tanto que grande parte das montagens opta por representar Otelo através de uma caracterização que pode pender tanto para um negro retinto como para um norte-africano amorenado. Na realidade, o que importa é a percepção de que Otelo, apesar de estar, aparentemente, integrado na cultura veneziana e de ser admirado e requisitado por seus dotes na guerra, essa mesma sociedade prima por considerá-lo como o outro, aquele que pertence a uma cultura e raça diferentes, aquele que não tem o direito de conquistar uma donzela branca e requintada porque ele é o bárbaro, o diferente, aquele que, como indivíduo, é banido daquela sociedade. É, por esse motivo, que a questão da identidade cultural[10] constitui-se numa vertente prioritária nos estudos shakespearianos.

Apesar da cor da pele de Otelo ser, hoje em dia, menos controversa, o seu significado no início da cultura moderna ainda continua a sê-lo. Existe uma divergência quanto ao fato da negritude ser considerada, naquele tempo, uma qualidade superficial ou um indício de características internas, que não poderiam ser alteradas. Muitos críticos sugerem que a tez escura era vista como um sinal de degradação, entretanto, outros argumentam que ela começou a ser vista negativamente apenas mais tarde, como um resultado da dominação colonial dos africanos. Uma outra questão que também tem sido levantada é a de que o termo ‘raça’ está carregado de um significado restritivo apenas nos dias de hoje, uma vez que no Renascimento os conflitos mais pungentes entre os povos europeus cristãos e os demais, estavam, em grande parte, vinculados com a religião. Inclusive, as palavras como ‘xenofobia’, ‘etnicismo’, ‘nação’ foram criadas apenas mais tarde, e outras,como ‘raça’ e ‘racismo’ tinham um significado diferente do de hoje[11] (LOOMBA, 2002, p. 2). Dentro desse contexto, Honigmann (2001, p. 27) menciona que a principal fonte da tragédia Otelo, Hecatommithi (1565), escrita por Giraldi Cinthio[12], deve ter despertado a atenção de Shakespeare porque este enredo que também retrata um Mouro que se casou com uma esposa branca e que, consequentemente, despertou o rancor implacável no seu alferes, permitiu Shakespeare focar um problema social que estava sendo deflagrado naquele dado momento - o racismo - ou seja, a reação dos europeus em face daquele que é considerado o outro. Sidney Kaplan é bastante enfático quando ele reitera que Shakespeare teve claramente a intenção de que Otelo chamasse a atenção para os problemas de raça. Ele menciona que Shakespeare teve um discernimento raro em relação às motivações humanas e criou estedrama magnífico como um manifesto contra o racismo (BENJAMIN, 1997, p. 96).[13] Na realidade, Julie Hankey (2005, p. 10) constata que o teatro já apresentou Mouros morenos ou brancos, como o Príncipe de Marrocos em o Mercador de Veneza e o Mouro de tez clara Abdilmalec em The Battle of Alcazar. Entretanto, grande parte dos Mouros que protagonizaram no palco eram diabólicos e a cor da pele denunciava a sua índole. No seu ensaio,Othello and colour prejudice (Otelo e o preconceito da cor), G. K. Hunter(1978, p.41) mostra que na literatura religiosa, nos romances medievais, na tradição pictórica, mascaradas da corte e procissões, todos os demônios, os pagãos, os maus espíritos, os Mouros, os Turcos eram negros. A despeito de também haver vilões brancos, esse fato não diminuía a força da cor escura ser vista como um símbolo.

O seu significado primeiro era moral e religioso em vez de racial ou geográfico. Percebe-se que em Otelo Shakespeare subverte os estereótipos raciais de seu tempo. Apesar do general Mouro ser descrito por adjetivos bastante pejorativos como ‘beiçudo’, ‘demo’, ‘lascivo mouro’, ‘estranho errante’, ‘bode velho e preto’, os leitores/espectadores constatam, no decorrer da peça, que o personagem diabólico não é o Otelo negro, mas o branco Iago. É interessante observar que praticamente toda a linguagem de cunho racista é expressa pelos personagens que apresentam uma falha de caráter ou que são fracos – Rodrigo é visto como um bobo útil; Iago, como um vilão; e Brabantio,como um velho tolo. Este é mais um indício de que Shakespeare escreveu Otelo como um manifesto intencional contra o racismo. (BENJAMIN, 1997, p. 96).

Em nenhuma outra tragédia Shakespeare foi tão cuidadoso, como em Otelo, ao caracterizar o protagonista como uma pessoa nobre e respeitada. A desonestidade e a capacidade de intriga de Iago, como também o propósito do alferes em retratar Otelo da forma mais desfavorável possível, têm o poder de ressaltar, ainda mais, a alta categoria de Otelo (SHAKESPEARE,1999, p. 7). Torna-se claro na peça que Otelo é considerado indispensável pelo governo veneziano por sua destreza e habilidade na guerra. E, também, torna-se claro, que é por esse motivo, que os venezianos o toleram, que toleram o seu casamento com Desdêmona. Tal como já foi mencionado anteriormente, há um descompasso entre o reconhecimento de Otelo como o grande general e de seu reconhecimento como um cidadão, ou seja, existe um conflito evidente na peça entre os interesses do estado e os interesses do indivíduo. Esse conflito, por sua vez, está entrelaçado com o conflito interracial e intercultural. Quando Brabantio, por exemplo, vai ao encontro de Otelo, convicto de que sua filha Desdêmona tinha sido conquistada pelo Mouro através de ‘sórdidas magias’, Otelo é acusado por ele de ser um estrangeiro e um negro: “Se uma jovem feliz, suave e bela, // E tão infensa às bodas que fugiu // À corte dos mais ricos dentre os nossos, // Haveria jamais (pra ser chacota) // De fugir da tutela pro negrume // De um peito como o teu, que só traz susto.” (I, ii, p. 26). Shakespeare transformou o código da cor em uma das questões principais da tragédia: os múltiplos exemplos que podem ser facilmente detectados na peça denunciam uma quase obsessão pela exploração desse tema.[14] Entretanto, vale lembrar que Shakespeare explora em Otelo, como em todas as suas peças, uma multiplicidade de temas, o que não deixa de ser um reflexo de sua profunda compreensão da complexidade do comportamento humano.

Barbara Heliodora em seu livro Falando de Shakespeare (1997, p. 275) referenda a asserção de H. B. Charlton de que a tragédia de Otelo: o Mouro de Veneza “nasce do casamento de duas pessoas de origens e formações vastamente diversas.”, ou seja, do casamento “entre um bárbaro errante e uma veneziana super-requintada.” (I, iii, p. 44), tal como as palavras zombeteiras de Iago destacam na peça. Esta tragédia, ao colocar em foco as controvérsias geradas pelo confronto entre culturas, raças, ideologias, gêneros, entre o público e o privado, entre os colonizadores e os colonizados, flagra de uma forma implícita, entretanto, contundente, o que têm caracterizado a experiência diaspórica14 da humanidade que não está mais circunscrita ao processo da aventura euroimperial desde 1492, mas que se tornou uma condição arquetípica da modernidade tardia (HALL, 2008, p. 393). Percebe-se, portanto, que a leitura de Otelo não pode se restringir a uma discussão em torno das paixões que envolvem os eternos conflitos humanos como a traição, a infidelidade, a deslealdade que acabam detonando o fim trágico do casal protagonista. Este seria o “nível explícito” de significação. Pode-se dizer que nessa peça existem dois níveis de significação: uma significação apresentada ou evidente e a significação subjacente que .“deixa entrever toda uma perspectiva inexpressa do discurso.” (PAVIS, 1999, p. 368) ou que se expressa por certos acontecimentos ou discursos subordinados e subliminares – pelo “nível implícito.” de significação (FRYE, 1992, p. 15).

Shakespeare demonstra definitivamente um grande interesse pelo charme exótico do sexo inter-racial. Torna-se curiosa a constatação de que a síndrome da atração-repulsa não se resume às relações entre Otelo e Desdêmona (Otelo), Aaron e Tamora (Titus Andronicus) e Caliban e Miranda (A tempestade), mas ela caracteriza a experiência dos negros na civilização Ocidental, inclusive quando nos reportamos às encenações dessas peças por atores negros. Ou seja, referindo-nos, especificamente, à representação do personagem Otelo por atores negros, qual tem sido a reação do público e dos críticos? A afirmação de que o papel de Otelo só foi representado por atores negros nas últimas décadas demonstra uma ignorância da brilhante carreira de Ira Aldridge. Ele foi o primeiro grande ator negro a representar Otelo e isso ocorreu na década de 1830. Entretanto, é curioso que esse ator, apesar de ser um americano nativo, nascido e educado em Nova Iorque, e que tenha sido aclamado na Grã-Bretanha e em toda a Europa, especialmente na Rússia, ele nunca pode aparecer como Otelo ou em qualquer outro papel em seu próprio país. Na Europa, por outro lado, além de representar Otelo, ele também representou papéis de personagens de tez branca ( ‘white’ roles) como Ricardo III, Hamlet, Macbeth, Lear (KAUL, 1997, p. 12). Aldridge recebeu treinamento no African Grove Theater, uma companhia formada apenas por atores negros em Greenwich Village. Shakespeare era, muitas vezes, encenado pela companhia. Entretanto, depois de serem vaiados, ridicularizados e ameaçados com violência física por objetos voadores que eram atirados por desordeiros racistas brancos que se sentiam ultrajados por negros se atreverem a representar o bardo, a companhia foi fechada e Aldridge partiu para a Europa em busca de novas oportunidades no teatro. Após estudar, por uns poucos anos, na Universidade de Edinburgh (Escócia), ele iniciou a sua carreira nos palcos ingleses. Pouco tempo depois, ele já estava sendo aclamado como o mais requintado Otelo do século XIX (BENJAMIN, 1997, p. 99). No período de 1831-32, Aldridge alcançou um grande sucesso em Dublin (Teatre Royal): um ator negro ‘naturalmente’ representando Otelo – e, na realidade, dando uma ênfase à sua negritude em diversas cenas durante a representação - parece ter impressionado a audiência de imediato como um evento teatral bastante significativo. Tal fato foi exaltado como sendo a novidade mais singular no Teatro do Mundo, isto é, um “ator de cor” (MARSHALL; STOCK[15] 1958, apud KAUL, 1997, p. 12). Por volta de 1850, Aldridge tinha amadurecido de tal maneira no papel e alcançado uma perfeição artística tão grande que um crítico em Viena declarou que o próprio Shakespeare não teria sonhado para Otelo uma interpretação tão perfeita. É interessante observar que no dia 03 de janeiro de 1853, enquanto Aldridge dava início a uma temporada na Casa de Ópera Italiana (Italian Opera House) em Berlin como Otelo, os Estados Unidos estavam debatendo acaloradamente a escravidão que estava levando o país a uma sangrenta guerra civil (1861-1865).

O alto nível de representação que havia sido estabelecido por Aldridge no século XIX teve continuidade com a atuação de Paul Robeson no século XX. Robeson foi um verdadeiro homem afro-americano da Renascença: além de ter sido um atleta de projeção e um pesquisador, ele representou um Otelo cuja atuação foi marcante. Com atributos físicos pelos quais foi celebrado (alto, estrutura bem constituída), ele também era considerado muito inteligente, graduou-se em Direito, cantava em vinte e quatro línguas, tinha uma voz de baixo, melodiosa e educada, que lhe rendeu um tom profundo e grave no palco. Em 1930, quando ele se apresentou pela primeira vez como Otelo nos palcos britânicos, quase um século depois de Aldridge, a atriz que contracenou com ele como Desdêmona, foi a britânica Peggy Ashcroft. Apesar de estar recentemente casada, ela se apaixonou perdidamente por Robeson, que também era casado. Tem como afirmar que “qualquer semelhança com o enredo é mera coincidência?”. Tendo esse
exemplo real em mãos, não há como não nos referirmos à controvérsia levantada por Oscar Wilde quando ele propôs a inversão do conceito aristotélico de realidade artística – “a arte imita a vida” ou é “a vida que imita a arte?”[16] Cinquenta anos mais tarde, Ashcroft confessou que o que aconteceu com ela e Paul foi inevitável. E, ela ainda acrescentou, “Como poderia alguém não se apaixonar naquela situação e por aquele homem?”.[17] (BENJAMIN, 1997, p. 101).

Depois do sucesso de público e de crítica nos palcos ingleses, surgiu uma conversa sobre a possibilidade da produção ser levada para os Estados Unidos em 1931. Robeson falou para o New York Times que ele não se importaria de representar aquelas cenas em algumas partes dos Estados Unidos. Entretanto, a audiência se tornaria ríspida; na realidade, ele considerava que essa empreitada seria muito perigosa. No ambiente racista de seu tempo, Robeson sempre teve muita prudência ao contracenar cenas românticas com uma atriz branca no palco, mesmo na Inglaterra. Apesar das críticas continuarem muito positivas na Inglaterra, Robeson mantinha o seu ceticismo quanto à reação das audiências americanas de cor branca, particularmente, do sexo masculino, ao testemunharem um herói Mouro cortejando uma bonita atriz branca. Provavelmente, esse é o motivo que impediu muitos diretores de escalarem atrizes como Avery Brooks e Meryl Streep, ou outras atrizes, comparavelmente talentosas, para comporem pares românticos como Otelo e Desdêmona, ou Aaron e Tamora. Finalmente, em 1943, doze anos depois de sua estreia em Londres, Robeson teve a sua chance para representar Otelo na sua terra natal. A crítica foi extremamente favorável: Burton Rascoe mencionou que ele nunca em sua vida tinha visto uma audiência tão quieta, tão tensa, tão fascinada com o que estava acontecendo. O impacto, como muitos críticos salientaram foi pelo fato de um ator negro estar representando o papel principal. O crítico da Variety resumiu a reação geral quando declarou que depois da atuação de Robeson, nenhum ator branco deveria ousar representar Otelo (BENJAMIN, 1997, p. 102).

Os comentários, tanto por críticos europeus quanto americanos, refletem uma questão central. A tensão dramática em Otelo não se limita ao fato de um homem negro poderoso e uma mulher branca bonita estarem juntos no palco como amantes, mas está também vinculada ao fato de atores negros relacionarem-se emocionalmente com o papel de tal forma que seria inatingível para os atores brancos[18]. Tal como o solitário personagem negro na peça, a situação do ator negro no elenco aproxima-se com a situação de Otelo na sociedade veneziana. E, devido à persistência, de maneira geral, do racismo no mundo, o ator negro numa noite de estreia sente a mesma ambivalência e hostilidade, real ou imaginada, que Otelo experimentou em Veneza. Além desses fatores, atores negros mantêm uma relação muito próxima com os Mouros shakespearianos que, como eles, estão tentando negociar o seu espaço dentro de uma sociedade hostil branca. Robeson exemplifica dizendo que ao interpretar o papel de Otelo, ele sempre ouvia, cuidadosamente, o que os diretores e as autoridades shakespearianas tinham a lhe dizer, entretanto, em muitos casos, o Otelo deles não pensava e nem agia e reagia como ele imaginava que um grande soldado negro deveria fazer e, nesses casos, ele representava de acordo com o seu modo de ver. (BENJAMIN, 1977, p. 103).

O teatro shakespeariano, muito apropriadamente chamado ‘O Globo’ (The Globe), exerceu uma enorme influência na formação da opinião pública dos ingleses sobre o mundo. Por volta de 1600, em torno de 18.000 a 20.000 espectadores foram aos teatros londrinos a cada semana, o que fundamenta o fato de que os ingleses formaram a imagem do que o mundo estrangeiro representava a partir do que lhes era passado pelo palco e não através dos livros ou por interações com a vida real (LOOMBA, 2002, p. 7-8). Pode-se afirmar que as peças de Shakespeare têm sido, desde então, um instrumento poderoso entre gerações e culturas, ou seja, um meio para transmitir e moldar ideias, inclusive, sobre as questões relacionadas ao colonialismo e raça. Entretanto, acrescente-se o fato de que, apesar de Shakespeare exercer uma ascendência sobre as concepções vindouras, as respostas dos leitores/espectadores ao conteúdo de suas peças estão intimamente ligadas às tensões raciais experimentadas por eles em seus próprios contextos. E é de se esperar que essas visões e experiências sejam, não poucas vezes, diametralmente divergentes. Para Octavio Mannoni (1990), por exemplo, a inferioridade de Caliban em relação à Próspero, em A tempestade de William Shakespeare, confirma que há uma desigualdade natural entre os seres humanos, fato que justifica o colonialismo. Por outro lado, Aimé Césaire (2000) menciona que a peça denuncia as misérias da opressão colonial. Peças teatrais como Otelo e A tempestade expõem problemas raciais para uma audiência cujas vidas têm sido e continuam a ser enormemente afetadas pela questão racial. Ania Loomba (2002, p. 5) menciona que é tão necessário confrontar as mais diversas e longas histórias sobre raça quanto é necessário mostrar que o pensamento racial tem uma história que não é nem fixa e nem universal.




[1] Professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal do Paraná em estágio Pós-doutoral na UFSC, sob patrocínio do CNPQ de setembro de 2008 a fevereiro de 2009.
[2] Aproximadamente, entre 1599 e 1608, Shakespeare escreveu uma série de tragédias, na seguinte provável ordem: Júlio César, Hamlet, Otelo, Rei Lear, Macbeth, Antônio e Cleópatra. Por um consenso universal, essas tragédias estabelecem o dramaturgo inglês numa posição privilegiada dentre os dramaturgos do mundo, quando não poucos críticos o colocam em primeiro lugar. As quatro tragédias, a partir de Hamlet são consideradas o auge de sua produção dramatúrgica (HONIGMANN, 2001, p. 1).
[3] OKRI, Ben. Meditations on Othello, West Africa, 23 and 30 March 1987. p. 562-564; 618-619.
[4] S. T. Coleridge proferiu uma palestra sobre a tragédia Otelo de Shakespeare na qual ele reiterou que a convenção já estabelecida de um Otelo negro é resultante do erro de confundir os epítetos usados pelos personagens como se fossem verdadeiramente descritivos. Nesse sentido, de acordo com o pensamento do poeta-crítico, o fato de Otelo ser chamado de negro, ou mesmo de beiçudo (I, i, 66) por Rodrigo, ou de bode velho e preto por Iago (I, i, 88) não quer dizer que Shakespeare tenha tido a intenção que Otelo fosse um negro genuíno (apud NEILL, 2006, p. 113).

[5] As questões relacionadas com as diferenças raciais e coloniais são centrais para a compreensão da cultura do Renascimento. A novelista Michelle Cliff menciona que ela estudou o Renascimento sem se dar conta que o comércio escravo começou naquele período e que havia escravos na Europa mesmo quando Miguelângelo estava pintando o teto da Capela Sistina (apud LOOMBA, 2002, p. 1).
[6] O embaixador Mouro que permaneceu, por seis meses, em Londres no início do século XVII era oriundo da região costeira da Barbaria (Barbary), situada no norte da África, entre o Egito e o Atlântico; essa região é ocupada, atualmente, por Marrocos, Argel, Tunis e Trípoli.
[7]  As três referências que estão sendo, parcialmente, citadas acima foram retiradas, respectivamente, III, ii, 78; II, iii, 34; IV, ii, 175 (Titus Andronicus).
[8] Todas as referências em português da tragédia Otelo, o Mouro de Veneza, escrita por Shakespeare, foram retiradas da tradução realizada por Barbara Heliodora (vide dados completos nas referências finais). Objetivando agilizar a transcrição dos trechos citados tomaremos como norma fazer
referência ao ato, cena e linha(s), seguidos apenas pelo número da página da referida tradução.
[9] De acordo com The Oxford English Dictionary, a palavra black era usada “loosely, to non-European races, little darker than many Europeans.”
[10] O racismo, a xenofobia, o preconceito, dentre outros aspectos, têm gerado confrontos étnico-sócio-culturais com desdobramentos múltiplos em diferentes contextos históricos: essa abordagem pode ser flagrada em A tempestade, O mercador de Veneza, Titus Andronicus e, logicamente, em Otelo.
[11] Loomba (2002, p. 3) reitera que ‘raça’ é uma categoria altamente maleável que, historicamente, tem sedesdobrado para reforçar hierarquias sociais já existentes e para criar novas.
[12] Hecatommithi, escrita por Giraldi de Cinthio, a partir da obra Decameron de Boccaccio, consiste numa coletânea de contos sobre diferentes espécies de relacionamentos amorosos. Depois de uma introdução (dez estórias), seguem-se dez séries, cada uma com dez estórias, nas quais o contador de estórias explica como maridos e esposas deveriam ser escolhidos. A terceira série escrita por Cinthio analisa, sob diversos aspectos, a infidelidade de maridos e esposas. Na sexta estória desta série, um marido descobre que suas esposa está cometendo adultério e vinga-se conspirando a sua morte .‘acidental.’. A sétima estória também trata da vingança de um marido (Capitão Mouro), casado com uma esposa veneziana, que é assassinada pelo suposto adultério (HONIGMANN, 2001, p. 368-370).
[13] Destacamos a seguir apenas algumas das inúmeras passagens na peça que ratificam o desenvolvimento da temática racial por Shakespeare. Percebe-se, por exemplo, que enquanto Iago vai trabalhando na sua montagem perversa para enredar Otelo, ele demonstra a sua aversão racista contra o general de todas as formas possíveis. Ele chega, inclusive, a levantar um brinde com Cássio “à saúde do negro Otelo.” (II, iii, p. 65). O próprio Otelo, ao ser persuadido por Iago de que fora enganado por sua esposa, tenta desvendar os motivos que possam ter levado Desdêmona à traição, fazendo também menção à cor de sua pele: “Quiçá por ser preto, // E faltem-me as artes da conversa // Dos cortesãos, ou por estar descendo // Para o vale dos anos.” (III, iii, p. 101). No decorrer da tragédia, Otelo também parece estar obcecado pela temática da cor: ele contrasta a negridão do suposto adultério de Desdêmona quando menciona que o nome de sua amada era tão claro quanto a castidade da deusa Diana, mas agora é tão negro quanto a tez de seu próprio rosto (III, iii, p. 107). Minutos antes do assassinato de Desdêmona, Otelo readquire a estatura de um herói trágico: apesar de estar à beira de um ato doloroso para ele, a sua linguagem recupera o equilíbrio que ele havia demonstrado no início da peça. Otelo, nos momentos derradeiros, não pode mais ser visto como uma pessoa que está simplesmente executando uma vingança em nome de sua honra, uma vez que ele acredita que o assassinato de Desdêmona seja um ato de justiça pública de acordo com o código de ética pagão. Nesse sentido, torna-se significativo o uso e repetição dos termos “É a causa, sim, a causa, minha ’alma, // Não a nomeio ante as castas estrelas: // É a causa; mas sangue não derramo, // Nem mancho sua pele, alva de neve // [...] // (Beija-a) // Hálito quente assim quase convence // A justiça a trair-se uma vez mais.” (V, ii, p. 172). Vê-se que, mais uma vez, Otelo faz menção à brancura da tez de Desdêmona cuja simples alusão de seu nome causaria uma dissonância diante da pureza e inocência das estrelas.
[14] “A diáspora constitui um trauma coletivo de um povo que voluntária ou involuntariamente foi banido de sua terra e, vivendo num lugar estranho, sente-se desenraizado de sua cultura e de seu lar.” (BONNICCI, 2005, p. 21)
[15]  MARSHALL, Herbert; STOCK, Mildred. Ira Aldridge: the negro tragedian. London: Oxford UP, 1958. p. 99
[16] As palavras faladas por Peggy Ashcroft em relação à sua paixão por Robeson são: “How could one not fall in love in such a situation with such a man?”.
[17] Oscar Wilde (1854-1900) em seu ensaio The decay of lying menciona como um de seus preceitos básicos que .“a Vida imita a Arte muito mais do que a Arte imita a Vida.”. Essa teoria que não havia sido ainda formulada tornou-se extremamente prolífera e lançou uma nova luz sobre a história da arte. Wilde considerava o movimento realista um suicídio literário, uma arte estéril, um fracasso total: as duas coisas que, no seu entender, um artista deveria evitar eram a modernidade da forma e a modernidade do conteúdo. Vale lembrar que quando Wilde se refere à modernidade ele, na realidade, está fazendo uma alusão ao Realismo que era o movimento literário em ascensão naquele dado momento. (WILDE, 1994. p. 51)
[18] Sidney Kaplan teve a oportunidade de assistir tanto Robeson quanto Olivier representando o personagem Otelo. Ele observa que a representação de Robeson provê o melhor argumento da razão pela qual mesmo o melhor dos atores brancos não poder representar este papel. Esse fato torna-se especialmente óbvio quando comparado à representação de Laurence Olivier que, de acordo com Kaplan, foi horrível. A única maneira que Olivier poderia conceituar o personagem seria como um louco (BENJAMIN, 1997, p. 104)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

MARIA REGINA CÂNDIDO ESCREVEU: O SABER MÁGICO DE MEDEIA




O Saber mágico de Medeia 

The Magical Knowledge of Medea 



Abstract 

The Medea is one the most remarkable and important imaginative works in all western literature. Medea is presented, initially as victim, but she is able to strike and pursue her revenge on a heroic homeric way. 

Resumo 

Medeia é um dos mais marcantes trabalhos de valor imaginativo da literatura ocidental. Medeia é apresentada, inicialmente, como vítima, mas, ela é capaz de lutar e perseguir a sua vingança como um herói homérico. 

(John William Waterhouse - Jason and Medea)

De acordo com Jean-Pierre Vernant mito se apresenta como um relato vindo de épocas passadas e nesse sentido, o relato mítico não resulta da invenção individual e nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória de uma sociedade (VERNANT, 2000: 12). Logo, para compreendermos o significado do mito de Medeia, temos a necessidade de interagir com a sociedade que o produziu. 

A tragédia Medeia, apresentada no teatro de Dionisos em 431 a C., nos remete às práticas da magia, aos sentimentos femininos e à condição social da mulher grega no período clássico. Este tema integra o que se convencionou denominar de História de Gênero tornando possível demonstrar que a história das mulheres podia ter suas próprias heroínas que atuaram mesmo em condição de subordinação à figura masculina. Elas souberam manipular o poder ao qual estavam submetidas atuando por lances, empregando táticas e subvertendo a ordem. 

Para apreendermos o lugar social da mulher na sociedade grega do período clássico devemos inseri-la em seu contexto social de produção (HILL, 1995: 21). Isto porque existe uma heterogeneidade de informação quando se busca referências sobre as mulheres na antiguidade, os dados variam dos poemas à prosa, do período arcaico ao clássico e de região. Embora haja uma diversidade de informação é possível estabelecer alguma generalização diante das inúmeras atribuições a elas destinadas como a procriação entre outras. Atribuições e responsabilidades assumidas em relação ao passados, presente e ao futuro de uma comunidade. Consideramos a possibilidade da construção da história das mulheres na atualidade e para atingir este fim, devemos compreender a sua atuação junto as sociedades do passado como a comunidade políade dos atenienses, buscando subsídios que nos possibilitem repensar a condição social da mulher no nosso tempo-presente. 

Retornando a abordagem do mito: compreendemos a narrativa mítica da sacerdotisa de Hécate como um registro de memória que nos traz fragmentos do passado dos gregos. A memorização de um mito se faz em forma de poesia como na epopeia homérica que atuou primeiro como poesia oral, composta e cantada diante de um público que a reproduziu por gerações, através da participação ativa dos aedos - poetas cantadores, inspirados pela divindade denominada de Mnemosýne. Somente mais tarde é que a escrita alcança o mito resultando no estabelecimento de uma vertente oficial definida pelo texto escrito. Entretanto, devemos ressaltar que a narrativa mítica diferencia-se do texto poético pelo fato de comportar variantes, versões distintas, ou seja, permite ao narrador acrescentar e modificar a narrativa de acordo com o público ao qual se destinava (VERNANT, 2000: 13). 

O poeta, ao compor a sua dramaturgia, deixou vestígios de acontecimentos do passado dos quais foi testemunha. Para nós, o passado tornou-se um país estrangeiro no qual tudo é feito de modo diferente. Entretanto, o registro de memória do poeta, em forma de poesia, nos permite estabelecer uma aproximação com a cultura dos helenos. Reconhecemos que as informações sobre as mulheres foram compostas pelos homens, os quais tiveram uma atitude de não nomeá-las, tornando-as uma realidade silenciosa. O poeta Eurípides, no entanto, as coloca em primeiro plano, embora no desempenho de atividades que os homens definiram e determinaram que elas atuassem, ou seja, o espaço fechado do gineceu no exercício dos cuidados domésticos. Acreditamos que os vestígios de memória registrados pela tragédia Medéia nos possibilitam repensar a atuação da mulher subvertendo a ordem estabelecida. 

Eurípides expõe a protagonista trágica como uma mulher abandonada pelo marido que desejava contrair novas núpcias com a jovem princesa de Corinto como nos indica a citação: "pois, encontra-se órfã sem cidade, ultrajada pelo marido, sem mãe e nem irmão para abrigá-la do infortuno" (Eurípides, Medeia, v. 255). A situação nefasta de Medeia a coloca como esposa abandonada, mãe de duas crianças em situação de exílio e mulher estrangeira. O drama de Medeia, exposto logo no início da tragédia, visava despertar a comoção nos espectadores do teatro de Atenas, pois a infidelidade e a traição masculina não eram temas incomuns na sociedade grega, assim como não deixou de ser nos dias atuais. No caso da sacerdotisa de Hécate, o agravante estava no fato dela estar na condição de mulher estrangeira, longe de seus familiares, a ela estava sendo exigido que cedesse a sua posição de esposa para uma mulher mais jovem e de status social em melhores condições. 

A tragédia Medeia tem por princípio o agon, principal requisito da vida do ateniense que se manifesta nas assembleias e tribunais. Nesta dramaturgia, o agon envolvia questões relacionadas à escolha e a ação humana que provinha da ética e obrigava o espectador a fazer uma escolha: a justiça ou a vingança. O poeta nos apresenta a reação dramática de uma mulher, inconformada com o abandono do marido que não considerou todo um passado comum de aventuras. Medeia praticou vários crimes e transgressões em nome do amor que sentia por Jasão. 

No prólogo tomamos ciência da trajetória de Medeia que veio da remota região de Colquida para o exílio em Corinto. Naquela região, considerada bárbara, ela conheceu Jasão e, movida por uma avassaladora paixão, traiu seu pai ao ajudar o herói Jasão a conquistar o Velocino de Ouro através da arte da magia e encantamentos. O ardil, usado por Medeia foi descoberto, obrigando-a a fugir em companhia de seu amado. Seu pai, o rei Aeetes, empreende uma perseguição ao casal pelos mares, porém, ao fugir, Medeia havia trazido o seu irmão Absyrto, que foi morto em meio à viagem. Ela o executou e esquartejou o seu corpo, jogando os pedaços ao mar para atrasar a perseguição de seu pai. A fuga teve êxito, porque o rei interrompeu a perseguição para recolher os pedaços do corpo do filho, vendo diante de seus olhos o crime de Medeia que pôs fim a sua descendência. 

O poeta nos expõe uma mulher, cujo comportamento integra o espaço do desvio ao padrão estabelecido e esperado pelo homem grego. Ao evidenciar este crime, o poeta traz à memória dos atenienses o fato de que a protagonista havia estado envolvida em outros crimes de morte. No episódio ocorrido na região de Iolco, Medeia ardilosamente havia providenciado a morte o rei da pior maneira que um ser humano poderia morrer (Eurípides, Medeia, v. 485): através das mãos de suas próprias filhas. Estas foram persuadidas a acreditar que esquartejando o corpo de seu pai, o rei Pélias, em meio a ervas e encantamentos, conseguiriam a proeza de rejuvenescer o velho rei; o resultado foi a destruição de todo o palácio (Eurípides, Medeia, v. 485). 

Por este crime, o casal foi perseguido pelo filho do rei morto. O atendimento ao pedido de asilo em Corinto foi aceito na condição de Medeia fazer uso de seus conhecimentos mágicos para cessar a seca, a fome e a infertilidade que assolava a região. 

Nos interrogamos sobre o objetivo da mensagem do poeta ao nos expor uma mulher estrangeira, atuante, detentora de saberes mágicos e considerada mulher de feroz caráter, de hedionda natureza e espírito implacável (Eurípides, Medeia. v. 100). Medeia representa a mulher envolvida em circunstâncias hostis, saiu da casa de seus pais muito jovem para acompanhar o seu marido. Acreditamos que houve uma empatia entre o personagem Medeia e o público feminino, pois casar jovem era uma situação familiar com as quais as mulheres de Atenas, presentes no teatro, se identificavam. Ao assistir uma dramaturgia, o ouvinte se identificava emocionalmente com o drama vivenciado pela protagonista, a ponto de perder o julgamento racional em prol da satisfação e de interesses emotivos, gerando uma tensão entre a simpatia e o julgamento justo. 

No momento em que a protagonista discursa para o coro que representa as mulheres de Corinto, ela expõe uma tradição na qual todas se reconheceriam, pois desde muito jovem eram destinadas à subordinação à autoridade masculina. O responsável pela família providenciava o seu casamento para o qual era preciso um dote com o objetivo de comprar um marido e cabia à jovem aceitá-lo como senhor com total controle sobre a sua pessoa. 

O acordo de casamento acontecia entre os homens e as jovens não tinham a oportunidade de escolher o marido, o que levou Medéia a afirmar que de todos os que têm vida, a mulher, seria o ser mais infeliz pela obrigação de aceitar um homem a quem não podiam repudiar, visto que a mulher divorciada não era bem vista nesta sociedade (Eurípides, Medeia, v. 235). Quando chegavam na nova residência não sabiam o que as aguardava, por não terem sido bem instruídas pelos familiares, tinham por obrigação adivinhar qual a melhor maneira de convívio com o esposo. A jovem tendo a sorte de conseguir um bom esposo teria uma vida invejável, caso contrário, viveria sob o jugo da violência para a qual a morte tornar-se-ia o bem mais suave (Eurípides, Medeia, 235-240); em caso de gravidez, por exemplo, a protagonista afirmava preferir lutar com escudo três vezes a parir uma só vez (Eurípides, Medeia, v. 250). 

O lamento de Medeia tornou-se público através do uso da palavra, da retórica que era um instrumento fundamental para a construção do drama visando expor o cotidiano da mulher ateniense. Diante da sua falta de opção e liberdade, as mulheres, por serem retiradas muito jovens da casa paterna e serem confinadas no interior do oikos, atuariam como mulher e esposa devendo, por obrigação, cuidar dos escravos, do marido, dos filhos e exercer com eficácia as atividades domésticas (Eurípides, Medeia v. 245). 

O padrão definido como ideal para o comportamento feminino foi construído pelo homem grego que esperava que ela seguisse o modelo mélissa, a saber: ser submissa, silenciosa e passiva, atributos contrários ao comportamento masculino definido como dominante, ativo, agressivo e agente de decisão. 

No entanto, o comportamento de Medeia trazia à memória dos atenienses o mito de Pandora, de quem, afirmaria Hesíodo, descender toda a funesta geração de mulheres (Hesíodo, Teogonia, v. 585) e que Eurípides complementava ao afirmar serem as mulheres habilíssimas artesãs de todo os males (Eurípides, Medeia, v. 409). Essas palavras marcavam o inconformismo da protagonista com a sua atual situação, Ela expressava o seu desagrado ameaçando os seus inimigos, a saber: três de meus inimigos matarei: o pai, a jovem e meu marido (Eurípides, Medeia v. 375), e, ao mesmo tempo, alertava que ninguém a considere fraca, sem força, sossegada diante do infortúnio, mas de outro modo perigosa contra os seus inimigos (Eurípides, Medeia v. 410). A partir destas palavras, a protagonista de Eurípides, decidiu pela ação de vingança, atitude reconhecida nos heróis trágicos em sua busca desesperada por recuperar a honra ultrajada como o guerreiro Ajax de Sófocles. 

Ajax e Medeia apresentam atitudes semelhantes: não suportam a ideia de serem vítimas de injustiças e de traição. Ambos não toleram a etimasmene - falta de respeito (Eurípides, Medeia, v. 1355) de seus inimigos que riem de suas atuais condições de fracasso; no caso de Medeia, por estar só - mone (Eurípides, Medeia v. 513) e abandonada - eremos (Eurípides, Medeia v. 255). Medeia decidiu agir com violência por não querer causar riso deixando impunes os seus inimigos (Eurípides, Medeia v. 1050). A sacerdotisa de Hécate deixava transparecer que a mais grave atitude diante de uma vítima de desprezo e fracasso era o riso - gelos (Eurípides, Medeia v. 383), e somente a vingança cruel através da morte poderia reverter esta situação tornando-a vitoriosa diante dos inimigos (Eurípides, Medeia, v. 395). 

A semelhança entre Ajax e Medeia não é mera coincidência, pois o poeta coloca na personagem atitudes masculinas, mesmo sendo inapropriado para uma mulher agir com inteligência e coragem. O uso da palavra e sua atitude decisiva remetem às ações de heróis que atuavam de forma individual para solucionar uma situação imediata, como nos indicam os termos como ergasteon (Eurípides, Medeia v. 791) definido como algo que deve ser feito; a palavra tolmeteon (Eurípides, Medeia v. 1051) nos remete a algo ousado a ser realizado. O verbo kteno significa a decisão de, em tempo breve, matar, extinguir, exterminar. Com reações próprias de seres passionais, Medéia exibia o seu temperamento movido por forte emoção - thymos, sentimento que marcava toda a trajetória da narrativa, considerada fora da razão, da justiça coletiva, da justa medida; uma ação identificada em povos que viviam fora da cultura. Jasão reforçava este pensamento ao reafirmar que a grande dádiva que ele, cidadão grego, havia ofertado à Medeia foi tê-la tirado de terras bárbaras trazendo-a para residir na cultura helênica que conhecia a justiça, a ordem e as leis (Eurípides, Medeia, v. 535). 

Medeia muda de atitude visando atingir seu objetivo. Ela passa a agir de acordo com o modelo estabelecido pelos homens, ou seja, submissa, obediente, deixando transparecer que aceitava o destino determinado por Jasão e Creonte. Ela prometia acatar a ordem do rei que havia determinado a sua saída de Corinto (Eurípides, Medeia, v. 927). Para reafirmar o seu arrependimento e compromisso, Medeia envia, através de seus filhos, o presente de núpcias (envenenado) para a noiva de Jasão, e desta maneira ela mata a princesa e o rei. 

O discurso dissimulado tem por princípio a arte da persuasão, da força da palavra que convence e permitindo a realização de sua vingança. Como mulher, ela não tinha a capacidade do uso da força física precisando, portanto, buscar meios alternativos para fazer valer a sua vontade e vencer o inimigo. A única solução foi usar o conhecimento do qual provinha sua habilidade e o saber que dominava: a arte da magia no uso de filtros e venenos, cujo conhecimento fazia parte de sua tradição familiar por ser sobrinha de Circe, sacerdotisa de Hécate e neta de Hélios. 

Sua ascendência lhe forneceu força, coragem e magia, atributos essenciais para sacrificar e enterrar os filhos no santuário de Hera Akraia. De acordo com os mitógrafos anteriores ao final do V século, os filhos de Medeia teriam sido mortos pela população de Corinto para vingar a morte de seus soberanos. Entretanto, o poeta Eurípides estabeleceu uma nova vertente mítica mostrando que as crianças haveriam sido executadas como sacrifício aos deuses pela própria sacerdotisa de Hécate. Talvez uma forma cruel e eficaz de vingança contra o abandono do marido e uma maneira de expor o quanto ela era terrível com os seus inimigos, pois, matando os filhos ela extinguia a descendência de Jasão que reconhecia: sem filhos você me destruiu (Eurípides, Medeia, v. 1325). 

O poeta coloca Medeia fugindo em direção à Atenas, lugar em que a sacerdotisa utilizaria os seus saberes mágicos a serviço do rei Egeu, ao afirmar: cessarei o teu ser sem filhos e te farei semear filhos, tais drogas conheço (Eurípides, Medeia, v. 715). Esta informação nos remete à proposta de Eurípides de usar o palco trágico como o espaço das denúncias relativas às transformações, que aconteciam na sociedade ateniense no final do V século. 

Analisando a personagem Medeia, algumas questões nos chamam a atenção: a protagonista não representa a mulher grega devido a sua atitude considerada bárbara, como nos informa as palavras de Jasão ao afirmar que nenhuma mulher grega ousaria matar os próprios filhos (Eurípides, Medeia, v. 1340). Então que tipo de mulher ela representaria? 

Medeia usa a palavra para convencer, apela para a morte visando remover obstáculos, usa da astúcia, da faca e do veneno que, no conjunto, não formam poderes sobrenaturais. As práticas mágicas de Medeia nos indicam o domínio e o conhecimento de ervas, infusões e raízes que não denotam possuir poderes mágicos. Este domínio e saber poderiam ser encontrados em algumas mulheres que circulavam em Atenas, sendo comum entre as mulheres atenienses e estrangeiras que necessitavam do uso de plantas e ervas para fins terapêuticos. 

Medeia representava a mulher estrangeira que detinha esta habilidade e o conhecimento de sua função e eficácia. A documentação textual nos indica várias mulheres míticas que detinham o conhecimento e o domínio de ervas e filtros para encantamentos como Helena e Circe. Este saber, que se estendeu por tradição às mulheres, consistia na habilidade em manejar o cozimento das ervas, folhas e raízes para fazer infusões e filtros, que, devido ao seu poder de cura, passaram a ser considerados mágicos. Acreditamos que a ausência de conhecimento específico do funcionamento da natureza feminina fomentou a necessidade do domínio do uso das ervas pelas mulheres, com o objetivo de atender aos seus problemas de saúde. 

O conhecimento das ervas atendia tanto às mulheres casadas quanto às prostitutas e hetairas que necessitavam saber que o efeito de folhas da família das mentas era muito útil para os problemas menstruais; as dores de varizes eram amenizadas com fricção de folhas de hera; a cebola selvagem e o alho triturados com óleo e vinho, tornavam-se eficazes para conter sangramento e secreção vaginal; a erva artemísia atuava sobre o ovário e plantas como a belladona podiam ser usadas como calmante, mas que em porções concentradas tornavam-se abortivas; já as ervas da família do ópium eram eficazes como analgésicos para as mulheres em trabalho de parto. 

Temos por suposição que Eurípides expõe na habilidade de Medeia, que esta habilidade era um saber prejudicial à comunidade masculina. O seu desagravo seria a extensão do temor dos homens de Atenas pela participação ativa das mulheres junto ao uso das ervas e unguentos considerados mágicos. A preocupação do poeta com o uso das raízes pode estar direcionada às ervas específicas que visavam despertar o interesse sexual. Um episódio desta natureza pode ser observado na citação da Ilíada (XIV, 198) quando uma mulher solicita à deusa Afrodite que a encante com o desejo e o feitiço do amor para que ela possa usar deste ardil com o seu amado. Acreditamos que esta mulher tenha sido aconselhada a usar as folhas de orquídeas trituradas com vinho, um eficaz medicamento contra a impotência masculina - o termo orchis significa testículo em grego - e, no caso das porções/kukeon e filtros mágicos, ao serem ingeridos pelo ser amado, podiam ter como resultado a sua morte. 

As ervas consideradas mágicas usadas pelas mulheres em forma de banhos e unguentos, permaneciam em seu corpo em meio a fragrâncias aromáticas, mas havia a possibilidade de causar problemas na virilidade masculina, quando se tratava de unguentos contraceptivos que podiam fomentar a impotência masculina. Havia plantas, ervas e raízes que também eram conhecidas por suas virtudes apotropaicas e usadas como amuleto contra a má sorte e roubos. Umas faziam prosperar os negócios outras eram eficazes para arruinar a saúde e as atividades do inimigo. 

Concluímos que o poeta utiliza o espaço do teatro de Atenas, através da personagem Medeia, para fazer uma denúncia, alertando para a emergência de antigos saberes integrando novas práticas sociais como o uso do conhecimento mágico das ervas e filtros para atender desejos individuais. O uso das práticas mágicas das ervas e raízes tanto podia atender às necessidades de medicamentos para curar as doenças femininas, quanto ser usado como veneno para efetuar uma vingança. Medeia com a sua sophia expõe a ambiguidade de um saber que poderia ajudar um amigo com os seus benefícios, mas poderia ser fatal e destruir os inimigos. Como nos afirma Medeia, temido será sempre quem possui este saber, pois aquele que provocou este ódio não celebrará facilmente a bela vitória. 


Documentos 

EURÍPIDES. Medeía. Trad. Jaa Torrano, ed. bilíngüe. São Paulo: Hucitec, 1991. 
HESIODE. Teogonie. Paris: Belles Lettres, 1954. 
HOMERO. Iliade, Odissée. Paris: Les Belles Lettres, 1974. 


Bibliografia 

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COULET, C. Communiquer en Grece Ancienne. Paris: Belles Lettres,1996. 
DETIENNE, M. Os Mestres da Verdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. 
FINLEY, M. I. O Mundo de Ulisses. Lisboa: Presença,1988. 
GRMEK, M. Diseases in the Ancient Greek World. London: John Hopkins, 1991. 
HAVELOCK, E. A Revolução da Escrita na Grécia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996. 
HILL, Bridget. "Para onde vai a História da Mulher?" In: Varia História, Belo Horizonte: FAFICH, 1995, n.º 14, p. 9-21. 
MARAZZI, M. La Sociedad Micenica. Madrid: Akal, 1982. 
VERNANT, J. P. O Universo os deuses os homens. São Paulo: Cia das Letras, 2000.