sábado, 6 de abril de 2019

STEPHEN GREENBLATT ESCREVEU: A MORTE DE HAMNET E A CRIAÇÃO DE HAMLET






A MORTE DE HAMNET E A CRIAÇÃO DE HAMLET




William Shakespeare usou sua própria dor para escrever os destinos de um reino distante e um de seus personagens mais fortes







O ofício de Shakespeare, durante toda a sua vida, foi sondar as paixões de seus personagens e despertar as paixões de suas plateias. Sua habilidade nisso é quase universalmente considerada sem rival, mas as fontes íntimas dessa habilidade permanecem desconhecidas. Os estudiosos reconstruíram incansavelmente pelo menos parte das leituras ecléticas e abrangentes de Shakespeare, mas sua própria vida apaixonada - seu acesso por meio da experiência e da observação pessoais às intensas emoções que ele representa - é quase completamente misteriosa. Nenhum exemplar de suas cartas, notas de trabalho, diários ou manuscritos (com a possível exceção de "Hand D" em Sir Thomas More) sobreviveu. Seus sonetos foram vasculhados em busca de evidências autobiográficas, mas, embora escritos na primeira pessoa, são desconcertantes, evasivos e, provavelmente por deliberação, opacos. 

Durante séculos de especulação febril, as reflexões mais veementes sobre a presença da vida emocional de Shakespeare em suas peças - notadamente nas páginas brilhantes de James Joyce em Ulysses, mas há muitas outras - se concentraram em Hamlet. Essa atenção biográfica para uma obra derivada de materiais reciclados e escrita para o palco público poderia parecer inerentemente implausível, não fosse pela impressão avassaladora, sobre leitores e espectadores igualmente, de que a peça deve ter surgido de maneira incomumente direta da vida íntima do dramaturgo e que, de fato, em certos momentos, o autor mal controlava seu material. Tentarei no que se segue atribuir Hamlet a uma experiência dolorosa pessoal, e esboçar uma hipótese de estratégia estética duradoura que parece ter surgido dessa experiência. 

Em algum momento na primavera ou no verão de 1596, Shakespeare deve ter recebido a notícia de que seu único filho, Hamnet, de 11 anos, estava doente. Estivesse ele em Londres ou em turnê com sua companhia, teria no máximo recebido notícias esporádicas de sua família em Stratford, mas em algum momento no verão ele presumivelmente soube que o estado de Hamnet havia piorado e que era necessário abandonar tudo e correr para casa. Quando o pai chegou a Stratford, o menino - que, exceto por breves visitas, Shakespeare realmente o havia abandonado na infância - talvez já estivesse morto. Em 11 de agosto de 1596, Hamnet foi enterrado junto à Igreja da Santíssima Trindade, e o escrivão anotou devidamente no registro de enterros "Hamnet filius William Shakspere". 

Diferentemente de Ben Jonson e outros que escreveram poemas cheios de dor sobre a perda de filhos amados, Shakespeare não publicou elegias nem deixou um registro direto de seus sentimentos paternos. Às vezes se diz que na época de Shakespeare os pais não podiam investir muito amor ou esperança em um filho. Uma em cada três crianças morria antes de completar 10 anos de idade, e os índices de mortalidade eram excessivamente altos pelos nossos padrões atuais. A morte era um espetáculo familiar e acontecia em casa. Quando Shakespeare tinha 14 anos, sua irmã Anne, de 7, morreu, e em muitas outras ocasiões ele deve ter testemunhado a morte de crianças. 

Nos quatro anos seguintes à morte de Hamnet, o dramaturgo, como muitos já indicaram, escreveu algumas de suas comédias mais irreverentes - As Alegres Comadres de Windsor, Muito Barulho por Nada, Como Gostais. Esse fato, para alguns, é uma evidência decisiva de que a dor do pai deve ter sido breve. Mas as peças desses anos não foram uniformemente alegres, e em certos momentos parecem refletir uma experiência de profunda perda pessoal. Em King John, provavelmente escrita em 1596, logo após o enterro do menino, Shakespeare retrata uma mãe tão desesperada com a morte do filho que é levada a pensar em suicídio. Observando-a, um religioso comenta que ela está louca, mas ela insiste que está perfeitamente sã: "Não estou louca; Deus quisesse que sim!" A razão, ela diz, e não a loucura, pôs em sua cabeça as ideias de suicídio, pois é a razão que conserva tenazmente a imagem de seu filho. Quando ela é acusada de insistir perversamente em sua dor, responde com uma simplicidade eloquente que sobressai da trama complexa: 

Grief fills the room up of my absent child, 

Lies in his bed, walks up and down with me, 

Puts on his pretty looks, repeats his words, 

Remembers me of all his gracious parts, 

Stuffs out his vacant garments with his form. 

(III.4.93-97) 

Se não há uma ligação segura entre esses versos e a morte de Hamnet, pelo menos não existe motivo para se pensar que Shakespeare simplesmente enterrou seu filho e seguiu sua vida de forma inabalável. Ele pode ter-se retraído obsessivamente, mesmo enquanto fazia as plateias rir com Falstaff apaixonado ou com as disputas bem-humoradas de Beatriz e Benedito. Tampouco é implausível que tenha levado anos para que o trauma da morte do filho surgisse plenamente na obra de Shakespeare, ou que tenha sido desencadeado por uma conjunção acidental de nomes. Pois Hamnet e Hamlet são na verdade o mesmo nome, totalmente intercambiáveis nos registros de Stratford no final do século 16 e início do século 17. Shakespeare batizou seu filho com o nome de seu vizinho e amigo não-conformista [católicos que se recusavam a aceitar a igreja da Inglaterra e eram perseguidos pela lei] Hamnet Sadler, que ainda vivia em março de 1616, quando o dramaturgo escreveu seu testamento e deixou 26 xelins e 8 pence para "Hamnet Sadler, para que compre um anel". 

Escrever uma peça sobre Hamlet, por volta de 1600, talvez não tenha sido ideia do próprio Shakespeare. Pelo menos uma peça - o texto foi perdido - já tinha sido apresentada no palco inglês sobre um príncipe dinamarquês que vinga o assassinato de seu pai, e teve sucesso suficiente para ser casualmente mencionada por autores da época, como se todo mundo a tivesse visto ou pelo menos a conhecesse. Alguém do grupo teatral Lord Chamberlain's Men, de olho nas receitas, pode simplesmente ter sugerido a Shakespeare que estava na hora de uma versão melhorada da história de Hamlet. Devido a sua grande participação nos lucros da companhia, o dramaturgo estava sempre alerta para qualquer coisa que atraísse as multidões, e já tinha então uma longa experiência em desempoeirar antigas peças e torná-las surpreendentemente novas. O provável autor da primeira peça, Thomas Kyd, não era obstáculo: havia morrido em 1594, aos 36 anos, possivelmente destruído pela tortura que lhe infligiram quando foi interrogado sob as acusações de blasfêmia e ateísmo. Em todo caso, nem Shakespeare nem seus contemporâneos tinham pruridos em furtar obras uns dos outros. 

Shakespeare certamente havia visto a primeira peça de Hamlet, talvez em diversas ocasiões. Quando começou a trabalhar em sua nova tragédia, provavelmente a sabia de cor ou tanto quanto quis lembrar-se. É impossível determinar, nesse caso, se ele se sentou com os livros abertos à sua frente como fez claramente, por exemplo, ao escrever Antônio e Cleópatra ou se confiou em sua memória, mas certamente havia lido uma e talvez mais de uma versão da antiga história dinamarquesa de assassinato e vingança. No mínimo, a julgar pela peça que escreveu, ele leu cuidadosamente a história como foi narrada em francês por François de Belleforest, cuja coletânea de contos trágicos foi um fenômeno editorial no final do século 16. Belleforest havia tirado a história de Hamlet de uma crônica da Dinamarca compilada em latim no final do século 12 por um dinamarquês conhecido como Saxo, o Gramático. E Saxo, por sua vez, estava reciclando lendas escritas e orais que remontavam a séculos antes de sua época. Aqui, como frequentemente aconteceu em toda a sua carreira, Shakespeare estava trabalhando com materiais conhecidos uma história, estabelecida, um elenco de personagens familiares, um conjunto de emoções previsíveis. 

Se Shakespeare tivesse morrido em 1600, teria sido difícil pensar que faltava alguma coisa em sua realização, e ainda mais difícil pensar que alguma coisa ainda não realizada estivesse fermentando em seu trabalho. Mas Hamlet deixa claro que Shakespeare estivera silenciosa e constantemente desenvolvendo uma habilidade técnica especial. Esse desenvolvimento pode ter sido totalmente deliberado, consequência de um claro projeto profissional, ou pode ter sido mais casual e oportunista. A realização foi, de todo modo, gradual: não uma descoberta súbita e definitiva de uma invenção grandiosa, mas o sutil refinamento de um certo conjunto de técnicas de representação. Na virada do século 16 para o 17, Shakespeare estava pronto para fazer um avanço notável: ele havia dominado os meios de representar a interiorização. 

A tarefa de transmitir uma vida interior é imensamente desafiadora no teatro, já que o que o público vê e ouve é sempre em certo sentido um discurso público, as palavras que os personagens dizem uns aos outros, ou, em comentários e monólogos ocasionais, diretamente para os espectadores. Os dramaturgos podem fingir, é claro, que a plateia está escutando uma espécie de monólogo interior, mas é difícil evitar que esses monólogos soem "encenados". Richard III, escrita em 1591 ou 1592, é uma peça imensamente enérgica e poderosa, com um personagem principal maravilhoso e inesquecível que acaba parecendo estranhamente falso e artificial quando, sozinho à noite, revela ao público o que se passa em seu interior: 

It is now dead midnight. 

Cold fearful drops stand on my trembling flesh. 

What do I fear? Myself? There's none else by. 

Richard loves Richard; that is, I am I. 

Is there a murderer here? No. Yes. I am. 

Then fly! What, from myself? Great reason. Why? 

Lest I revenge? Myself upon myself? 

Alack, I love myself. Wherefore? For any good 

That I myself have done unto myself? 

O no, alas, I rather hate myself 

For hateful deeds committed by myself. 

I am a villain. Yet I lie: I am not. 

(V.5.134-145) 

Shakespeare está dramatizando a crônica que foi sua fonte, segundo a qual Ricardo não conseguiu dormir na véspera de sua morte porque sentia uma estranha dor de consciência. Mas apesar de seu vigor em staccato o solilóquio, como representação do conflito interno, [o solilóquio] é esquemático e mecânico, como se dentro do personagem no palco simplesmente houvesse outro pequeno palco onde bonecos apresentassem um espetáculo de polichinelo. 

Em Richard II, escrita cerca de três anos depois, há um momento comparável que marca a habilidade florescente de Shakespeare. Deposto e preso por seu primo Bolingbroke, o rei arruinado, pouco antes de ser assassinado, olha para dentro de si: 

I have been studying how I may compare 

This prison where I live unto the world; 

And for because the world is populous, 

And here is not a creature but myself, 

I cannot do it. Yet I'll hammer it out. 

My brain I'll prove the female to my soul, 

My soul the father, and these two beget 

A generation of still-breeding thoughts. 

(V.5.1-7) 

Grande parte da diferença entre os dois trechos tem a ver com os personagens muito díspares entre si: um deles é um tirano assassino cheio de energia maníaca; o outro, um poeta mimado, narcisista e autodestrutivo. Mas a passagem de um personagem para o outro é significativa em si e indica o crescente interesse de Shakespeare pelos processos ocultos da interiorização. Trancado em um quarto sem janelas, Richard II observa seu pensamento, luta para forjar uma ligação metafórica entre sua prisão e o mundo, chega a um impasse e então força sua imaginação a renovar o esforço: "Yet I'll hammer it out" # ["Vou conseguir à força"]. O mundo, cheio de gente, não é, como ele admite, remotamente comparável à solidão de sua cela de prisão, mas Richard decide gerar, a partir do que ele imagina como o intercurso entre seu cérebro e sua alma, uma multidão imaginária. O que ele produz à força é uma espécie de teatro interior, semelhante ao já encontrado no solilóquio de Richard III, mas com uma complexidade, uma sutileza e, sobretudo, com uma autoconsciência enormemente ampliadas. Agora o próprio personagem está consciente de que ele construiu esse teatro e extrai as sombrias implicações do mundo imaginário que se esforçou para criar: 

Thus play I in one person many people, 

And none contented. Sometimes am I king; 

Then treason makes me wish myself a beggar, 

And so I am. Then crushing penury 

Persuades me I was better when a king, 

Then am I kinged again, and by and by 

Think that I am unkinged by Bolingbroke, 

And straight am nothing. But whate'er I be, 

Nor I, nor any man that but man is, 

With nothing shall be pleased till he be eased 

With being nothing. 

(V.5.31-41) 

Ricardo II caracteristicamente ensaia o drama de sua queda do reinado como uma queda no nada e então formula sua experiência da perda de identidade - "seja o que for" - em um complexo poema de desespero. Escrita em 1595, Richard II marcou um grande avanço na capacidade do autor de representar a interiorização, mas Júlio César, escrita quatro anos depois, mostra que, descontente com o que havia conseguido, Shakespeare sutilmente experimentou novas técnicas. Só, andando por seu pomar no meio da noite, Brutus começa a falar: 

It must be by his death. And for my part 

I know no personal cause to spurn at him, 

But for the general. He would be crowned. 

How that might change his nature, there's the question. 

It is the bright day that brings forth the adder, 

And that craves wary walking. Crown him: that! 

(II.1.10-15) 

Esse solilóquio é muito menos fluido, uma meditação poética menos elegante e contida que o solilóquio na prisão de Richard II. Mas tem algo surpreendentemente novo: as marcas inconfundíveis do verdadeiro pensamento. Richard fala em forçar as ideias, mas as palavras que pronuncia são altamente polidas. As palavras de Brutus, em contraste, parecem fluir imediatamente das idas e vindas de sua mente vacilante, enquanto ele aborda uma série de questões importantes: Como deve reagir ao desejo da multidão de coroar o ambicioso César? Como pode equilibrar sua amizade pessoal com César diante do que ele imagina ser o bem comum? Como poderia César, que até agora serviu a esse bem comum, mudar de natureza e tornar-se perigoso se for coroado? "Deve ser por sua morte": sem prelúdio, a plateia é lançada em meio aos pensamentos obsessivos de Brutus. É impossível saber se ele está avaliando uma proposta, testando uma decisão, reiterando palavras ditas por outra pessoa. Ele não precisa mencionar de quem é a morte que contempla, tampouco precisa esclarecer - pois já faz parte de seu pensamento - que será por assassinato. 

Brutus fala para si mesmo, e suas palavras têm a taquigrafia peculiar do cérebro em funcionamento. "Coroe-o: é isso!" a exclamação é quase incompreensível, exceto como uma explosão de raiva apaixonada provocada por uma imagem fantasmagórica que passa naquele instante pela mente do orador. Os espectadores são atraídos a uma proximidade assustadora, assistindo em primeira mão à formação de uma decisão fatal a determinação de assassinar César que mudará o mundo. Alguns momentos depois, Brutus, intensamente consciente, descreve para si mesmo o estado de consciência confuso em que se encontra: 

Between the acting of a dreadful thing 

And the first motion, all the interim is 

Like a phantasma or a hideous dream. 

The genius and the mortal instruments 

Are then in counsel, and the state of man, 

Like to a little kingdom, suffers then 

The nature of an insurrection. 

(II.1.63-69) 

Seria neste momento, em 1599, que Shakespeare concebeu pela primeira vez a possibilidade de escrever sobre um personagem suspenso, durante toda a peça, nessa estranha temporiedade? Brutus não é exatamente um personagem desse tipo: na metade de Júlio César, ele já fez a coisa terrível e matou seu mentor e amigo possivelmente seu próprio pai. No restante da peça, Brutus revela as consequências fatais de seu ato. 

Se Shakespeare não o compreendeu de imediato, no ano seguinte entendeu perfeitamente que havia um personagem, já popular no palco elisabetano, cuja vida ele poderia retratar como uma longa fantasmagoria ou um sonho odioso. Esse personagem, o príncipe da rebelião interiorizada, era Hamlet. 

Mesmo em sua mais antiga narrativa medieval, a saga de Hamlet era a história do longo intervalo entre o primeiro movimento ou impulso ou desígnio inicial e a realização da coisa terrível. No relato de Saxo, o Gramático, o assassinato do pai de Amleth, Horwendill (equivalente ao velho rei Hamlet), por seu invejoso irmão Feng (equivalente a Cláudio), não era segredo. Falando sobre "fratricídio com uma aparência de justiça", o assassino afirmava que Horwendill abusava cruelmente de sua delicada mulher, Gerutha. Na realidade, o impiedoso Feng simplesmente havia se apoderado do reino e da mulher de seu irmão. Ninguém estava disposto a contestar o usurpador. O único desafiante potencial era Amleth, o jovem filho de Horwendill, pois, pelo código consagrado dessa sociedade pré-cristã, um filho era estritamente obrigado a vingar o assassinato de seu pai. 

Feng conhecia esse código tão bem quanto qualquer outro, portanto era de se esperar que ele agisse rapidamente para eliminar a futura ameaça. Se o menino não encontrasse imediatamente um estratagema inteligente, sua vida seria muito breve. Para chegar à idade adulta para sobreviver o suficiente para poder vingar-se, Amleth fingiu-se de louco, convencendo seu tio de que jamais representaria um perigo. Sujo e letárgico, ele se sentava junto ao fogo distraidamente, quebrando gravetos e transformando-os em ganchos farpados. Embora o cauteloso Feng usasse constantemente intermediários (os precursores de Ofélia, Rosencrantz e Guildenstern) para tentar descobrir alguma fagulha de inteligência por trás da aparente idiotice de seu sobrinho, Amleth habilmente evitava a detecção. Ele aguardava, escapava das armadilhas e fazia planos secretos. Tratado como louco, com zombaria e desprezo, ele afinal conseguiu queimar até a morte todo o séquito de Feng, trespassou seu tio com uma espada, convocou uma assembleia de nobres, explicou por que tinha feito aquilo e foi entusiasticamente aclamado o novo rei. "Muitos ficaram maravilhados pelo modo como ele ocultara um plano tão sutil durante um espaço de tempo tão longo." 

Assim, Amleth passou anos no estado de suspensão que Brutus mal pôde suportar por alguns dias. Shakespeare havia desenvolvido os meios para representar a experiência psicológica dessa condição, algo que nem Saxo nem seus seguidores sonharam conseguir. Ele viu que a história de Hamlet, madura para uma revisão, lhe permitiria fazer uma peça sobre o que é viver voltado para dentro no intervalo nauseante entre um plano assassino e seu cumprimento. O problema, porém, é que o teatro não é especialmente tolerante a longos períodos de gestação: seria extremamente difícil representar de modo dramaticamente excitante a criança Hamlet fingindo idiotice durante anos até chegar à idade em que poderia agir. A solução óbvia, provavelmente já alcançada na peça perdida, é começar a ação no ponto em que Hamlet atinge a maioridade e está pronto para cometer seu ato de vingança. 

No Hamlet de Saxo, o Gramático, assim como na história popular de Belleforest, nenhum fantasma aparecia. Não havia necessidade de fantasma, pois o assassinato era de conhecimento público, assim como a obrigação de o filho se vingar. Mas quando Shakespeare começou a escrever sua versão da história, fosse seguindo a direção de Kyd ou a sua própria, fez do assassinato um segredo. Todo mundo na Dinamarca acredita que o velho Hamlet foi picado fatalmente por uma serpente. O fantasma aparece para contar a terrível verdade: "A serpente que picou a vida de teu pai/ Hoje usa sua coroa" (I.5.39-40). 

A peça de Shakespeare começa pouco antes de o fantasma revelar o assassinato para Hamlet e termina logo depois de Hamlet praticar sua vingança. Portanto, as mudanças decisivas na trama de um assassinato público, conhecido por todos, para um assassinato secreto, revelado somente a Hamlet pelo fantasma do homem assassinado permitiram que o dramaturgo concentrasse quase toda a tragédia na consciência do herói suspenso entre seu "primeiro movimento" e "a realização de uma coisa terrível". Mas alguma coisa na trama precisa representar essa suspensão. Afinal, nessa versão revisada, Hamlet não é mais uma criança que precisa de tempo, e o assassino não tem motivos para suspeitar de que Hamlet tenha ou possa ter um dia alguma pista de seu crime. Longe de se manter à distância do sobrinho (ou de armar testes sutis para ele), Cláudio se recusa a deixar Hamlet voltar à universidade, chama-o gentilmente de "nosso principal cortesão, primo e filho", e declara que ele é o próximo na sucessão ao trono. Depois que o fantasma de seu pai revela a verdadeira causa da morte, Hamlet, que tem franco acesso ao desprotegido Cláudio, está na posição perfeita para agir imediatamente. E essa reação instantânea é exatamente o que o próprio Hamlet antecipa: 

Haste, haste me to know it, that with wings as swift 

As meditation or the thought of love 

May sweep to my revenge. 

(I.5.29-31) 

A peça deveria terminar no fim do primeiro ato. Mas Hamlet enfaticamente não corre para a vingança. Assim que o fantasma desaparece, ele diz às sentinelas e a seu amigo Horácio que pretende "to put an antic disposition on" (exibir uma disposição extravagante) isto é, fingir que está louco. O comportamento fazia muito sentido na antiga versão da história, em que era um dos estratagemas para evitar suspeitas e ganhar tempo. O emblema daquela época, e a prova do brilhante e prolongado plano do vingador, eram os ganchos de madeira que o menino Amleth, aparentemente perturbado, cortava interminavelmente com sua pequena faca. Esses foram os meios que, no clímax da história, Amleth usou para prender uma rede sobre os cortesãos adormecidos, antes de incendiar o salão. O que parecia uma distração sem sentido passou a ser uma estratégia brilhante. Mas em Shakespeare, a loucura fingida de Hamlet não é mais taticamente coerente. O dramaturgo na verdade destruiu a trama poderosa e coerente que suas fontes lhe forneceram, e dos destroços construiu o que a maioria das plateias modernas consideraria a melhor peça que escreveu. 

Longe de oferecer proteção, a disposição extravagante leva o assassino a vigiar Hamlet estreitamente, a pedir opiniões a seu conselheiro Polônio, a discutir o problema com Gertrudes, a observar cuidadosamente Ofélia, a enviar Rosencrantz e Guildenstern para espionar seu amigo. Em vez de levar a corte a ignorá-lo, a loucura de Hamlet torna-se objeto de interminável especulação de todos. E, muito estranhamente, a especulação carrega Hamlet consigo: "I have of late-but wherefore I know not-lost all my mirth" (Ultimamente perdi toda a minha alegria). "Mas onde não sei", Hamlet, totalmente consciente de que está falando para espiões da corte, não murmura uma palavra sobre o fantasma de seu pai, mas não fica claro que o fantasma é responsável por sua depressão. Já na primeira cena em que aparece, antes de ter encontrado o fantasma, Hamlet diz para si mesmo, como o mais íntimo segredo de seu coração, a mesma desilusão que ele revela para Rosencrantz e Guildenstern: 

O God, O God, 

How weary, stale, flat, and unprofitable 

Seem to me all the uses of this world! 

Fie on't, ah fie, fie! 'Tis an unweeded garden 

That grows to seed; things rank and gross in nature 

Possess it merely. 

(I.2.132-127) 

A morte de seu pai e o casamento apressado da mãe, eventos públicos e não revelações secretas, o levaram a pensamentos de "autoimolação". 

Ao ressaltar o raciocínio estratégico da loucura de Hamlet, Shakespeare o transformou no foco central de toda a tragédia. O momento chave de revelação psicológica na peça - que todos se lembram - não é o herói tramando a vingança, nem suas autocensuras apaixonadas pela inação, mas sim sua contemplação do suicídio: "Ser ou não ser; eis a questão". Esse ímpeto suicida nada tem a ver com o fantasma - Hamlet esqueceu a aparição, a ponto de falar da morte como # "The undiscovered country from whose bourn/No traveller returns" (O país não descoberto de cujas fronteiras/ Nenhum viajante retorna), mas tem a ver com uma doença da alma provocada por um dos "thousand natural shocks/That flesh is heir to" (mil choques naturais/ De que a carne é herdeira). 

Hamlet marca uma ruptura na carreira de Shakespeare por sugerir um motivo mais pessoal para sua ousada transformação, tanto de suas fontes quanto de toda a sua maneira de escrever. Um simples indício dessa transformação é o surpreendente fluxo de novas palavras, palavras que ele não havia usado antes em cerca de 21 peças e dois poemas longos que havia escrito até então. Estudiosos calcularam que há mais de 600 dessas palavras, muitas delas novas não apenas para Shakespeare, mas também para o registro escrito da língua inglesa compulsive, fanged, besmirch, intruding, overgrowth, pander, outbreak, unfledged, unimproved, unnerved, unpolluted, unweeded, para citar somente algumas. Algo devia estar em gestação em Shakespeare, algo poderoso o suficiente para provocar essa explosão linguística. Como as plateias e os leitores há muito tempo compreenderam instintivamente, a dor apaixonada, provocada pela morte de um ser amado, está no cerne da tragédia de Shakespeare. Mesmo que a decisão de refazer a antiga tragédia de Hamlet tenha ocorrido a Shakespeare por considerações estritamente comerciais, a coincidência de nomes escrever repetidamente o nome de seu filho morto enquanto compunha a peça pode ter reaberto uma ferida profunda que ainda não havia cicatrizado. 

Mas, é claro, em Hamlet não é a morte de um filho, mas de um pai, que provoca a crise espiritual do herói. Se a tragédia surgiu da vida do próprio Shakespeare se puder ser atribuída à morte de Hamnet e à escrita repetida do nome, alguma coisa deve ter feito o dramaturgo ligar a perda de seu filho à perda imaginária de seu pai. Digo "imaginária" porque o pai de Shakespeare foi enterrado no cemitério da Santíssima Trindade em 8 de setembro de 1601: pode ter sido uma premonição, mas ele estava vivo quando a tragédia foi escrita e talvez ainda estivesse vivo quando foi apresentada pela primeira vez. Na imaginação de Shakespeare, como a morte de seu pai poderia ter-se ligado tão intimamente à de seu filho? 

Shakespeare voltou a Stratford para o enterro do filho. O ministro, como exigiam os regulamentos da época, teria recebido o cadáver na entrada do cemitério e o acompanhado até o túmulo. Shakespeare deve ter ficado ali e escutado as palavras do serviço protestante. Enquanto a terra era atirada sobre o corpo, o ministro entoou as palavras: "Já que agradou a Deus Todo-Poderoso levar consigo a alma de nosso querido irmão, entregamos seu corpo ao chão, terra à terra, cinzas às cinzas, pó ao pó, na esperança certeira da ressurreição para a vida eterna". 

Shakespeare teria achado adequado esse serviço simples e eloquente, ou ficou atormentado pela sensação de que faltou alguma coisa? "Que outra cerimônia?", grita Laerte junto ao túmulo de sua irmã Ofélia. Os ritos fúnebres da personagem Ofélia foram abreviados porque ela era suspeita do pecado de suicídio, e Laerte é ao mesmo tempo raso e impertinente. Mas a pergunta que ele faz repetidamente ecoa por todo o Hamlet e articula uma preocupação que se estende além dos limites da peça. Na memória viva, toda a relação entre os vivos e os mortos havia mudado. Talvez no Lancashire conservador, onde Shakespeare pode ter vivido brevemente na juventude, senão mais perto de casa, ele tivesse visto vestígios da antiga prática católica: velas queimando noite e dia, cruzes em toda parte, sinos tocando constantemente, parentes chorando e fazendo o sinal da cruz, vizinhos visitando o cadáver e dizendo junto dele um Pater noster ou um De profundis, esmolas e alimentos distribuídos em memória do morto, padres pagos secretamente para rezar missas, para facilitar a perigosa passagem da alma pelo purgatório. 

Tudo isso fora atacado durante décadas; tudo fora reduzido, empurrado para o subterrâneo ou totalmente eliminado. Naquela época era ilegal rezar pelos mortos. 

A crença no purgatório talvez tenha sido exagerada, e muitos católicos fiéis achavam que foi, mas ela tentava abordar temores e sentimentos que não desapareciam quando oficiais da Igreja e do Estado afirmavam que os mortos estavam além de qualquer contato terreno. A cerimônia não era a única questão, ou a principal: o que importava era se os mortos podiam continuar falando com os vivos, pelo menos durante algum tempo, se os vivos podiam ajudar os mortos, se permanecia uma ligação. Quando Shakespeare estava no cemitério vendo a terra cair sobre o corpo de seu filho, teria pensado que sua relação com Hamnet tinha desaparecido sem deixar vestígios? 

Talvez. Mas também é possível que ele tenha achado o serviço dolorosamente inadequado, com sua recusa deliberada em tratar a criança morta como um "tu", sua redução do ritual e da cerimônia, sua negação de qualquer possibilidade de comunicação. E se ele pôde aceitar a compreensão protestante dessas coisas, outros próximos a ele certamente não puderam. Sua mulher, Anne, deve ter ficado junto ao túmulo de Hamnet, e também os pais de Shakespeare, John e Mary. Na verdade, os avós tinham passado muito mais tempo com o menino do que o pai, pois enquanto Shakespeare estava em Londres, eles moravam na mesma casa em Stratford, com a nora e os três netos. Os avós ajudaram a criar Hamnet e devem ter cuidado do menino durante sua doença. 

Quanto às crenças de seus pais em relação à vida após a morte, especificamente as crenças de seu pai, existem algumas evidências que apontam para conexões católicas e crenças católicas semiocultas, e que sugerem que John Shakespeare gostaria que se fizesse algo pela alma de Hamnet, algo que talvez ele pedisse com urgência para seu filho fazer, ou que ele mesmo teria feito. As discussões ou súplicas ou lágrimas que podem ter acompanhado esses apelos se perderam irrevogavelmente. Mas é possível inferir o que o pai de Shakespeare (e, presumivelmente, sua mãe, ligada por nascimento a uma família muito católica de Warwickshire) consideraria necessário, adequado, caritativo, amoroso e, em uma palavra, cristão um ato nesse sentido. 

Os católicos não-conformistas, impedidos da confissão e da comunhão habituais, com frequência tinham intenso temor de uma morte que impedisse a oportunidade ritual de acertar as contas do pecador com Deus e de mostrar uma contrição apropriada, purificadora. (Essa é exatamente a morte que o pai de Hamlet, assassinado durante o sono, sofreu: "No reck'ning made, but sent to my account/With all my imperfections on my head./O, horrible! O, horrible! most horrible!" (Sem um reconhecimento, mas enviado a minha prestação de contas/ Com todas as imperfeições sobre minha cabeça/ Oh, terrível! Oh, demasiado terrível!). Quaisquer máculas que permanecessem após a morte teriam de ser queimadas na agonia do purgatório, a menos que os vivos tomassem medidas para aliviar o sofrimento e reduzir o tempo de prisão após a vida. Em 1596, no funeral de Hamnet, essa questão pode ter surgido. A alma do menino precisava da ajuda daqueles que o amavam. John Shakespeare bem poderia ter pedido a seu próprio filho William que pagasse missas para a criança morta, assim como sem dúvida queria que rezassem missas por sua própria alma. Pois seu pai estava ficando velho e em breve precisaria dos "trabalhos satisfatórios" capazes de abreviar a duração de sua agonia no além-vida. 

Se esse assunto delicado foi tratado, o dramaturgo teria sacudido a cabeça com irritação, ou teria pago silenciosamente missas clandestinas pela alma de Hamnet? Ele contou a seu pai que não podia dar ao filho ou, olhando à frente, que não daria a seu pai o que ele necessitava? Teria dito que não acreditava mais em toda a história da terrível prisão situada entre céu e inferno, onde os pecados da vida eram queimados e purgados? 

Seja o que for que decidiu na época, Shakespeare ainda devia meditar a respeito no final de 1600 e começo de 1601, quando se sentou para escrever uma tragédia cujo herói infeliz levava o nome de seu filho morto. Seus pensamentos devem ter sido intensificados pela notícia de que seu velho pai estava seriamente doente em Stratford, pois a ideia da morte do pai está profundamente entranhada na peça. E a morte do filho e a morte iminente do pai - uma crise de luto e memória - poderiam ter causado uma perturbação psíquica que ajudaria a explicar o poder explosivo e a interiorização de Hamlet. 

Todos os funerais convidam os que estão junto ao túmulo a pensar em que acreditam. Mas o enterro do próprio filho faz mais que isso: obriga os pais a fazer perguntas sobre Deus e o Universo. Shakespeare deve ter frequentado serviços regulares em sua paróquia protestante ou seu nome teria surgido nas listas de não-conformistas. Mas ele acreditava no que ouvia e recitava? Suas obras sugerem que tinha fé de algum tipo, mas não uma fé seguramente orientada para a Igreja Católica ou a Igreja da Inglaterra. No final da década de 1590, na medida em que sua fé poderia ser situada em uma instituição, essa seria o teatro, e não somente no sentido de que suas mais profundas energias e expectativas se concentravam nele. 

Shakespeare percebia que os rituais cruciais da morte em sua cultura tinham sido expurgados. Talvez ele tenha sentido isso com uma dor enorme junto ao túmulo de seu filho. Mas também acreditava que o teatro e sua arte em particular poderiam usar o grande reservatório desses sentimentos que, para ele e para milhares de seus contemporâneos, deixaram de ter um escoamento satisfatório. A reforma religiosa lhe oferecia, na verdade, um presente extraordinário e ele saberia como aceitar e usar esse presente. Shakespeare não era indiferente ao sucesso que poderia alcançar, mas não era somente uma questão de lucro. O dramaturgo usou a confusão, a dor e o temor da morte em um mundo de rituais danificados, o mundo em que a maioria de nós ainda vive porque ele mesmo experimentou essas emoções em 1596 no funeral de seu filho, e mais tarde, na morte de seu pai. Ele não reagiu com orações, mas com a mais profunda expressão de seu ser: Hamlet. 

Com Hamlet, Shakespeare fez uma descoberta por meio da qual relançou toda a sua carreira. A novidade crucial não envolvia desenvolver novos temas ou aprender a construir uma trama mais acabada, tinha a ver com uma intensa representação da interiorização, produzida por uma nova técnica de excisão radical. Ele repensou o modo de montar uma tragédia especificamente, repensou a quantidade de explicação causal de que uma trama trágica precisava para funcionar com eficácia, e o volume de raciocínio psicológico explícito de que um personagem precisava para ser convincente. O dramaturgo descobriu que podia aprofundar incomensuravelmente o efeito de suas peças, que podia provocar na plateia e em si mesmo uma intensidade de reação peculiarmente apaixonada, se removesse um elemento explanatório chave, ocultando assim a razão, a motivação ou o princípio ético que explicava a ação que se desenrolaria. O objetivo não era criar um enigma a ser solucionado, mas criar uma opacidade estratégica. Essa opacidade, Shakespeare descobriu, liberava uma enorme energia que havia sido pelo menos em parte bloqueada ou contida por explicações familiares e reconfortantes. 

A obra de Shakespeare fora, por muito tempo, cética de explicações e desculpas oficiais aos relatos, fossem psicológicos ou teológicos, de por que as pessoas se comportam de determinada maneira. Suas peças haviam sugerido que as opções que as pessoas fazem no amor são quase totalmente inexplicáveis e irracionais, essa é a convicção que gera a comédia em Sonho de uma Noite de Verão e a tragédia em Romeu e Julieta. Mas pelo menos o amor era o motivo claramente identificável. Em Hamlet, Shakespeare descobriu que se se recusasse a dar a si mesmo ou a seu público uma razão familiar e reconfortante que parecesse dar sentido a tudo, poderia conseguir algo incomensuravelmente mais profundo. A chave não é simplesmente a criação da opacidade, pois isso apenas criaria uma peça surpreendente ou incoerente. Shakespeare passou cada vez mais a confiar na lógica interior, a coerência poética que seu gênio e seu trabalho já lhe permitiam dar às suas peças. Destruindo a estrutura dos significados superficiais, ele criou uma estrutura interna por meio da repetição ressonante de termos chaves, o sutil desenvolvimento de imagens, a brilhante orquestração das cenas, o complexo desenrolar das ideias, o entrelaçamento de enredos paralelos e a revelação de obsessões psicológicas. 

Esse avanço conceitual em Hamlet foi técnico, isto é, afetou as opções práticas que Shakespeare fez quando montou a peça, começando pelo enigma da melancolia suicida e a suposta loucura do príncipe. Mas não foi apenas uma nova estratégia estética. A excisão do motivo deve ter surgido de algo mais que a experimentação técnica. Ocorrendo após a morte de Hamnet, essa mudança expressou a mais profunda percepção da existência por Shakespeare, sua compreensão do que se podia dizer e o que devia ficar não dito, sua preferência por coisas desalinhadas, danificadas e não-solucionadas às coisas nitidamente arranjadas, bem-feitas e definidas. A opacidade foi moldada por sua experiência do mundo e por sua própria vida interior: seu ceticismo, sua dor, seu senso de rituais rompidos, sua recusa aos consolos fáceis. 



Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves






terça-feira, 26 de março de 2019

DIDEROT E O TEATRO





Denis Diderot (1713-1784)


(Louis Michel van Loo - Retrato de Denis Diderot pintado em 1757)


Paradoxo do Comediante



Diderot foi e ainda é muito contestado por suas idéias e trabalhos. Se lhe 
resta um mérito indiscutível, talvez seja este: foi o primeiro a escrever um 
ensaio relevante sobre o trabalho do ator. O "Paradoxo do Comediante" já um tanto superado, ainda resiste como registro e provocação, como obra 
precursora de um debate que viria a ser central em nosso século. A seguir, 
um pequeno trecho do Paradoxo, obra construída em forma de diálogos:


"PRIMEIRO - Um grande ator não é nem um piano-forte, nem uma harpa, nem um cravo, nem um violino, nem um violoncelo, não existe um acorde que lhe seja próprio; mas ele toma o acorde e o tom que mais convêm à sua parte. E sabe executar todas. Tenho em grande conta o talento de um grande ator: esse 
homem é raro, tão raro e talvez maior que o poeta. Aquele que na sociedade se propõe a tal, e tem o infeliz talento de agradar a todos, não é nada, não tem nada que lhe pertença, que o distinga, que entusiasme uns e que canse os outros. Ele fala sempre, e sempre bem; é um adulador profissional, é um grande cortesão, é um grande ator. 

SEGUNDO - Um grande cortesão, acostumado desde que respira ao papel de um fantoche maravilhoso, toma toda a espécie de formas, segundo a vontade do fio que está entre as mãos do seu senhor.
 
PRIMEIRO - Um grande ator é outro fantoche maravilhoso cujo fio é seguro pelo poeta, e a quem ele indica a cada verso qual a forma verdadeira que deve tomar."




Feita essa introdução, leia o artigo de 

Porfírio Amarilla 

(Filósofo pela USP/FFLCH)



A verdade paradoxal do Comediante em Diderot 




Um dos aspectos mais relevantes das obras de Diderot (1713-1784) é a questão que ele propõe sobre as atividades do teatro francês e do ator de teatro. Para o primeiro, Diderot irá investir criticamente contra a estética que se apresenta, isto é, o teatro francês é inócuo, não suscita emoções, é convencional e incapaz de criar uma ilusão naquele que ao assiste e, por isso, peca pela artificialidade que se apresenta ao público. Ainda, regido por regras arbitrárias, o teatro francês é racional, discursivo e se expressa apenas para poucos espectadores, "escrito em um estilo alambicado, obscuro, tortuoso, empolado, está cheia de idéias comuns" (Diderot, René. Paradoxo sobre o comediante in A Filosofia de Diderot, Editora Cultrix, p. 165) 

Embora se encontrem opiniões sobre os textos de Diderot que convergem para sentidos opostos, umas dizendo que a sua obra é entrecortada por inclinações opostas, outras dizendo que as inclinações se alteram no decorrer dos escritos, pois os objetos mudam e por isso as idéias, que por si só são pontos de reflexão e plenas de atividades, mudam de acordo com a complexidade do objeto, há uma insistência e constância nas suas concepções teóricas. Para Diderot, em toda a sua trajetória, a função do teatro continua a mesma, isto é, a arte cênica é a imitação da própria vida; a realidade com qual a platéia deve se fundir, um a outro, a ponto de tomar para si a ficção pela realidade. O teatro ultrapassa a barreira do preconceito e do mero entretenimento, Diderot acredita que este deve transtornar o espectador ao ponto de abalar e causar-lhe um efeito duradouro, uma impressão que não se dilua após o espetáculo. O filósofo e dramaturgo participa um teatro como meio de comunicação, inspirado e desempenhado a favor de uma moral social, que possa agir sobre o público a partir de uma estética bem elaborada que suscite emoções de certo modo permanente no espectador, fazendo vir à tona a finalidade comum das artes, que é: "fazer com que o homem ame a virtude e odeie o vício" (Matos, Franklin de, O Filósofo e o Comediante, Ed UFMG, p.29). 

Desse modo, nesta trajetória, surge uma dramaturgia na obra de Diderot que promove a observação da natureza, não da natureza por ela mesma, mas uma observação refletida sobre modelos ideais, que ao reproduzi-los autor e ator se apliquem com ênfase na movimentação estilizada ao que é natural e ao abandono da proporção e da simetria. Pois, se por um lado o discurso elaborado é agradável aos ouvidos, por outro ordena as coisas e inibe as paixões. Assim, "compete à natureza dar as qualidades da pessoa, a figura, a voz, o julgamento, a sutileza. Compete ao estudo dos grandes modelos, ao conhecimento do coração humano, à prática do mundo, ao trabalho assíduo, à experiência e ao hábito do teatro, aperfeiçoar o dom da natureza. " (Diderot, opus cit, p. 165). Embora, como comenta o professor Franklin de Matos, este movimento da estética de Diderot nasça de um conceito de mimesis que se baseia na sensibilidade, espontaneidade, entusiasmo e se inclina, devido à experiência, quer como dramaturgo, quer como critico de arte; para a frieza, tranqüilidade e penetração, Diderot não abandona a sua crítica principal ao teatro clássico francês e a proposta de uma reforma da cena teatral. 

Para o segundo, retomando: o ator, Diderot afirma: "o comediante que representar com deliberação, com estudo da natureza, com imitação constante segundo algum modelo ideal, com imaginação, com memória, será um e o mesmo em todas as representações, sempre igualmente perfeito, tudo foi medido, combinado, apreendido, ordenado em sua cabeça (...)Ele não será desigual: é um espelho sempre disposto a mostrar objeto e a mostrá-los com a mesma precisão, a mesma força e a mesma verdade" (Diderot, opus cit, p. 167-168). Em suma, o autor pode ser em si mesmo verdadeiro sendo outro. À medida que o ator se apresenta frio, tranqüilo e compenetrado, mais ele terá o controle e domínios das suas emoções e assim, formando o paradoxo, ele poderá representar (imitar) de modo verdadeiro as emoções da personagem diante do público. 

O teatro é visto, neste momento das reflexões de Diderot, como um teatro das inflexões, que privilegia os componentes pré-verbais, isto é, a desarticulação de idéias, os monossílabos, os ruídos, os gritos, o que coloca a palavra em segundo plano com a ascensão das emoções. Mas isto não tira das mãos do poeta o valor da sua composição? Não, apesar do paradoxo que se forma mais uma vez, desde que o teatro seja visto como a voz do discurso do poeta, este movimento em verdade aproxima o ator da energia das palavras e das cenas que são postas aos seus cuidados, o verdadeiro palco, afirma Diderot, "é a conformidade das ações, dos discursos, da figura, da voz, do movimento, do gesto, com um modelo ideal imaginado pelo poeta, e muitas vezes exagerado pelo comediante. Eis o maravilhoso" (Diderot, opus cit, p. 175). Ainda que nenhuma língua seja capaz de dar conta da delicadeza e diversidade de uma emoção, as palavras do poeta, na perspectiva de Diderot, emergem da motricidade corporal com que o ator as representa no palco, a emoção brota da realidade observada e escrita pelo poeta, que pode agora indicar a energia passional que o seu texto exprime. O paradoxo de Diderot envolve duas "verdades" que aparentemente se afastam, mas que, de fato, se harmonizam a favor da perfeição. A perfeição das obras se medem pelo seu poder de iludir (Matos, Franklin de, opus cit, p.38), isto é, a cena de teatro perfeita é aquela que o público toma como verdadeira, sendo em si uma ilusão. 





segunda-feira, 18 de março de 2019

UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL, de Qorpo Santo




(Qorpo Santo - por Edu Oliveira)


UM CREDOR DA FAZENDA NACIONAL

Qorpo-Santo


PERSONAGENS:
Credor
Porteiro
Um Major
Um Contínuo
Empregados da repartição
Outro credor
Leopoldino ,Contador
Chefe de secção
Sr. Barbosa


ATO PRIMEIRO


UM  CREDOR – (entrando em  uma repartição pública; para o Porteiro) – Está o Sr.
Inspetor?
PORTEIRO – Está; mas não se lhe pode agora falar.
CREDOR – Por quê?
PORTEIRO – Está muito ocupado!

CREDOR – Em quê?

PORTEIRO – Tem gente aí com ele.
CREDOR – Quem é?
PORTEIRO – Um Major!

CREDOR – Demorar-se-á muito?

PORTEIRO – Ignoro.
CREDOR – Pois diga-lhe que lhe quero falar!
PORTEIRO – Não posso ir lá agora.
CREDOR – Quantas horas estarei eu aqui à espera que o Sr. Major saia para que eu entre!
(Passeia) .(O MAJOR, saindo e encontrando-se com o Credor.) 

CREDOR (para o MAJOR) – Oh! O Sr. por aqui! Julgava-o quem sabe onde! Disseram-me que tinha ido para Rio Pardo há dias!
MAJOR – Tenho tido aqui numerosos afazeres, por isso não sei quando irei.
CREDOR – Fique certo que sinto o mais vivo prazer em vê-lo no gozo da mais perfeita
saúde.

MAJOR – Onde é aqui a tesouraria?

CREDOR – Na Tesouraria estamos; mas o Tesoureiro está lá embaixo.

PORTEIRO – Lá, não; lá está o pagador!

CREDOR – Ah! Então é cá em cima; porém nos fundos; creio que na última sala.
MAJOR – Então para lá vou. (Segue.)
CREDOR – Agora entro eu. (Dirigindo-se à repartição.)
PORTEIRO – Está lá o Sr. Leopoldino Contador!
CREDOR – Ë célebre! Então vou à secção respectiva saber se foi informado o meu
requerimento! (Caminha, e entra.)
PORTEIRO – Que diabo de homem este! Tem vindo mais de um cento de vezes à
repartição... se há de...
CONTÍNUO – Faz ele muito bem [em] vir cá ! Deve-se-lhe, por que não se lhe há de
pagar?
CONTÍNUO – Homem; isso é verdade! Qual a razão por que esta repartição há de paliar meses e anos!?
PORTEIRO – Custa a crer a retardação de pagamento ou a preguinha, segundo dizem
alguns empregados!
CONTÍNUO – O caso é que ele tem procedido sempre com a maior prudência!
PORTEIRO – Isso é verdade. Mas quantos terão sofrido pela falta de cumprimento de
deveres de alguns funcionários públicos?
CONTÍNUO – Ë verdade! Tem havido tantos males, que enumerá-los talvez fosse
impossível.
PORTEIRO – Mas tu sabes o que os empregados querem? Talvez não saibas. Pois eu te digo: 
                        1º  – Acabar com a Monarquia  Constitucional e Representativa!
2º - Pôr termo às repartições públicas; isto é, acabarem com todas estas
imposturas!
3º- Mudar a forma de governo para República.
                        4º- Fazerem uma liga entre todos que...
CONTÍNUO – (pondo as mãos na cabeça e puxando as orelhas) – Estás louco! Homem! D’onde vieram-te esses pensamentos!? Se não mudas de modo de pensar, vais parar à Caridade.
PORTEIRO – Ah! Tu não ouves! És surdo!  Não vês. Tens olhos e não enxergas!
Ouvidos, e não ouves! Só falas! Tu verás a revolução que em breve se há de operar! Olha; eu estou  vendo o dia em que entra por aqui uma força armada; vai aos cofres, papéis. e rouba quanto neles se acha. Acende um facho, e laça fogo em tudo quanto é papéis.
CONTÍNUO – (a correr) – Ih! Ih! Ih! Parece que já estou ouvindo o tinir das espadas! A voz do canhão troar. Deus meu! Acudi-me! Ai! Que eu morro! (Cai sentado.)Ai! Ai! Estou cansado! Fadigado! Quase... Meu Deus! Quantas mortes vos aprazerá  ainda  fazer!? Quando vos compadecereis de vossos entes ainda que maus!? Quando se aplacará a vossa ira!?  Quando se saciará a vossa vingança! Céus! Que vejo! (Como amparado com as mãos;  pondo o corpo de lado; ao ouvir o som da trovoada que em cima se faz.) Ah!...
PORTEIRO -  (querendo acudi-lo) – Não é nada, companheiro e amigo! São os primeiros preparativos para a estralada que logo mais terá de ver e ouvir. Tranqüiliza o teu coração. Ainda não desceram raios, fogo, e tudo o mais que se há preparado para grande revolução! Começará de cima; e descerá à terra, como a saraiva em certos dias chuvosos. (Ouve-se nova trovoada; relâmpagos.)
CONTÍNUO – (melhorando pouco; e levantado-se)- Acho-me um pouco mais animado? Parece-me que isto não é comigo. Que dizes? Hem? (batendo no ombro do porteiro.) Que diabo, pois eu nada fiz, o que devo temer!? Sou muito pusilânime.

PORTEIRO – Tu sempre foste um poltrão. De tudo te assustas; de tudo tens medo! Diabo! (Empurra-o) Toma juízo! Deixa-te de...

CONTÍNUO – Ora, ora! E não entendo o que é ter juízo, pelo que vejo, e pelo que ouço. Vivo em minha casa. Trabalho incessantemente em proveito meu, e da minha

família. Não ofendo a pessoa alguma! Sucede-me isto! Dizei-me: - O que é ter juízo?

PORTEIRO – Ter juízo é cometer... e... ai!ai! (pondo as mãos no rosto) que também estou ficando doente!

CREDOR (voltando) – Ainda hoje não recebo dinheiro! Prometeu-me um Empregado, e a mais um indivíduo que espera... Como de... (Sai.) Veremos se se pode receber segunda-feira!

UM DOS EMPREGADOS – Por que razão não se há de pagar a este homem!?

OUTRO – Eu sei disso!?

CREDOR –(voltando) – Não    tenho melhor resolução a tomar, que a de sentar-me em

uma das cadeiras desta repartição e nela esperar até que se me pague.

CERTO INDIVÍDUO – Então, por quê?
CREDOR -  Ora, porque!? Porque não dou um passo que não encontre um ,que não
 me peça o aluguel da casa. Outro, que não me peça... que não me fale!...
O INDIVÍDUO – Tudo isso é bom!
CREDOR – É ; é; para certos indivíduos; para mim é péssimo! Nunca gostei de ser 
atacado em casa, quanto mais pelas ruas da cidade! Todos os que compelem a
honra, ou aos que desejam viver com seriedade, - a essas cenas, - deveriam em minha opinião ficar condenados a idênticos; ou a outros procederes piores, contrários à sua vontade, ou desejos.
O INDIVÍDUO  (com a mão querendo fazer uma cruz) – Resquié d’impace! Resquié
d’impassere; Amem! Amem! N’amem! N’amem! (Saindo). E vou m’embora (Sai)

  

ATO  SEGUNDO

  

Salão em que trabalham diversas secções


CREDOR (entrando) – É a vigésima... não me lembro se quinta ou sétima vez que venho a esta casa haver aluguéis de casa! E talvez ainda hoje saia sem dinheiro! (À parte: ) Mas eles hão de se arranjar! (A um dos empregados, o Contador: ) Vossa Senhoria faz-me o obséquio de dizer se está despachando o conteúdo, ou quer que seja, quando a um requerimento que aqui tenho?
CONTADOR – Será... (lendo)  Castro... Car... Cirilo, Dilermando!?
CREDOR – Não! É um requerimento meu, assinado – José Joaqim de Qampos Leão,
Qorpo-Santo.
CONTADOR – Ah! Esse está no chefe da quarta secção.
CREDOR – Bem, então lá irei.(Dirigindo-se ao chefe: )Faz-me o obséquio de dizer se já está despachado um requerimento que aqui tenho?
CHEFE (apontado) – Fale ali com o Sr. Barbosa.
CREDOR (dirigindo-se a este) – Ainda não encontrou o que procurava a meu respeito?

BARBOSA – Ainda não! Há aqui tantos papéis!

CREDOR – Ora, com efeito! Pois tanto custa ver um ofício da Presidência, ou ver o
assentamento que em virtude desse ofício deve existir no livro competente? Isto é, no mesmo em que se acham debitados tais aluguéis!? (Senta-se.)
CHEFE – V. Exa. Não adianta nada em esperar aqui! Antes atrasa o serviço para conseguir o que quer; deixe estar que está se trabalhando!
CREDOR – Eu, nem venho interromper, nem venho adiantar! Mas apenas saber! Parece-me cousa tão simples; tão fácil...
BARBOSA – São três ofícios da Presidência que o Sr. Inspetor quer ver! Não é um só.
CREDOR – Srs., eu já sei o que hei de fazer, o que os Srs. querem! Voltarei em tempo!
(Ao sair, encontra-se com outro.)     
O OUTRO – Então, não!? (Dá-lhe uma caixa de fósforos.)
CREDOR – Estou doente; e assim fico todas as vezes que venho a esta casa, e dela saio
sem dinheiro!
O OUTRO – Então fico eu pelo Sr.! (O Credor sai; e o Outro entra.)
O OUTRO – Muito custa esta casa pagar a quem deve! Faz-se uma dúzia de requerimentos para se obter um despacho! Cada requerimento leva outra dúzia de informações! O despacho definitivo obtém-se por milagre! E a paga ou dinheiro que a alguém se deve – quase à força, ou pela força!
UM DOS EMPREGADOS – (para esse Indivíduo) – Com efeito! O Sr. é audaz de mais!
O OUTRO – Não! Não é por audácia! É apenas referir o que se passa... o que é verídico!
EMPREGADO – Sim; mas nós não temos culpa!
O OUTRO- Nem eu inculpo a alguém! Mas receio, Srs., que os numerosos incômodos que tenho sofrimento, pelo procedimento que esta repartição para comigo – vai tendo; os vexames; as faltas; as privações; e até as enfermidades que tem me causado e numerosos outros transtornos, farão de repente com que se espalhe fogo nestes papéis – e tudo se incendie (Toca uma caixa de fósforos numa mesa; esta incendeia-se; ele a atira para as mesas de um dos lados; faz o mesmo à outra, e atira para outro lado; enquanto os empregados trabalham para apagar o fogo em alguns papéis que começam a incendiar-se, ele sai.)


(Já se vê que há descompostura; repreensões; atropelamento, carreiras em busca d’ água; ligeireza para se-apagar; aparecimento de alguns outros empregados, ao ouvirem o grito de fogo, etc.

Pode acabar assim; ou com a cena da entrada do Inspector, repreendendo a todos pelo mal que cumprem seus deveres; e terminando por atirarem com livros e penas; atracações e descomposturas etc.)


Por


José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo.

Em Porto Alegre, de 26 a 27 de Maio de 1866.



Fonte:
LEÃO, José Joaquim de Campos (Qorpo Santo). "Um Credor da Fazenda Nacional". Teatro Completo, Guilhermino César (org). Rio de Janeiro : Serviço Nacional de Teatro/ Fundação Nacional de Arte, 1980. p. 137-145 (Clássicos do Teatro Brasileiro, 4).

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Selma Suely Teixeira - Curitiba/PR

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para .

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domingo, 10 de março de 2019

LUKASZ GIERANCZYK ESCREVEU: A IMAGEM EM AÇÃO




A IMAGEM EM AÇÃO 

(Honoré Daumier)

O essencial na dramaturgia é imaginar os grandes sentimentos humanos, vivenciá-los e passá-los para o texto através das ações dos personagens. (Luís Alberto de Abreu)* Se você quer aprender a escrever uma peça de teatro pode começar se acalmando: você tem a vida inteira para aprender! Isso quer dizer que não existem regras fixas a serem decoradas. Quer dizer também que existem tantas maneiras de escrever uma peça que se passa a vida inteira aprendendo não como fazer uma peça, mas como fazer melhor! Isso quer dizer também que, no fundo, no fundo, todos nós sabemos como fazer uma peça de teatro. Só não descobrimos essa verdade. Ou não acreditamos nela. Esse foi o jeito que aprendi. E foi esse o jeito que a maioria dos dramaturgos aprenderam. Como é que se faz um ator? Cursando uma escola ou não, um ator só se faz entrando num palco, não é? Com um dramaturgo não é diferente. Como tudo na vida, dramaturgia se aprende fazendo, botando a mão na massa. Bem, então, se não há regras fixas, se todos sabemos fazer uma peça de teatro e se dramaturgia aprende-se fazendo, é só pegar lápis e papel ou uma máquina de escrever ou um computador e sair fazendo? Não. E repito: pode ir se acalmando! E pode ir se preparando para fazer uma coisa que não é difícil mas exige muita atenção e muito trabalho. Em compensação é uma aventura emocionante. AÇÃO! 
(Jean-Antoine Watteau)

Você vai assistir a uma peça, vê, no palco, aquele bando de atores falando, discutindo e acha tão empolgante que resolve, ao chegar em casa, também escrever a sua. Afinal, uma peça de teatro não passa de personagens conversando uns com os outros, certo? Errado! E esse é o mais grave erro que, em geral, se comete. Teatro não é texto, não é diálogos (pelo menos, não é só isso). Teatro é ação! Pronto, começou a complicar! Não, a coisa não é complicada. Só é preciso, repito, um pouco de calma para se entender o que é, de fato, uma peça de teatro. Isso é importante para não se escrever uma “conversa” ou uma poesia ou um conto e imaginar que isso seja uma peça de teatro. É preciso, antes, limpar a área (E isso dá algum trabalho!) para a gente saber que, no final das contas, fazer dramaturgia é algo muito simples. E que no fundo, no fundo, de uma forma ou de outra, todos sabemos como fazer uma peça de teatro. Voltemos ao assunto. O que é ação? Ação é o que se faz. Um grande crítico e estudioso inglês, chamado Eric Bentley definiu o teatro simplesmente como “o que umas pessoas fazem a outras pessoas”. E aqui chegamos a alguma coisa. Fazer algo a alguém ou a si mesmo pressupõe conflito e quanto mais significativo for esse fazer maior a intensidade desse conflito. É diferente alguém fazer outra pessoa comprar um litro de leite na padaria ou fazer alguém matar seu grande amigo. Uma peça de teatro trata desse segundo fazer, desse fazer coisas difíceis, importantes, significativas. Teatro, necessariamente é assim, porque teatro é uma forma breve, concisa, sintética. No curto espaço de tempo de uma, duas ou três horas vislumbramos a trajetória de toda a vida de um personagem. E, como temos pouco tempo, escolhemos as ações mais significativas da trajetória desse personagem, pois são as ações mais significativas que melhor revelam a vida dessa personagem. Voltando: ação é fazer coisas a outros ou a si mesmo. E, principalmente, é fazer coisas significativas. Antes de prosseguir é bom esclarecer: a ação teatral é, fundamentalmente, interna, do coração, da alma. Portanto, não confunda movimentação, correria sobre um palco com ação. Uma pessoa pode estar imóvel sobre uma cadeira e, mesmo assim, vivendo uma ação intensa. Como? Uma lembrança de uma ação passada pode Ihe inspirar uma mágoa intensa ou uma grande felicidade. Bem, aqui chegamos ao ponto central: no interior de nós mesmos. É aí, na morada das nossas mais profundas emoções e alegrias, é onde nasce uma peça de teatro. De resto, é onde nasce qualquer arte. Começou a entender por que eu dizia, a princípio, que, no fundo, todos sabemos como escrever uma peça? Grandes emoções e alegrias. É disso que trata a arte dramática. Se somos capazes de perceber em nós mesmos essas grandes emoções e alegrias estamos prontos para a arte dramática. Só fica faltando aprender a comunicá-las às outras pessoas com a intensidade que as sentimos. E para esse aprendizado temos a vida inteira. IMAGINAÇÃO, IMAGEM EM AÇÃO! Bem, você já sabe que o mais importante numa peça não são os diálogos. Os diálogos são um meio importante para revelar uma série de ações dos personagens. A essa série de ações dá-se o nome de enredo. O enredo, segundo o filósofo Aristóteles, o primeiro que escreveu sobre a estrutura de uma peça de teatro, é a alma da Tragédia. Na comédia, embora esta possua formas diferentes de estruturação, o enredo é também muito importante. Então, comecemos por ele. E, para começo, esqueça o filme que assistiu, a peça que leu, a novela que viu. O processo artístico começa dentro da gente mesmo, na investigação de nossa própria sensibilidade. Procure uma imagem. É necessário que seja uma imagem humana porque teatro é feito através de personagens e atores. É necessário que seja também uma imagem significativa, ou seja, que esse ser humano, cuja imagem você vê, esteja num momento de grande intensidade. Veja o rosto desse ser humano, olhe em seus olhos e abra sua sensibilidade para compreender o que ele está sentindo e o que o levou a este momento intenso. E o que ele vai fazer a partir daí. Pronto, você já está começando a partir de si próprio, a estruturar o seu enredo. Isso quer dizer que para se escrever uma peça é preciso antes, sensibilizar o que está sentindo seu personagem. Sentindo como o personagem, imaginando passar pelos mesmas dificuldades, pelas mesmas grandes emoções e alegrias por que passa um personagem é a melhor forma de começar aprender a fazer uma peça de teatro. É o personagem que nos ensina, é nessa íntima relação com ele que aprendemos. 


FINALMENTE 
(Aristóteles)

O espaço é pequeno e o assunto é extremamente extenso, Mas como afirmava o filósofo grego Heráclito “o ser humano não precisa saber muitas coisas, precisa saber o essencial” O essencial da dramaturgia na minha opinião é imaginar os grandes sentimentos humanos e passar por eles, vivê-los de alguma forma. Se conseguimos isso o passo seguinte é comunicar esses grandes sentimentos através de personagens, ações, palavras, música e espetáculo. O caminho é extenso mas para isso temos a vida toda, Técnica, método, macetes, todo o resto vem com o fazer. E se me permitem alguns conselhos eu os dou porque também me foram dados e me foram muito úteis; leiam os autores clássicos, Eles sabem mais do que nós e, com eles, apuramos nossa sensibilidade que é a melhor forma de aprender. Aprenda com eles mas faça do seu próprio jeito. 

E para quem quiser aprofundar a reflexão sobre a estrutura de uma peça de teatro indico dois livros que para mim foram essenciais: A Poética, de Aristóteles (Os pensadores, Abril Cultural) e A Experiência Viva do Teatro, de Eric Bentley (Zahar Editores) E para finalizar um pensamento de Goethe; 

“Tudo o que quiseres ou te sentires capaz de fazer começa! A ousadia tem gênio, poder e magia.”


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A BIBLIOTECA BÁSICA DE TEATRO




AS 30 PEÇAS MAIS IMPORTANTES NA HISTÓRIA DO TEATRO OCIDENTAL.





A Cantora Careca
Eugène Ionesco 

Peça em um só ato que fez de Ionesco um dos quatro nomes do antiteatro (com Adamov, Becket e Tardieu).Francês, de origem romena, Ionesco usa a linguagem coloquial, mas sem o significado habitual. Inaugurando o Teatro do Absurdo, La Cantatrice Chauve (de 1950), revolucionou a dramaturgia.Ex-revisor, as peças Rhinoceros (59) e Le Pieton de L’Air (63) trouxeram para ele a fama de ser um dos maiores teatrólogos do seu tempo. 


A Celestina
Lope de Vega (Lope Félix de Vega Carpio) 

La Celestina é, para os críticos, o texto mais maduro e profundo de Lope de Veja, uma das maiores comédias de todos os tempos. Ele foi, certamente, o autor de teatro que mais produziu: cerca de 1.800 peças, além de contos, e novelas e poemas.A história, originalmente, era uma novela curta, depois adaptada para o teatro por ele mesmo. Em espanhol, Celestina passou a ser sinônimo de destino, contra o qual não adianta lutar. 


A Moratória
Jorge de Andrade 

Ao ser lançada, em São Paulo, a peça não fez sucesso de público, mas foi muito bem recebida pela crítica, que comparou Jorge de Andrade a Tenessee Williams e a Arthur Miller.A ação é simultânea, em 1929 e 1933, exigindo dois planos no palco para contar a história de uma família paulista do meio rural, lutando para sobreviver à decadência do café e ao desespero. 


A Morte do Caixeiro Viajante
Arthur Miller 

A história de um homem frustrado mas ambicioso, que acaba por ter consciência do fracasso e tenta uma jogada final, em benefício da família.É o trabalho mais conhecido de Miller e o mais premiado (inclusive com o Prêmio Pulitzer de 1949).Mas muitos críticos preferem Depois da Queda. Ele começou a escrever para teatro aos 16 anos, no colégio e se dizia influenciado por Ibsen. 


A Ópera dos Três Vintens
Berthold Brecht 

Dreigroschenoperé inspirada em Beggars Opera, de John Gay. Escrita em 1928, também tem traços de Edward II, de Christopher Marlowe.Sempre insatisfeito, Brech rasgou o texto, esqueceu-o, voltou a escrevê-lo.É uma ópera popular sobre um bandido londrino, suas aventuras, sua condenação e o perdão que recebeu.Brech tem um humor muito pessoal, alemão, seco, e uma incrível percepção para pequenos detalhes da vida comum.Brecht fugiu do nazismo, viveu nos Estados Unidos, voltou para a Alemanha (Oriental) em 1947, onde produziu a melhor parte da sua obra, inclusive de teoria teatral.Em 1955 recebeu o Prêmio Stalin da Paz. 



A Profissão da Senhora Warren
Bernard Shaw (George Bernard Shaw) 

Uma das peças mais representadas e representativas do irlandês Shaw. Escrita em 1893, só foi encenada em 1902, por causa da censura britânica.É que a prostituição é apresentada sem a tradicional condenação moralista e sem sentimentalismo romântico.É uma comédia de costumes que diverte mas que toca no problema social e econômico da sobrevivência da mulher pobre e desamparada. 


A Tempestade
William Shakespeare 

The Tempest é a última tragédia escrita por Shakespeare e foi montada durante as festas de casamento da princesa Elizabeth (futura rainha da Boêmia). A história tem várias fontes e explora os depoimentos sobre o naufrágio do Sea Venture, que abalaram a Inglaterra do início do século XVII. O nome Caliban tem sido apontado como anagrama de canibal.As passagens mágicas e sobrenaturais são típicas do bardo.A peça é de 1609 mas foi encenada dois anos depois. 


As Cerejeiras
Anton Tchecov (Anton Pavlovich Tchecov) 

Último trabalho do autor para o teatro, é uma crônica de decadência e nostalgia, a história de uma família culta e aristocrática que perde tudo, inclusive uma cerejeira.Obra-prima de inteligência e humor foi encenada pelas primeira vez em 1904.Os críticos discutem até hoje, se Tchecov foi maior contista ou dramaturgo. Nélson Rodrigues dizia que o som do machado, abatendo a cerejeira na cena final, era a coisa mais dramática que ele havia visto em teatro. 


Casa de Bonecas
Ibsen (Henrik Johan Ibsen) 

Foi a peça que deu fama universal ao a Ibsen e criou o chamado ibsenismo. Ela é de 1879 e inaugura a fase social do autor.Casa de Bonecas passou anos em cena, em Londres e em Berlim. 


Don Juan
Tirso de Molina (frei Gabriel Téllez) 

A peça de maior sucesso e que deu fama ao dramaturgo espanhol. O Don Juan em El Burlador de Sevilla é uma mistura do personagem folclórico com as fantasias do Molina: o herói libertino é profundamente humano e bem humorado.Ele escreveu cerca de 80 peças mas foi sempre acusado de copiar outros autores e até de comprar trabalhos de anônimos.Comparado a Shakespeare, ele é mais ousado que Lope de Veja, embora menos engenhoso, mas certamente é o autor de alguns dos momentos mais brilhantes da dramaturgia mundial. 


Édipo Rei
Sófocles 

Encenada em 430 antes de Cristo, Oedipus Rex é a maior das sete tragédias que restaram da obra de Sófocles. È a história da cidade de Tebas, assolada por uma epidemia.O rei, Édipo, consulta um oráculo e ele diz que o castigo só será suspenso quando forem punidos os assassinos do rei Laio.Investigando, Édipo descobre que foi ele mesmo quem matou o pai e casou com a mãe, sendo o responsável pelo flagelo de Tebas. Sigmund Freud usa o personagem para nomear o complexo de Édipo. 


Entre Quatro Paredes 
Jean-Paul Sartre 

Huis Clos é uma peça em um ato.Os personagens, após a morte, descobrem que o inferno são os outros e que o sofrimento a eles reservado é a convivência. Anos depois, Sartre mudou de opinião. 


Hamlet
William Shakespeare 

A mais admirada das tragédias de Shakespeare e sobre a qual há maior número de ensaios.Hamlet é o príncipe herdeiro da Dinamarca. Ele quer vingar a morte do pai, cujo fantasma aparece a ele nas muralhas do castelo de Elsingor. Apaixonado e violento, Hamlet mata o pai de sua amada Ofélia. 


Lisístrata
Aristófanes 

Encenada em 411 antes de Cristo essa comédia mistura erotismo, humor e farsa: é a história da tomada da Acrópole e do tesouro de Atenas pelas mulheres. Instigada por Lisístrata, elas organizam uma greve de sexo até que os homens façam a paz. 



Longa Jornada Para Dentro da Noite
Eugene O’Neill (Eugene Gladstone O’Neill) 

A peça é autobiográfica, “drama de uma velha dor, escrito com lágrimas e sangue”, nas palavras do autor.É o sofrimento de uma família entre o amor e o ódio.Só foi encenada em 1941, depois da morte de O’Neill. Segundo sua mulher, ele escreveu sem sair do quarto e era possível ouvi-lo chorando enquanto escrevia. 


Maria Stuart
Friedrich van Schiller (Johan Christoph Friedrich van Schiller) 

Drama histórico, em cinco atos, sobre os dias que antecedem a execução da rainha da Escócia, por ordem de Elizabeth da Inglaterra. Goethe, ao contrário da crítica contemporânea, considerava essa peça uma das mais importantes do teatro e escreveu que ela era a prova de que a verdadeira liberdade nada tinha a ver com a mobilidade física. 


Medeia
Eurípides 

Quando Jasão abandona Medeia por uma princesa grega, ela resolve vingar-se: seu amor transforma-se em ódio mortal que sacrifica a princesa e os filhos de Jasão. Ele é impedido de beijar as crianças mortas e ainda ouve as pragas que Medéia lhe roga, prevendo para ele um destino miserável. Eurípides foi o mais trágico dos trágicos gregos. 


O Auto da Compadecida
Ariano Suassuna 

Um auto de fé, à maneira medieval, contada como um folhetim de cordel do Nordeste. Cristo é negro e, a pedido de sua mãe, a Compadecida, perdoa Chicó e sua espertezas para sobreviver. É um clássico e uma das peças mais encenadas no Brasil. 


O Avarento
Molière (Jean Baptiste Poquelin) 

O tema é o homem (Harpagon) desumanizado e doente pela ambição do dinheiro. Uma comédia, embora Goethe dissesse que era uma tragédia.L’Avare é de 1668 e é uma das peças mais encenadas em todos os tempos. 


O Inspetor Geral
Nikolai Gogol (Nikolai Vasilievich Gogol) 

A corrupção e a desonestidade na administração pública da Rússia czarista, denunciadas numa peça que é um libelo contra a burocracia e o formalismo dos administradores. Gogol era funcionário público. Para os contemporâneos Gogol era o maior humorista russo. 


O Juiz de Paz na Roça
Martins Pena (Luís Carlos Martins Pena) 

Fundador do teatro brasileiro, Martins Pena escrevia sobre os costumes da época no Rio de Janeiro. O Juiz de Paz era uma autoridade da província, que explorava a ingenuidade das partes misturando ignorância e esperteza. A comédia, em um ato, foi encenada pela primeira vez em outubro de 1838, no Teatro São Pedro (que não existe mais). 


O Misantropo
Molière (Jean Baptiste Poquelin) 

Le Misasnthrope não cuida da misantropia e sim da cegueira geral em que cada homem está envolvido (como diz Celimene). Alceste é um censor feroz de todos à sua volta e invoca as mais altas razões para justificar suas decisões mais mesquinhas.É uma comédia psicologicamente profunda e fascinante. 


Orestíada
Ésquilo 

Essa trilogia (compreendendo Agamemnon, Eumenides e Choephori) é a origem da tragédia. Ésquilo é o mais antigo e um dos maiores trágicos gregos e seus temas são a tirania, o ódio, a opressão, sempre observados do ponto de vista político e psicológico. A trilogia é a história criminosa da casa de Atreus: Agamemnon é morto pela mulher, Orestes é perseguido pela mãe, Citemnestra vinga seu pai matando a própria mãe. 


Peer Gynt
Ibsen (Henrik Johan Ibsen) 

As peripécias de um herói lendário do folclore norueguês que não conhece valores absolutos.Ibsen foi o criador do moderno teatro realista.Sua penetrante psicologia e a poesia constante mas discreta, valeram a ele um lugar de destaque entre os maiores nomes do teatro em todos os tempos. E o termo ibsenismo, criado por Bernard Shaw. 


Romeu e Julieta
William Shakespeare 

A tragédia dos dois jovens (Julieta tinha apenas 13 anos) já era conhecida em um poema de Arthur Brooke, datado de 1562.Nele é que Shakespeare inspirou-se para escrever a sua tragédia e a mais popular das suas obras. Os críticos não são particularmente atraídos pela peça que, no entanto, foi escolhida em votação popular como a mais conhecida em todo o mundo. 


Seis Personagens à Procura de um Autor
Luigi Pirandelo 

A mais famosa peça do escritor italiano (Prêmio Nobel de Literatura em 1934) foi recebida pelo público romano com vaias e protestos em 1921. Ela procura revelar o mecanismo da criação literária, mostrando a dificuldade de fazer coincidirem a realidade e as necessidades da criação artística. 


Senhorita Júlia
Strindberg (Johan August Strindberg) 

A luta dos sexos somada à luta de classes: uma drama violento, frenético como os anos da revolução industrial que parecia querer devorar o homem.Uma peça naturalista (embora ele fosse romântico, melancólico, solitário e instável). 


Vestido de Noiva
Nelson Rodrigues (Nelson Falcão Rodrigues) 

Sua melhor peça, incorporando à dramaturgia a linguagem coloquial e técnicas de corte inéditas. O palco tem três planos: a realidade, a alucinação e a memória. Encenada na década de 40, depois de enormes dificuldades para vencer a censura, é tida como a maior peça do teatro brasileiro.Sua encenação deu início ao moderno teatro do Brasil. 


Vida e Morte Severina
João Cabral de Melo Neto 

Um longo poema transformado em teatro para contar o drama dos retirantes nordestinos com a seca no semi-árido brasileiro. Musicado por Chico Buarque, tornou-se uma ópera popular. É outra das peças mais encenadas do teatro brasileiro. 


Volpone
Ben Johnson 

A melhor comédia do autor e uma das mais amargas da dramaturgia. É a história dos herdeiros que, para conseguirem a herança de um velho agonizante, perdem o próprio dinheiro, a honra, e são enganados por ele. A peça é de 1606. Aos 45 Bem Jonhson já havia escrito todas as suas peças. Ganhou uma pensão do governo, parou de escrever e ainda viveu vinte anos.



Pesquisa e texto de Luiz Lobo